A defesa de Lula diga o que quiser…

…mas recibos de pagamento de aluguel datados de 31 de junho e 31 de novembro (!), recibos com erro de grafia (“São Bernanrdo”), recibos datados de domingos e feriados (incluindo um emitido quando Lula estava de férias), e recibos com a mesma data de vencimento com quitação em dias diferentes não fazem ninguém acreditar na inocência do ex-presidente. Ainda mais quando, pelo que consta, tudo foi supostamente pago em dinheiro vivo e nada tem registro em cartório.

Se, como diz a defesa,

Pela lei, bastaria à Defesa ter apresentado o último recibo com reconhecimento de quitação, sem qualquer ressalva de débitos anteriores, para que todos os demais pagamentos fossem considerados realizados. É o que estabelece o artigo 322, do Código Civil. Mas a Defesa apresentou todos os recibos a que teve acesso, a fim de afastar qualquer dúvida.

…então deveriam ter se restringido a apresentar o último recibo, sem adicionar todos esses papéis esquisitos que trazem mais dúvidas do que afastam.

É possível sim que tudo isso seja só um monte de erros grosseiros mas inocentes, mas o conjunto tem forte aparência de fraude.

(Vejam as reportagens do G1 e do Antagonista para mais informações. O contrato e os recibos estão neste link)

 

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Contra a tentativa de censura de um artigo pró-colonialismo

Há alguns dias, a ANPUH (Associação Nacional de História)* encontrou um artigo de um certo Bruce Gilley publicado na Third World Quarterly, uma revista científica da área de Estudos Internacionais (link original aqui). O artigo (intitulado The Case for Colonialism) defendia que o legado do colonialismo europeu não havia sido de todo ruim, nem de todo ilegítimo, que a ideologia anti-colonial havia causado danos terríveis a alguns dos países, e que alguns dos Estados mais frágeis se beneficiariam de um retorno da agenda colonial.

Polêmico, sem dúvida. Mas historiador não pode ter medo de polêmica, certo? Boa parte do trabalho da profissão envolve discussões sujeitas a objeções de todo tipo.

A resposta da ANPUH consistiu em lançar uma nota convocando seus seguidores no Facebook a assinar uma petição para a “retirada imediata” do artigo. Reproduzo-a abaixo na íntegra com alguns trechos em destaque:

Tempos sombrios…

A ANPUH vem encorajar todas e todos a assinar uma petição para retirada imediata do artigo recém-publicado na Revista Third World Quarterly – publicação do Taylor & Francis Group – em defesa, acreditem ou não, do colonialismo.

Como muito bem apontado pela Dr. Farhana Sultana professora associada da Syracuse University, o texto é ultrajante, imoral, negacionista, distorce fatos históricos, promove um discurso de ódio, dissemina a ideia da supremacia branca e europeia, além de sugerir uma agenda para uma suposta “recolonização”, desrespeitando a memória de todos os seres humanos que sofreram nos países ocupados.

Nota importante: não baixem o texto pelo site da revista, não citem ele em seus trabalhos, para não impulsionar suas métricas. Ele pode ser lido no Post original da Prof.ª Sultana aqui:

https://www.facebook.com/farhanasul…/posts/10101130697230492

Assine o manifesto aqui:
https://www.change.org/p/editors-of-the-third-world-quarter…

#colonialism #supremacy #racism #brutality #YesYoureRacist #ThirdWorld #TWQ #TaylorandFrancis

Sabem, é por causa deste tipo de coisa que ninguém leva os historiadores muito a sério. A Associação Nacional de História tropeçou em um artigo defendendo o colonialismo em uma revista científica de pouco impacto, e o que faz? Lança uma nota pedindo a destruição do artigo, e fazendo a recomendação mesquinha de que ninguém cite o artigo para não impulsionar as métricas (aparentemente, preocupar-se com as métricas é mais importante do que suscitar discussão!). Segundo a associação, isso se justificaria porque além de distorcer os fatos históricos, o artigo seria “ultrajante”, “imoral”, e “desrespeitoso” – do que conclui-se que para a ANPUH, é justo censurar um artigo por ferir a moral e a honra. Ultrajante, imoral, desrespeitoso, e portanto censurável… os caras já nem conseguem disfarçar. Um cientista ou um filósofo não empregaria essas palavras carregadas de moralismo ao rejeitar uma tese; e um historiador também não deveria. Esses são os termos que um fanático religioso usaria para tentar desqualificar quem discordou dele.

Certo ou errado, justo ou exagerado, o consenso moderno entre os historiadores é de que o colonialismo foi péssimo para as regiões colonizadas; nada mais esperado, portanto, do que ver uma associação de historiadores rejeitar um artigo que sugira o contrário. Mas por que não refutar o artigo em vez de tentar eliminá-lo? É uma associação de historiadores, afinal. Se os argumentos do Sr. Gilley são tão ruins assim, deveria ser fácil reunir alguns dos membros mais qualificados em história colonial para escrever um artigo contrário. Aliás, deveria ser o primeiro pensamento do grupo: combate-se discussão acadêmica errônea com discussão acadêmica correta, não com petições. Que tipo de historiadores são esses, que tendo tamanha oportunidade de flexionarem os músculos intelectuais contra um alvo tão fácil, preferem fugir da luta e obrigar que retirem o adversário do ringue? Se o erro existe e é tão grosseiro, por que não refutar, por que não mostrar onde o erro está? Que professores, educadores, e pesquisadores são esses que, confrontados com um (um!) artigo que os contradiz entre centenas que lhes são favoráveis, optam por excluir aquele único divergente sob alegações de afronta à moral? Que tem a moral a ver com verdade histórica?

Só dá para concluir que essa gente não é séria. Nem eles se levam a sério, na verdade: tendo a oportunidade de discutir e atacar as idéias do artigo como historiadores, preferiram agir como moleques de DCE que assinam petições para tentar ganhar no grito. Ou como religiosos fanáticos para quem qualquer divergência é afronta e merece paulada.

 

 

*Previamente, Associação Nacional dos Professores Universitários de História – vem daí a sigla.

Compartilhando: o Brasil é conservador

No meio da interminável discussão do caso Santander (não imaginava que duraria tanto), um dos melhores textos veio do Flávio da Editora Humanas. Quem quiser veja a página toda e decida se concorda ou não com as idéias do moço, mas de uma coisa não há dúvida: o autor é um dos poucos humoristas de hoje que conseguem fazer um humor-denúncia que realmente é engraçado. A gramática do texto é horrível, alguns pontos específicos são contestáveis, mas a idéia geral está 100% correta, e explica o Brasil melhor do que qualquer textão de militante de universidade federal. Vou reproduzir o texto aqui tal como o encontrei, para que ele não se perca na próxima purga do Facebook.

O Brasil é conservador

Não se deixem iludir pelos números das últimas eleições, a esquerda não venceu, quem venceu foi o comodismo.

O brasileiro médio, o pai de família tá cagando e andando pra Marx e Mises, o tiozão só quer uma caixa de Skol e o tanque do chevettão cheio pra descer pra Praia Grande com a patroa e as crianças.

Fernando Henrique lhe proporcionou isso, foi reeleito, Lula proporcionou isso, se reelegeu, Dilma não proporcionou isso, fizeram o diabo pra reeleger ela mas não adiantou, o tiozão colocou a camisa da seleção de 98 com metade da barriga pra fora e foi protestar. Dilma foi chutada da presidência.

“Ah mas e o Temer?”

Claro que ele é bandido da mesma espécie de Dilma e Lula, mas a economia voltou a crescer, mais pela Dilma ter saído e as empresas terem voltado a investir do que por mérito do Temer, então o tiozão acordou mais tarde no domingo e resolveu deixar pra ver quem vai ser o novo presidente em 2018.

“Mas como você pode afirmar que o brasileiro é conservador?”

Primeiro, pare e pense na sua rua, no seu prédio, quantas famílias tradicionais tem e quantas “famílias alternativas” tem?

Sua família, é conservadora ou você já viu seu avô falar de ideologia de gêneros no almoço do domingo?

Fernando Henrique, Lula e Dilma se elegeram sem nunca tocar em assuntos como aborto e drogas, só prometeram o que o tiozão quer: o tanque do chevettão cheio e 50 conto pra tomar uma cerveja.

Muito se fala de banheiro misto nas escolas, em 876 gêneros, em legalização de drogas e aborto… Mas todas essas pautas sempre são escondidas nas eleições, e tentam colocar na prática muito por baixo dos panos, e não vão conseguir se o tiozão souber, a prova disso foi a exposição do Santander. Tava lá quieta, recebendo dinheiro do contribuinte e vazia, porque ninguém gosta dessas merdas,mas aí alguém fotografou e o tiozão viu, ai fodeu, em um dia o banco virou as costas pra galerinha progressista e fez a vontade de quem realmente sustenta não só o banco, mas o país.

Então, não tenha vergonha de ser conservador, no fundo, 90% do Brasil é, inclusive o Lula, ele é bandido, mas duvido que algum neto dele brinque de boneca, o seu ele deixa brincar, o dele não.

Se você não mora no Leblon ou em Pinheiros, certamente conhece um tiozão desse, e provavelmente deve ser filho dele.

 

 

Sobre a mostra Queermuseu do Santander

Se alguém aí está chocado, apoplético, absurdado com a “censura” da mostra cultural Queermuseu, é porque passou os últimos anos sem prestar atenção no estado da vida intelectual da nação.

Para quem não acompanhou a polêmica da semana: o Santander Cultural resolveu fazer uma mostra “artística” ao custo de R$800.000,00 de isenção fiscal via lei Rouanet (ou seja, deixaram de pagar 800 mil de impostos para bancar o troço, com aval do governo). A mostra Queermuseu incluía coisas como hóstias pichadas com palavrões e desenhos mal feitos com legendas como “criança viada travesti da lambada”, em meio a um monte de clichês pseudotransgressores.

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“Arte transgressora”, versão quarta série. Esta e outras fotos podem ser vistas neste link.

Uma bela porcaria, portanto – no conteúdo e na forma, mas muito especialmente nesta última. Claro que a mostra continha obras melhores, mas estava coalhada daquele tipo de produção que reivindica o nome de “arte” exclusivamente pelo choque que causa nas pessoas comuns; e que de resto, não exige técnica, não exige esforço, não exige inspiração, não exige busca pelo belo, não exige nada, e não exige sequer a boa vontade de se fazer entender pelo público. É a lacrada pela lacrada, simplesmente.

Bom: queriam chocar, e chocaram; e o resultado foi previsível para qualquer um que não esteja intoxicado pela romantização da “luta” e do povo. A mostra caiu no conhecimento do público (graças a visitas escolares e a páginas como a Socialista de IPhone) e gerou uma tempestade de indignação moral, com direito a acusações (no mínimo exageradas) de blasfêmia e pedofilia, que causou uma campanha de boicote ao Santander, que intimidou o banco, que cancelou a exposição. Restou o choro livre aos apoiadores.

Nossa intelectualidade está indignada com esse ato de censura e intolerância. O El País arranjou três artistas para reclamarem da censura conservadora, e a Mídia Ninja já saiu chamando o MBL (que teve muito pouco a ver com a história) de nazista (que visão! Prêmio Godwin para eles). Artistas assinaram um manifesto (aparentemente, é isso que os artistas mais fazem hoje em dia) e prometeram protestos.

Eu, porém, tenho um pouco de memória. O que aconteceu nos últimos dias pode ser resumido em um grupo fazendo pressão sobre uma instituição privada porque esta ofendeu a moralidade do grupo; e não faltam exemplos nos últimos anos de grupelhos que se arvoraram o direito de fazer A MESMA COISA, e com bem menos apoio popular, mas defendendo uma moralidade progressista. Por exemplo, para ficar só no mundo da arte:

– Começando em 2012, grupos de pressão acusaram a obra de Monteiro Lobato de ser racista, com diferentes subgrupos exigindo medidas como o banimento da obra ou a pelo menos a adição de notas explicativas. O caso chegou a ir ao STF; alguém aí veio dizer que “arte tem que chocar” em defesa dos livros?

– Em 2014, artistas protestaram contra o financiamento israelense à Bienal de Arte de São Paulo, já que, segundo eles “Ao aceitar esse financiamento, o nosso trabalho artístico exibido na exposição é prejudicado e, implicitamente, usado para legitimar agressões e violação do direito internacional e dos direitos humanos em curso em Israel”. Aliás, boicotes a artistas israelenses são bem comuns por aí, justificados em nome da rejeição à ocupação da Palestina. Alguém aí lembrou de dizer que “financiar não é apoiar”, como estão dizendo agora?

– Em 2015, o Itaú cultural cancelou a exibição da peça “A Mulher do Trem” por causa de acusações de racismo feitas pela militância. A peça tinha um ator fazendo blackface (em linguagem comum, um branco pintado de preto). A remoção da peça por conta deste pecado tão específico (quem além da militância americanizada conhecia isto?) gerou alguma reclamação por parte dos bem-pensantes?

– Em junho de 2016, Mc Biel viu sua carreira implodir após dizer safadezas para uma repórter que o entrevistou e se comprometer ainda mais nas explicações. Grupos online escavaram suas publicações, encontraram a tradicional combinação de machismo, racismo etc etc, e tanto barulho fizeram que intimidaram os produtores. Alguém achou isso imoral ou censório? (OK, neste caso nem eu)

– Em maio deste ano, cineastas nacionais e críticos de cinema organizaram um boicote (hilário, que eu comentei aqui) ao CinePE por conta da exibição do filme O Jardim das Aflições. A grandiloqüência do manifesto era ridícula e autoritária, mas vocês viram algum desses paladinos da tolerância criticar os cineastas?

– Há menos de um mês, uma dessas bandinhas alternativas (Apanhador Só) teve que cancelar shows após o furor gerado entre os fãs pela lavação de roupa suja de uma ex-namorada do guitarrista, que o acusou de ser desleal, abusador, e machista. O público ficou em chamas, e não quis mais saber da banda. Intolerantes, por acaso?

Minha visão é bem simples: primeiro, a vitória dos “conservadores” esta semana é só um sinal de que eles estão jogando o mesmo jogo que os “progressistas” e obtendo algum sucesso. Jogo, aliás, que nem foram os progressistas que inventaram: lobbying é mais antigo que andar pra frente, não é necessariamente ruim, e não é algo que se consiga banir da vida em sociedade. E uma vez existindo, existe para todos em algum grau: quem acha que o seu grupinho deve poder gritar e boicotar uma obra que lhe ofende precisa admitir esse mesmo direito para os demais grupos.

Segundo, cada um dos grupinho mencionados neste texto estava em seu pleno direito de manifestação (ao menos até começarem com práticas ilegais), mesmo aqueles cujas pautas me parecem erradas ou meio exageradas. Do mesmo modo, as empresas envolvidas tinham pleno direito de financiar as obras polêmicas e também pleno direito de retirá-las de cartaz quando acharam que seriam prejudicadas.

Terceiro, e mais importante: ter o direito de manifestar-se não torna a manifestação boa, justa e tolerante. É intolerância SIM querer barrar uma exposição ou um artista (mesmo que porcaria) só porque alguém discorda dela e ficou ofendido, como aconteceu nos casos mencionados acima. Mas acho importante lembrar que, no caso Santander pelo menos, havia mais fatores além da rejeição moral ao conteúdo e da rejeição estética da forma: o evento foi feito com dinheiro público (renúncia fiscal via lei Rouanet) e não tinha classificação etária, tendo sido inclusive recebido visitas de grupos de alunos de escolas de Porto Alegre. Ainda que se queira plena liberdade para exposição artística, não é razoável querer que o cidadão financie tudo isso calado e para todos os públicos.

E por fim quarto, só para não perder o costume: tem certeza que você quer um país em que tudo se dobra à vontade popular, amiguinho? Lembre-se que as idéias da massa não costumam coincidir com os ideais mais progressistas e tolerantes. A rejeição ao Queermuseu não foi ação de meia dúzia do MBL (ao contrário do que estão dizendo), foi um evento com adesão popular maior do que todos os outros protestos mencionados neste texto. Você quer mesmo que o país se torne um campo de batalha em que você tenha que medir forças com essa gente?

Sobre a prisão e soltura do tarado do ônibus

O pessoal está em chamas por causa do último tarado que a polícia prendeu e a justiça soltou (e agora prendeu de novo), e eu sinto informar-lhes que trago uma pá de areia e um balde d’água.

Diego Ferreira de Novais, 27 anos, foi preso na terça-feira (29/08) após masturbar-se em público e ejacular no pescoço de uma passageira dentro de um ônibus em São Paulo. Na audiência de custódia, no dia seguinte, o juiz José Eugênio do Amaral Souza Neto mandou soltá-lo por entender que “não houve o constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco do ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação do Indiciado”. A história foi noticiada bem assim; e naturalmente, foi o que precisou para levantar a indignação geral comdecisão do juiz, que foi xingado de tudo quanto é nome por ter soltado o tarado.

Mas todo esse ultraje moral é, no mínimo, mal posicionado. O juiz que mandou soltá-lo na quarta-feira alegando que “não houve constrangimento” estava absolutamente certo, fez a única coisa que podia fazer, e não disse nada de absurdo ao negar ter havido “constrangimento”. Todo esse alvoroço em torno da decisão é fruto da incompetência da imprensa em informar os cidadãos e da falta de noção generalizada dos formadores de opinião.

Explico: o vagabundo havia sido preso em flagrante acusado de violar o artigo 213 do Código Penal (crime de estupro lato sensu), e pela lei sua prisão em flagrante deveria ser levada diante do juiz em 24h para a audiência de custódia – que é só uma audiência preliminar na qual se decide se vai haver prisão preventiva ou não. Isso é lei desde 20111 e foi regulamentado em 2015. Ocorre que, já nesta audiência, o juiz constatou que o ato dele não se encaixa no crime definido no artigo 213, que diz:

“Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.”

Como qualquer um pode ver, o crime definido pelo artigo 213 pressupõe o uso de violência física ou grave ameaça, coisa que não houve no caso de terça-feira; o tarado sequer chegou a encostar na moça enquanto se masturbava. E só para constar, a palavra “violência” sem adjetivos qualificantes tem o sentido mais literal possível para a Justiça: uso de força física contra a vontade do alvo.

Lendo o artigo, também fica óbvio qual o sentido do verbo constranger na legislação: não significa “deixar embaraçado”, significa “forçar, obrigar a”. Quando o juiz escreveu que “não houve o constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça”, ele se referia a “constrangimento” no sentido dado pelo artigo 213 do Código Penal, que é o de forçar alguém a fazer algo. De novo, com outras palavras: ELE NÃO DISSE QUE A MULHER NÃO FICOU CONSTRANGIDA/EMBARAÇADA, ELE DISSE QUE NÃO HOUVE CONSTRANGIMENTO NOS TERMOS DO ARTIGO 213. Qualquer um pode ler a decisão dele neste link, se não acreditar em mim. Na decisão, vê-se que o próprio Ministério Público pediu o relaxamento do flagrante, e a defensora pública do acusado concordou (evidentemente). A soltura dele não foi minimamente controversa entre quem avaliou o caso, nem entre quem entende do assunto.

Como o juiz apontou, a nojeira que o tarado fez se encaixa no artigo 61 da Lei das Contravenções Penais, que não prevê pena de prisão. Como não pode haver prisão preventiva para crime que não tenha pena de prisão2, ele tinha que soltar o infrator.

Eu também estaria reclamando se o juiz tivesse tomado uma decisão espúria, mas desta vez a culpa pela soltura não foi do magistrado, foi da lei. E um juiz tem que sempre seguir o que a lei determina, mesmo quando ela parece inadequada.

Caso o ato se enquadrasse no artigo 213, é muito improvável que o juiz mandasse soltar o tarado. Aliás, foi o que aconteceu neste sábado: o sujeito atacou outra mulher, mas desta vez ele a agarrou: isso basta para o crime se enquadrar no artigo 213 (houve violência e constrangimento), e o tribunal o colocou em prisão preventiva.

Resumindo: desta vez, a culpa pela soltura não foi do juiz, foi da lei. Você está indignado? Você acha que o certo era ter prendido logo de cara, ainda mais que ele já tinha outras cinco passagens pela Justiça por crimes parecidos? Você quer uma solução para este problema? Que ótimo! Eu também acho, eu também quero, e a maior parte da população brasileira concorda.

Mas para isso, é preciso atacar o problema certo, não o espantalho do problema. É preciso atacar a lei branda que temos, não o juiz que a fez valer. É preciso discutir a ineficiência da lei, não um desses moinhos de vento ideológicos que de tempos em tempos seqüestram os debates sérios.

E acima de tudo, é preciso não cair no delírio coletivo. Nenhuma solução de verdade pode surgir no meio de distorções, mentiras, e ultraje moral.

 

Notas:

1Ver a modificação do artigo 306 do CPP

2Ver artigo 313 inciso I do Código do Processo Penal, e também este texto.

Links comentados II

Declaração do gênio do Acre na volta para casa: “Eu desenvolvi uma teoria cosmogônica sobre como funcionava o universo através das experiências visuais que eu tava passando e essa linha vermelha ela chama barreira potencial de finitude”. Cosmogonia significa “origem do universo”, não “mecânica do universo”; “barreira potencial da finitude” não quer dizer nada, e a frase é gramaticalmente horrível. Cada país tem o gênio que merece.

Um certo flockoflambs decidiu interpretar os deuses lovecraftianos como alegorias para crenças sociais e impulsos irresistíveis da humanidade, semelhante à identificação de Moloch com o problema da coordenação. Não li tudo, e não sei o quão interessante isso pode ser depois da descrição de Moloch e Gnon; mas quem sabe surge ali algum ensaio inspirado?

Página decididamente feminista afirma que os “pais incríveis” na verdade não fazem quase nada perto do que as mães fazem, e tenta prová-lo através de uma lista hilária de coisas com as quais nenhum pai se preocupa. Entre os itens, estão coisas como ler blogs sobre introdução alimentar (!), pensar no tema da festa de aniversário (!) do filho com seis meses de antecedência (!!!), e comprar o livro de pediatria da moda. A página parece achar que não fazer essas coisas é ruim, por alguma razão; e eu, de minha parte, fico extremamente aliviado ao constatar que 99% dos pais e 95% das mães não acham esse tipo de bobagem essencial à tarefa de criar os filhos.

Atentado terrorista mata 14 e deixa mais de 130 feridos em Barcelona. Os terroristas eram muçulmanos, como sempre, mas desta vez há outra coisa a mencionar: a Justiça espanhola havia se recusado a extraditar o mentor dos ataques em 2015 quando ele foi preso por tráfico de drogas. O tribunal considerou que Abdelbaki es Satty não era perigoso e estava tentando integrar-se ao país! Eu pergunto a mim mesmo quantos crimes horrendos não se poderia prevenir se nós apenas não nos recusássemos a aplicar os rigores das leis que já temos para punir os criminosos logo na primeira vez que eles delinqüem.

Mulher reencontra anel de noivado em cenoura; ela o havia perdido 13 anos atrás ao trabalhar na horta!

Depois que um juiz barrou (irregularmente, segundo dizem e segundo acredito) a entrega do diploma de doutor honoris causa a Lula pela UFRB, um grupo de universitários da instituição resolveu presenteá-lo com um diploma de mentirinha… que continha erros de português. Não deixa de ser bastante ilustrativo da qualidade das instituições de ensino superior criadas por Lula (A Universidade Federal do Recôncavo Baiano foi criada – ou melhor, desmembrada da UFBA – em 2006), e do tipo de “dicente” que por lá se encontra.

Professora de português é brutalmente agredida por aluno de 15 anos do EJA em Indaial, SC, por tê-lo mandado pôr o livro sobre a mesa (!). Lendo as postagens no Facebook da distinta senhora, descobrimos que trata-se de uma militante petista que posta isto, isto, mais isto, e isto, e ainda isto. Ah, claro, e isto, isto, isto, isto, isto. Como ela fechou o perfil após a repercussão negativa (o pessoal não perdoou…), deixo aqui os prints principais:

marcia friggi prints
À esquerda, a postagem em que a professora relata a agressão injustificável que sofreu; à direita, a mesma professora justificando a agressão ao outros… (prints de mais de uma fonte)

Que fique claro: ela não mereceu ser agredida, independente das idéias que apóia e das noções tortas que tem sobre o emprego da violência. O criminoso aqui é exclusivamente o anjinho de quinze anos que achou por bem espancar a professora simplesmente porque quis. Só acho importante também apontar a incoerência do discurso de uma mulher que acha justo sair na porrada porque “tem muita gente merecendo um olho roxo”, mas acha injusto que os outros lhe dêem porrada. Seria bom que ela aprendesse, após este episódio, que justificar a violência particular contra uns implica em justificá-la contra todos, mesmo que não seja essa a intenção. Mas não vai aprender; pela entrevista nojenta que ela deu à rádio gaúcha (ver comentário aqui) – em que a ouvimos toda prosa, com ar triunfante, fazendo discurso político e desligando na cara do repórter quando pega em um assunto difícil – já ficou bem claro que ela é uma militante esquerdista bitolada mesmo.

Chico Buarque, o bem-amado da militância, agora está sendo acusado de machismo. Motivo: a letra de sua nova música, “Tua Cantiga”, falaria em abandonar a mulher e ficar com a amante. Podem rir, é isso mesmo: os movimentozinhos sociais já chegaram ao ponto de exigirem recato e respeito aos bons costumes dos compositores, tal qual os censores mequetrefes do período militar. Aliás, a resposta zombeteira que ele deu à acusação levaria qualquer um com menos cacife a perder o emprego e ser massacrado online. Mas ele é o Chico, o artista de esquerda por excelência… então ele pode. No final, quem é do clubinho pode tudo; é o resto dos mortais que não pode nada.

Stephen Kanitz é contra a privatização da Eletrobrás, alegando que não vale a pena vender 100% do patrimônio agora, na baixa, na bacia das almas. Parece que ninguém o avisou que a tal “privatização” da Eletrobrás NÃO é a venda de 100% das ações do governo, e sim a emissão de mais ações para que a participação do governo caia para  48%. O governo está fazendo o que ele sugeriu, e ele está criticando sugerindo a mesma coisa!

A propósito, vai ter privatização até da Casa da Moeda, eeeba! Não, isso não é mentira, e também não é nenhum absurdo.

Em caravana pelo nordeste, Lula sobe no palanque junto com Renan Calheiros. Já começaram os malabarismos para justificar a aliança da alma mais honesta do Brasil com o mais notório malandro do Brasil.

A propósito, Lula afirmou durante sua visita a Pernambuco que o aumento dos homicídios no estado se deu por conta do aumento da pobreza. Ou, como resumiu a Caneta Desesquerdizadora no Facebook: Lula disse que pobres são bandidos. Falta o doutor Lula explicar como é possível a taxa de homicídios ter aumentado em todos os estados do Nordeste, exceto Pernambuco, durante os anos de governo do PT. Por acaso, ao contrário do que Lula diz, esses lugares ficaram mais pobres durante o Governo do Povo™?

Inês Brasil, a dos infinitos memes, tirou uma foto com Jair Bolsonaro. Segundo a (até então) musa da comunidade LGBTQ, um segurança do folclórico deputado lhe pediu que fosse tirar a foto, e ela foi, porque, segundo a própria, ela PODERIA TER DITO NÃO MAS EU SOU A FAVOR DO AMOR E QUANDO UNS RESPONDEM COM ÓDIO EU RESPONDO COM AMOR E SEMPRE RESPONDEREI. Os mui compreensivos fãs (que gritam contra o ódio e pedem mais amor por favor) estão descascando a ex-musa na publicação.

Lembrando que, recentemente, Pepê e Neném – negras, periféricas, lésbicas, e ex-pobres – declararam apoio a Jair Bolsonaro (diferente de Inês Brasil, que só tirou foto e disse não apoiar político nenhum), e também sofreram ataques dos mesmos militantes que minutos antes juravam amá-las pelo que elas eram. Eu não acho que Bolsonaro tenha muita chance de ser eleito presidente – mas com essas demonstrações de apoio espontâneas vindas de onde menos se espera… eu tenho que admitir que a possibilidade existe.

Stephanie Ribeiro sabe o que melhor lhe convém

Stephanie Ribeiro é uma ativista do feminismo e do movimento negro muito conhecida nas redes sociais. Desde que despontou para a fama em princípios de 2014, a moça tem feito uma bela carreira como colunista: seus textos foram publicados tanto em veículos muito específicos (Geledés, Blogueiras Negras, Capitolina) quanto muito populares  (Huffington Post Brasil, Marie Claire, Folha de SP), sempre recebendo forte apoio de seus numerosos seguidores. Atualmente, ela está escrevendo um livro a ser publicado pela Companhia das Letras, e vem sendo chamada para participações em eventos e programas de TV (na última quinta-feira esteve no Encontro com Fátima Bernardes, na Globo – interessantemente, ela não viu problema em aparecer naquela emissora golpista que não cansa de passar vergonha…).

Ainda em 2015, Stephanie rapidamente foi alçada à condição de musa na falecida página das Aventuras na Justiça Social no Facebook (que hoje continua na versão 4.0 e no site) graças a sua inegável beleza (ela foi modelo, até!) e seu inegável pendor para escrever bobagens gradiloqüentes. A despeito de seu sucesso na mídia alternativa e na mídia mainstream, a moça escreve mal (“E antes que alguém diga que não vê diferença entre seres humanos por sua cor, você pode até não ver, mas as estatísticas que mostram que a cada 23 minutos um jovem negro morre neste País mostram que muitos veem e nos matam por isso.“), argumenta com ainda menos qualidade (vide o trecho supracitado), e defende posições espúrias difíceis de conciliar com um ativismo sério. Stephanie joga-meu-nome-no-Google Ribeiro é aquela que chama homens negros que se relacionam com mulheres brancas de palmiteiros (e insinua que isso deve ser condenado moralmente!), que acha que Leonardo Sakamoto é um branco racista, que diz que homem branco tem tendência para ser burro, que acha agressivo um branco contrariá-la usando um texto escrito por um negro (!!!), que acha impossível um branco sofrer racismo, que acha que homem cis-hétero-de-classe-média não pode criticar o feminismo, que acredita em apropriação cultural, que acha que rolezinho em shopping center é “resistência política”, que reclama de preconceito lingüístico quando criticam sua gramática, que insinua uma associação do termo humor negro com o racismo, que defendeu até o fim o governo de uma mulher branca e rica porque… porque sim (a despeito do “genocídio negro” promovido durante os anos de governo do partido da presidenta inocenta), e que atribui até mesmo seu transtorno depressivo ao racismo (muito embora boa parte dos brancos também sofre dessa doença, mas enfim). A menina é a encarnação do estereótipo da militante problematizadora de classe média.

Há poucos dias, depois de Stephanie Ribeiro ter aparecido na TV, a AJS4.0 decidiu relembrar algumas das presepadas de sua musa preferida postando prints de comentários antigos em que Stephanie fazia alguns ataques… politicamente incorretos contra brancos, por assim dizer. Mas para a surpresa de todos, a combativa Stephanie Ribeiro desta vez não quis brigar; em vez disso, ela contatou a moderação da página via inbox pedindo que os prints fossem removidos, pois ela estaria arrependida de tê-los escrito. A Págine foi bastante cavalheira: removeu as imagens em questão, explicou sua decisão aos leitores, e desejou sorte à moça em sua nova fase. Vale a pena ler o que a moderação escreveu:

“Isso não significa que estamos preparados para aplaudir o que Stephanie diz. Seria melhor que ela tratasse o tema do racismo com mais cuidado. Dizer que sofre racismo 24h por dia, por exemplo, parece uma hipérbole. Hipérboles não costumam ser amigas da verdade e da justiça. Mas – o que é importante – nós jamais alegamos que Stephanie e outras pessoas negras não sofrem racismo no Brasil. É justamente porque acreditamos que sofrem, sim, que gostaríamos que ativistas como ela fossem sempre mais cuidadosos, mais rigorosos, mais pensativos, mais curiosos. Seu arrependimento e reconhecimento de que errou ao fazer aqueles comentários é um ótimo passo nessa direção. Desejamos ainda mais sucesso à Stephanie – e que use esse sucesso para o bem.”

Concordo, e acho que é uma boa atitude a se manter. Só devemos combater pessoas por suas idéias e ações; no momento em que os pensamentos ruins e as atitudes problemáticas se vão e os danos são reparados (na medida do possível), não sobram muitas razões aceitáveis para continuar atacando seus antigos portadores.

Dito isso, eu não acredito que Stephanie tenha se arrependido de nada, exceto da repercussão negativa que os prints lhe rendem hoje.

A postagem inclui um novo print do perfil da ativista (onde estou bloqueado preventivamente), que contém o textinho em que ela expressa seu arrependimento. Ei-lo reproduzido aqui:

print15 ste
(eu não escrevo maravilhosamente bem, mas não consigo não notar as peculiaridades da gramática stephaniana…)

Desculpem-me os bons, os otimistas, e os de suprema boa-fé; mas o conteúdo do texto não me permite acreditar que o arrependimento dela seja tão profundo e tão digno de boa vontade quanto a moderação da AJS parece crer. Talvez ela tenha sido mais convincente nas mensagens privadas, mas eu não vejo neste texto nada que indique uma mudança real de pensamento. Nestas poucas linhas de arrependimento faltam três coisas importantíssimas para uma autocrítica sincera:

 

  1. Ela não diz que errou. Em momento nenhum ela afirma ter agido errado, mas sim ter agido de forma que hoje ela julga inconveniente para seu objetivo de “somar pessoas”. Ela se arrepende de suas palavras não terem ajudado o discurso a ser amplo e a “somar”, não necessariamente de o discurso ser discriminatório. Já é um começo, claro: que bom que ela finalmente percebeu que xingar os brancos indiscriminadamente (hehe!) não ajuda em nada na luta contra o racismo -mas eu lembro bem que o ponto de contenção com ela não era só a falta de visão estratégica, era também a visão racista. Esta última, não temos evidência de que mudou. Afinal…
  2. Ela não diz de que se arrependeu. Quem se arrepende, sempre se arrepende de alguma coisa, não? Stephanie não diz do que. Ela alude vagamente a “coisas que foram ditas na raiva” (assim, na voz passiva mesmo), que não “somam” e não eram lúcidas. Que coisas? Por que não dizer com clareza que se arrepende de ter dito coisas como “homem branco tem tendência a ser burro?” Por que não dizer que se arrepende de ter estereotipado e desqualificado a opinião de todos os brancos? O arrependimento exige clareza, demanda precisão, precisa da coragem de assumir que errou: mas afinal, qual foi o erro? E cadê a admissão?
  3. Ela não pede desculpas pelo que fez. Quem se arrepende de fato costuma sentir um peso na consciência ao pensar em como seus atos afetaram os outros. As palavras de que hoje ela se arrepende foram ofensivas, mas ela não vê razão para pedir perdão aos possíveis ofendidos. As palavras foram, segundo conseguimos inferir do texto, divisivas e prejudiciais à causa – mas ela não se desculpa com seus seguidores ou com por isso. Arrependeu-se, de fato?

E se falta muito do que caracteriza um arrependimento sincero, por outro lado sobram aqueles elementos típicos de um texto de controle de danos, feito por quem não quer assumir, mas sim afastar de si a culpa que outros lhe atribuem. Reparem que:

  1. Ela procura desculpas para si. Ela usa as escusas de sempre que todos usam para diminuírem o peso da responsabilidade por suas ações: dizer que era jovem (faz só dois anos…), dizer que agiu sob efeito da raiva, e dizer que se sentiu atacada. Só faltou dizer que tinha bebido.
  2. Ela considera o que disse como parte de um “processo”. Um tanto cripticamente, ela afirma que o que fez é parte do processo de lidar com a violência racial. Se é uma etapa de um processo, a atitude dela se torna menos criticável, já que seria necessária para atingir um estágio mais avançado de pensamento e atitude. E se é importante para lidar com a violência racial – que ninguém apóia – então se torna mais passível de perdão. É uma maneira de afastar a culpa.
  3. Ela tenta despertar compaixão na platéia, ao fazer a afirmação absurda de que sofre racismo 24 horas por dia (até dormindo? Até conversando com a mãe?).

Não é, decididamente, o que eu esperaria de uma declaração genuína de arrependimento. Não a vejo assumir responsabilidade, não vejo ali objetividade, e não vejo um pedido de desculpas.

Vejo uma ativista que entrou para o mainstream midiático fazendo controle de danos.

Dois ou três anos atrás, ainda galgando os degraus da escada da lacração, Stephanie não via nenhum problema em xingar, em estereotipar, em extravasar sua raiva e seu preconceito contra os brancos (e contra os negros que divergissem dela…). Isso lhe era útil à época: fazia barulho, trazia mais seguidores, trazia a atenção das outras ativistas do meio. Atacar e ser atacada era bastante proveitoso, embora sem dúvida estressante.

Hoje a situação é diferente; a moça já está estabelecida na militância, já tem contrato com editora, já aparece em programa de TV. Já chegou no mainstream. E agora – com os olhos do grande público ali, voltados para ela, e o dinheiro dos editores podendo sumir ao menor sinal de insegurança ou boicote por parte do público – agora armar barraco só atrapalha. Antes a confusão atraía seguidores úteis e detratores que, no mínimo, não eram danosos (e eram facilmente bloqueáveis); hoje, o limite de seguidores fiéis já foi atingido, e a polêmica traz alguns detratores que podem causar danos reais: uma centena deles que veja aqueles prints e se ofenda pode começar uma campanha de boicote, que pode persuadir a editora a não publicar seu livro por medo do furor público. Uma campanha denunciando seu racismo pode impedi-la de seguir o caminho da Djamila Ribeiro e virar assessora política, ou de ser chamada para a TV como comentarista. Os movimentos de que ela participa, inclusive, são ótimos em fazer isso; ela já deve estar familiarizada com a possibilidade real de ser alvo de algo similar.

Antes, despertar a raiva dos outros era vantajoso; ela o fazia. Haters que só aumentam o tráfego da página e o cacife dentro da militância não fazem muito mal. Hoje, esses mesmos haters podem ser bem mais danosos a sua carreira, que sem dúvida já começou a render dinheiro; então agora ela quer paz. Agora ela pede educadamente para esquecerem o passado.

Eu sei que posso estar sendo pouco generoso; mas não consigo crer que o arrependimento dela seja puramente moral quando a admissão do crime é tão pífia e o timing é tão adequado. Não é pela ideologia, é pela conveniência. Tal como antes, ela está fazendo o que é mais conveniente para si. É pela conveniência que ela não cita diretamente do que se arrependeu – para que atrair atenção para o que se quer esconder? É pela conveniência que ela não diz que errou – já que boa parte de seu público não acha que ela estava tão errada assim, e podem não gostar do mea culpa.

Se com isso parece que eu estou dizendo que ela é calculista e não tem moral… admito que é compreensível que pareça, mas não é nisso que acredito; minha visão é um pouco mais complexa, mas não vou detalhar aqui. Tenho certeza de que ela não é um monstro calculista que pensa friamente sobre o melhor para si sem qualquer consideração pelo aspecto moral; acho que ela realmente pensou e pensou e acredita que decidiu moralmente. Mas a descrição que ela faz de seu arrependimento é tão editada pela conveniência que está claro que esta última teve muito peso ali. Muito mais do que a moral. A imagem que o texto me passa é a de uma dessas (muitas) pessoas cujo raciocínio moral é contaminado pelo raciocínio da conveniência a todo tempo. Por isso, não me considero no dever de acreditar que seu arrependimento advém de uma mudança moral profunda.

Finalizo: tal qual os moderadores da AJS4.0, não desejo mal a Stephanie Ribeiro, e acho que já é um bom progresso ela parar de atacar os brancos e focar em aspectos mais produtivos do discurso – mesmo que por razões egoístas. Uma mudança por conveniência é melhor do que nada; mas ainda não é o ideal, e não deve ser confundida com o ideal. Que o melhor não seja inimigo do bom e não nos impeça de apreciá-lo; mas que o bom não usurpe o lugar do melhor, e não nos faça dar a gente movida pela conveniência mais crédito do que elas merecerem.