Resumo: divulgação dos áudios do Reinaldo Azevedo

Resumo resumidíssimo da divulgação das conversas de Reinaldo Azevedo e Andréia Neves, segundo entendi até aqui: numa palavra, LAMBANÇA.

Ao contrário do que se disse por aí nos últimos dois dias, parece que Reinaldo não foi vítima de um ataque direcionado, mas sim de dano colateral causado pela incompetência do Fachin. O Estado de Direito Brasileiro continua a mesma porcaria de sempre, ameaçado muito mais pela burrice do que pela má-fé.

Eis o que eu encontrei:

1. Andréia era investigada e estava grampeada com autorização da Justiça. Conversou com Reinaldo, e a conversa foi registrada – tudo bem até aí.

2. Os áudios não contêm evidência de crime, segundo a própria PF e a PGR (e como pode perceber qualquer um que leu os transcritos). Eles não foram anexados como prova de nada (novamente, ver notas da PF e da PGR), e por isso não deveriam ter sido divulgados – ao menos, essa é a interpretação mais correta da lei 9296, que regulamenta o uso de interceptações telefônicas nas investigações. O problema começa aí.

3. Não houve vazamento por parte da PF ou da PGR, aparentemente; o que houve foi que Fachin levantou o sigilo de todas as 2200 gravações obtidas na operação, indiscriminadamente, antes mesmo que a PGR pudesse pedir a exclusão dos diálogos inúteis segundo o artigo 9o da lei 9296.

4. Reinaldo não foi alvo selecionado de divulgação; não foi vingança ou ataque deliberado por parte de uma autoridade. Todas as conversas que não continham prova foram liberadas indiscriminadamente; a dele viralizou porque ele é famoso. O Filipe G. Martins, no Facebook, inclusive postulou uma explicação para como justamente o Buzzfeed – e não algum dos vários inimigos de Reinaldo Azevedo na mídia – teria encontrado a conversa: Reinaldo e Andréia mencionam o site em uma das conversas. O Buzzfeed pesquisou pelo próprio nome do site nos transcritos, e acabou achando material para um furo de reportagem.

5. O errado nessa história não é Janot (como eu mesmo tinha achado no começo), mas Fachin. O ministro tirou o sigilo de tudo de baciada; conversa criminosa, conversa de jornalista, conversa familiar, parece que até conversa com advogado (!), tudo foi jogado ao público, sem que ele sequer citasse no despacho a lei 9296 (que trata das interceptações) ou fizesse qualquer consideração sobre a preservação de fontes jornalísticas. É quase como se ele nem tivesse se atentado ao fato de haver conversas não probatórias no lote.

6. Resta a dúvida se Fachin fez isso por pura incompetência ou por um misto de incompetência e fervor ideológico pela divulgação pública, como seu despacho faz parecer. Mas parece que foi ele quem errou mesmo; inclusive, depois que aconteceu o miniescândalo, ele mandou pôr as gravações sob sigilo novamente. Eu estou vendo mais incompetência do que qualquer outra coisa.

7. Se um dia nós virarmos um Estado Policial, vai ser depois de termos virado uma Idiocracia. Olhem o tipo de coisa que faz um ministro do STF, supostamente um dos luminares do direito tupiniquim.

Diálogos do Joesley, primeiras impressões

HABEMVS AVDIA TRANSCRIPTAQVE!

Diálogos do Joesley, primeiras impressões:

– Em forma, conteúdo, e interesses, lembram bastante os diálogos de Sérgio Machado: um delator tentando induzir os peixes grandes a falarem mais do que lhes seria conveniente, para valorizar a própria delação e conseguir um acordo melhor. O esquema dá mais certo com Aécio do que com Temer.

– Temer e Joesley estão obviamente conversando sobre maracutaia. Temer só dá respostas dúbias, mas está claro que ele não está constrangido em ouvir Joesley falar de seus problemas com as investigações, de contatos dúbios com Cunha e Geddel, de um procurador que lhe estaria dando informações na força tarefa (que beleza…). Não sei se basta para um tribunal, mas para um impeachment já está bom.

– Aécio devia estar doidão na cocaína, porque haja falar frases sem seqüência. Mas dá para entender que ele estava contando para Joesley as tentativas de aprovar leis para parar a Lava-jato, articulando gente de todos os partidos grandes. E ele combina com Joesley alguma troca, que tem que ser dinheiro, envolvendo os dois (a PF tem outras evidências disso além desses diálogos). A parte sobre matar um cara é dita meio entre risos, então parece que é piada mesmo – mas piada de quem está preocupado com ser delatado…

Em suma: a parte do Temer é grave, mas menos bombástica do que parecia. A parte do Aécio é muito grave.

Links:

Aécio e Joesley, Temer e Joesley (também aqui, e aqui)

[nota: as transcrições não são idênticas em todos os sites, então se surgir alguma divergência é preciso voltar aos áudios]

O desrespeito a Dona Marisa

Sobre desrespeito:

Monica Iozzi & Cia ficaram indignados com a propaganda de dia das mães das Lojas Marisa (“Se sua mãe ficar sem presente, a culpa não é da Marisa ;)”). Eles acharam um desrespeito à memória da falecida esposa de Lula fazer essa piadinha. Que desumanidade! Onde vamos parar?

Se você se indignou também, por favor assista este vídeo.

[Resumo: “Pus um pra ela, um pra mim, e aí bebi os dois porque ela não tava lá (risos)”. Boa, Lulão!]

Agora, em nome da coerência, por favor comece a espumar de raiva contra Lula por ter desrespeitado a memória da falecida.

Ou, se quiser fazer algo melhor para todos, jogue fora esse falso moralismo e admita que você não está nem aí para desrespeito nenhum. Você só usa essa indignação seletiva para poder fingir que os adversários são monstruosos e você é um anjo puro de luz.

Eles não são. Você não é.

#PAS

Sobre os críticos que não distinguem as coisas

[Esse texto pode ser interpretado como uma versão TL;DR do post anterior]

A micropolêmica mais engraçada da última semana foi a que provocou o adiamento do Festival de Cinema de Pernambuco (CinePE).

Resumidamente, sete dos 28 diretores participantes resolveram retirar seus filmes da mostra em protesto ao que chamaram de “politização inédita” (HuEeE!) do festival – a exibição de dois filmes da “direita extremista”. Um deles era um documentário sobre Olavo de Carvalho, e o outro um documentário sobre o Plano Real. A confusão garantiu boa divulgação na imprensa a todos os envolvidos, mas os organizadores acharam melhor suspender a programação até a poeira baixar.

Vou ser direto: alguém que acha que um adversário político não é digno nem de subir no mesmo tablado é um intolerante. Ninguém precisa (nem deve) sair abraçando e elogiando os adversários que despreza e acha perigosos (né, Carina Vitral?), mas daí para achar imoral que o adversário se manifeste há uma longa distância. Toda a divergência ideológica que porventura haja entre os tais cineastas é só isso mesmo: divergência – uma discordância não violenta, não pessoal, e perfeitamente aceitável em uma sociedade minimamente livre. Alguém que se ofenda porque DOIS FILMES ENTRE VINTE E OITO são “de direita” e ache isso absurdo é um intolerante. Alguém que ache que um documentário sobre o Plano Real é “de direita”, ou que já tenha decidido que o documentário sobre o Olavo é necessariamente propaganda ideológica – SEM NEM TER VISTO O FILME! – é um intolerante. Alguém que só se incomoda com a politização da arte quando é o adversário que a politiza é um intolerante.

Que importância tem esse acontecimento? Por si só, nenhuma. Esse pessoal não tem um centésimo da importância que se arroga. Mas é interessante ler essas coisas para ver o grau de solipsismo e desconexão com a vida real que atingiu as nossas classes bem-pensantes. Lendo o manifesto, você fica com a impressão de que Heitor e Enéias estão enfrentando uma invasão nazista – quando só o que aconteceu foi sete birrentos fazerem birra.

Ainda mais ridículo do que ver esse pessoal tão desimportante reclamando e dando a si mesmos ares de grandeza e coragem foi o follow-up: um grupo de 34 “críticas e críticos de cinema” (só pela escolha das palavras já dá para saber em quem eles votaram nas últimas 5 eleições…), encabeçados aparentemente pelo Pablo Villaça, resolveu manifestar seu apoio aos bravos guerreiros cinematográficos. O manifesto dos 34 é tão cheio de autoilusão de grandeza e chavões mal explicados que é até difícil de criticar linha por linha – não sobraria uma sem contestação. Mas ali no meio, há uma frase muito interessante que resume muito bem a natureza da patologia de pensamento da turma:

“Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem”

Respire fundo, leia de novo:

“Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem”

Eis a raiz do mal. OS CARAS NÃO CONSEGUEM DIFERENCIAR AS COISAS. Vida e cinema, realidade e ficção, público e privado, evidência e opinião, pessoa e obra; é tudo a mesma coisa para os nossos amiguinhos. É por não saber dissociar coisas perfeitamente dissociáveis, é por não saber separar a realidade da interpretação torta da realidade, que essa gente é tão fanática, tão ridícula, e tão perigosa – se tiverem algum poder real, claro. Eles falando sobre cinema no máximo nos custam alguns milhões por ano…

Essa é a doença da mente dos nossos autointitulados intelectuais. O Plano Real foi feito por FHC, que hoje é considerado inimigo da esquerda. Como nada se distingue, logicamente um filme sobre o Plano Real tem que ser um louvor a FHC, tem que ser um ataque à esquerda, e por isso tem que ser considerado imoral e tem que ser boicotado. Porque sim. Nada se distingue, certo? Para quem, como Villaça & Cia., acha que a esquerda não se distingue do Bem, não há como a direita, e tudo que ela toca, se distinguir do Mal.

Não é por acaso que toda discussão decente depende das definições dos conceitos, da distinção entre as coisas. Não é por outra razão que Confúcio achava fundamental realizar a Retificação dos Nomes para que o país escapasse à convulsão (não foi feita, não escapou). Quando vida e cinema se distinguem nós temos chance de ter discussões produtivas sobre vida e cinema. Quando não, aí temos Pablo Villaça.

A coragem covarde no Cine PE

O Festival de Cinema de Pernambuco (Cine PE) é um evento… de cinema, que acontece em… Pernambuco (hehe) há 21 anos. A menos que você seja aficcionado por filmes nacionais ou trabalhe na indústria do entretenimento, você provavelmente nunca nem ouviu falar. O mercado cinematográfico brasileiro é dominado por títulos internacionais, segundo observações da própria Ancine, e os poucos filmes nacionais que se destacam no gosto do público tendem a não ser os filmes-arte que se exibe nesses festivais.

O festival se tornou um pouco mais conhecido esse ano devido a uma polêmica envolvendo alguns dos inscritos no evento. Sete dos 28 cineastas que participariam do festival decidiram retirar seus filmes da mostra em protesto contra a exibição dos documentários O Jardim das Aflições (direção de Josias Teófilo) – um filme sobre Olavo de Carvalho, ícone intelectual de uma parte da direita no Brasil – e Real: o Plano por trás da História (Rodrigo Bittencourt), sobre a criação do Plano Real. Eles alegaram não quererem suas obras associadas às da direita “extremista” e repudiarem a politização “inédita” da escolha dos filmes. Em vista das desistências de participação e da repercussão negativa, o Cine PE 2017 acabou sendo adiado.

Eu poderia criticar a intolerância evidente na medida; sim, os cineastas têm todo o direito de inscreverem e retirarem seus filmes do festival, mas isso não torna bons todos os seus motivos para fazê-lo. Recusar-se a meramente participar do mesmo evento que um adversário ideológico é quase um textbook case da dificuldade em lidar com a divergência.

O que mais me chama a atenção, porém, é que é tudo ridículo demais. São cineastas cujos filmes ninguém assiste, participando de um evento que 99,9% do povo desconhece, fazendo birra porque gente de fora do clubinho foi convidada para o mesmo evento que eles. Toda a atitude deles mostra um senso de autoimportância que só se encontra mesmo nos aspirantes a artistas. Tentem ler isso sem rir: o diretor do filme Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica (!) retirou sua gloriosa obra de um festival obscuro em protesto contra um filme de extrema direita.

Mas o que é ridículo pode sempre ficar mais ridículo. Um grupo de críticos de cinema, o mais famoso deles sendo Pablo Villaça (evidentemente…), resolveu lançar uma nota de apoio aos cineastas rebeldes. Já é meio estúpido um cineasta querer evitar que o público veja sua obra por causa de divergências políticas com os coleguinhas; que dizer então de um crítico de cinema, cujo ganha-pão é assistir filmes e criticá-los… mas a nota deste grupelho me chamou mais a atenção, porque é um ótimo exemplo de algumas patologias do pensamento que são muito comuns na nossa classe pensante – formada sempre por esquerdistas de classe média.

Eis o texto, retirado da página do Pablo Villaça no Facebook. Destaco alguns trechos em negrito, e comento tudo.

“MANIFESTO DE APOIO AOS CINEASTAS QUE RETIRARAM SEUS FILMES DO CINE PE

Nós, críticas e críticos de cinema, manifestamos nosso irrestrito apoio à decisão soberana dos cineastas que retiraram seus filmes da programação da 21ª edição do Cine PE – Festival de Cinema de Pernambuco. Da mesma forma, refutamos os argumentos de setores do cinema e da mídia hegemônica que classificam a atitude como censura, uma vez que não se reivindicou a proibição de nenhuma obra programada.”

Traduzo: nós, críticos subescreventes, apoiamos os cineastas que pularam fora do Cine Pe, e achamos que não foi censura.

Eles têm toda a razão em dizer que não é censura; é só intolerância mesmo. E eles podem apoiar quem quiserem, evidentemente. No entanto, algumas observações:

É engraçado como, às vezes, dá para prever todo o texto a partir de uma única frase. Os subescreventes poderiam ter dito simplesmente “nós, críticos de cinema”, uma vez que na língua portuguesa o gênero masculino é usado como gênero neutro. Mas não, pois como informam nossos luminares do pensamento nacional, a língua é sexista e é preciso nos esforçarmos para torná-la mais neutra. Eles poderiam ter escrito “nós, críticos e críticas de cinema”, pois é o usual na prosa da nossa língua listar o gênero neutro/masculino antes do gênero feminino. Mas não; pôr os homens antes das mulheres também é prova do sexismo na língua (link do governo do RS, p. 24), e nossos bravos cineastas são antes de tudo contra os preconceitos e discriminações. E contra a direita, claro. Só a partir desse começo já dá para saber que eles vão apoiar qualquer coisa contra a “direita”, e que esse povo votou no PT nas últimas cinco eleições…

À parte isso, notem o uso ruim e impreciso das palavras: a decisão dos cineastas é “soberana”. Quê? Decisão soberana é aquela tomada pelo Estado sem que haja qualquer direito de contestação (exceto a guerra). Os sujeitos usam o mesmo adjetivo para se referirem à prosaica e desimportante decisão de participar de um evento. Da mesma forma, eles dizem ter “refutado os argumentos”; é uma frase pronta emprestada das discussões de retórica/filosofia na internet. Refutar um argumento é demonstrar que ele está errado. Quais argumentos foram refutados nesse texto? A única coisa parecida com um argumento é a afirmação (que não é argumento…) de que haveria censura em retirar-se do festival. Cadê os outros? E onde estão as referências aos textos da “mídia hegemônica” (ai, ai..) que falaram em censura?

“Repudiamos o discurso que busca deslegitimar e diluir a potência de ação política de quem não transige com o desmantelamento do estado de direito que se seguiu ao golpe branco de 2016. O atual estado de exceção tem tido repercussões altamente negativas sobre o setor audiovisual, como os desmandos da administração no âmbito do Ministério da Cultura e a tentativa de boicote ao filme “Aquarius” após o protesto de sua equipe em Cannes.”

O palavrório ficou mais rebuscado, mas traduzo: discordamos de quem nos acha ridículos. Estamos combatendo o gólpi, que foi muito ruim para o setor audiovisual.

Notem, de novo, o uso impreciso dos termos. O que quer dizer “deslegitimar”? Essa palavra é uma buzzword que aparece vez por outra em textos de esquerda, e ninguém sabe dizer o que realmente é essa tal deslegitimação. Aparentemente, é o novo nome para as críticas de que o grupinho não gosta.

Ainda, “estado de exceção”. Um estado de exceção é uma situação em que as leis são suspensas por razão de extrema necessidade da parte do governo – legítimo ou não. É o que aconteceu na Turquia, por exemplo, após a tentativa de golpe militar do ano passado. Aparentemente, os nossos críticos acham que o Brasil passa por coisa similar. Que comentar? Quando alguém chega a esse nível de ilusão não há nada que se possa fazer.

Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem. Qualquer prática, privada ou pública, feita por cidadãs e cidadãos é um ato político. E como tal deve ser considerado. Quem fala de democracia hoje neste país deve falar necessariamente de combate e resistência. Foi exatamente isso o que fizeram esses cineastas. Em nosso entendimento, sua iniciativa nada tem de censura ou intolerância. Eles exerceram o direito legítimo de não compactuar com a formação de uma tribuna para o pensamento ultraconservador que ora se vê encorajado pelo governo Temer.”

Traduzo: nós não sabemos separar ficção de realidade, e vida pessoal de vida pública. E nós achamos que estamos lutando uma nova Guerra de Tróia contra o governo de plantão ao espernearmos contra um filme sobre um filósofo que também detesta o governo atual.

A frase em negrito traz o ponto mais grave sobre este manifesto, e todo este meu textão serve só para chegar aqui. Para os nossos críticos, vida e cinema não se distinguem. Isso explica muito da loucura coletiva deles e de todo e qualquer correligionário de esquerda que os apóie: eles não conseguem distinguir as coisas. Eles não conseguem separar campos distintos da atividade humana. Vida real e ficção são a mesma coisa, trabalho e vida pessoal são a mesma coisa, obra pública e comportamento privado são a mesma coisa, pessoa e país não se distinguem, descrição e defesa não se distinguem.

Se essas pessoas realmente acreditam no que escreveram, toda a irrazoabilidade deles se torna inteligível. Se vida e cinema não se distinguem, e eles querem a “direita” longe da sua vida, faz todo o sentido reagirem anafilaticamente a um filme de direita. Se a mera tolerância já se confunde com apoio à causa, faz todo o sentido serem intolerantes.

Ainda, reparem que a escrita enganosa e imprecisa persiste: “combate e resistência”. Que combate? Algum desses aí está pegando em armas contra o Temer? Que resistência? Por acaso o governo os estava obrigando a participar do festival? Eles falam em pensamento ultraconservador encorajado pelo governo Temer – Olavo é contra Temer, pô. E o plano Real nada tem a ver com conservadorismo.

“Por fim, agradecemos aos realizadores que fizeram aquilo que Guimarães Rosa escreveu genialmente sobre a vida: o que ela quer da gente é coragem.”

Coragem. Mais uma palavra que perdeu o significado. Os valentes estão arriscando o que exatamente com esse manifesto? Todos eles já têm público cativo, majoritariamente de esquerda. Nenhum deles será processado e preso e torturado por ter se manifestado. Nenhum deles será excluído de festivais futuros ou dos novos editais do MinC por terem se manifestado – ao contrário, são os seus adversários “conservadores” que têm dificuldade em conseguir financiamento e contatos no mundo artístico. Nenhum deles sofrerá violência por ter dito o que pensava. Onde está a coragem nisso tudo?

Segue-se a lista dos valentes:

“Alysson Oliveira, André Dib, Beatriz Saldanha, Bianca de França Zasso, Bruno Ghetti, Carlos Alberto Mattos, Carlos Primati, Cecilia Barroso, Celso Sabadin, Cesar Zamberlan, Chico Fireman, Daniel Medeiros, Diego Benevides, Filippo Pitanga, Ivonete Pinto, Janaína Oliveira, Joao de Oliveira, Juliana Costa, Larissa Padron, Luiz Zanin, Maria Do Rosário Caetano, Marcus Mello, Neusa Barbosa, Pablo Villaça, Pedro Butcher, Raphaela Ximenes, Regina Behar, Renato Félix, Renato Silveira, Roberta Canuto, Rodrigo Fonseca, Roni Filgueiras, Samantha Brasil, Susy E.C. Freitas”

 

Em tempo: os termos do protesto parecem ter sido exagerados demais mesmo para a fanbase do Pablo Villaça. A postagem teve cerca de um décimo do engajamento usual que têm os posts políticos do autor. Ele respondeu aos críticos (imagino que após banir metade deles):

Desculpe, mas não é questão de intolerância, mas de não legitimar um evento que representa uma postura anti-democrática. Não se trata, aqui, de algo simplista como “patrulhamento ideológico” ou de uma tentativa de pré-condenar obras ligadas a um pensamento reacionário; a inclusão dos longas O Jardim das Aflições (sobre Olavo de Carvalho) e de O Plano Real não é simplesmente uma mera questão de curadoria diversificada, mas de um gesto claramente político por parte dos responsáveis pelo CinePE. Um de seus idealizadores não apenas apoiou a deposição ilegítima de uma presidenta eleita democraticamente como quase imediatamente assumiu um cargo importante no “governo” colocado em seu lugar. Pior: em sua passagem pela Secretaria do Audiovisual, basicamente permitiu (isto para não dizermos “iniciou”) uma perseguição – aí, sim – ideológica, política, contra o longa “Aquarius” e contra seu diretor, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, o que envolveu escalar para a comissão de seleção do Oscar um “crítico” que não apenas se alinhava desde o primeiro momento ao pensamento golpista como atacou publicamente o filme e seu diretor antes mesmo de assistir à obra. O resultado todos conhecem.

Ele não aceita que filmes conservadores estejam representados no festival, mas o festival é que é anti-democrático. Villaça TAMBÉM NÃO ASSISTIU as obras que está criticando, mas já está fazendo campanha contra – enquanto critica o adversário por supostamente ter feito o mesmo.

“Além disso, é público e notório que os realizadores de O Jardim das Aflições fizeram diversos ataques virulentos aos colegas cineastas que se posicionaram à esquerda, chegando a fazer ilações irresponsáveis e difamatórias até mesmo com relação ao financiamento de seus trabalhos.”

O homem que fez ataques virulentos no parágrafo anterior da resposta não se conforma que os adversários também o façam. O homem que acusa o adversário de perseguir o filme “Aquarius” (com que provas, amigo Villaça?) reclama das ilações irresponsáveis e difamatórias… dos outros.

“Portanto, a decisão corajosa dos sete cineastas de retirar seus filmes do CinePE não é, como se pode perceber, um esforço de censura, mas um posicionamento claro diante da constatação de que, ao incluir especificamente estes dois filmes, os responsáveis pelo festival não apenas dão continuidade à postura reacionária, anti-democrática, que assumiram no ano passado como a reforçam através do evento. Um evento cuja legitimidade está associada precisamente à presença de obras como aquelas criadas pelos sete diretores e diretoras.”

Que lindo. O simples fato de haver DOIS filmes “reacionários” em meio a VINTE E SEIS outros filmes é um sinal claro de reacionarismo. E o reacionarismo, na opinião do Villaça, é sempre anti-democrático. Quantos autores reacionários será que ele leu? Quantos amigos reacionários ele tem? Quão preocupado ele realmente está com as tais “ilações irresponsáveis”, já que faz questão de fazê-las em seus textos?

E vejam só! A legitimidade (o que quer que seja isso) do festival é dada justamente por obras como aquelas dos sete esquerdistas que se retiraram. Como Villaça acredita que vida e cinema não se distinguem, tenho que concluir que os cineastas esquerdistas produziram obras que não se distinguem das suas vidas, e são obras de esquerda. Agora entendi: para Villaça, o que confere “legitimidade” ao festival é ele expor obras de esquerda. Se não tem esquerda, não é legítimo; se tem direita reacionária, não é legítimo também.

Democracia, versão esquerda classe média: só é legítimo quem concorda comigo.

“E, portanto, permanecer no festival – por mais que isso trouxesse visibilidade aos seus trabalhos – seria contribuir para a legitimação desta postura lamentável, anti-progressista, dos diretores do CinePE. E que tenham tido a coragem de sacrificar esta exposição de seus trabalhos em prol de sua integridade ética e política é algo que deveria inspirar aplausos, não condenação.”

Finalizemos com uma observação prática e cínica: os trabalhos dos ditos cineastas tiveram muito mais cobertura midiática e atenção do público depois da polêmica. Podem apostar que esses sete filmes terão o dobro da minguada bilheteria usual, com os engajadinhos de esquerda fazendo questão de assistir as grandes obras desses guerreiros da lei Rouanet. Foi assim com a polêmica em torno de “Aquarius”. Ou seja, sequer o público os cineastas sacrificaram nesse ato abnegado de protesto político.

E não é sempre assim?

 

2016 acabou de verdade

Repararam como voltamos à normalidade?

Essa semana, Lula deu o que era para ser O Grande Depoimento. Fosse ano passado, a cidade teria sido tomada de militantes e o Facebook estaria coalhado de shitposting. Todo mundo estaria ansioso para expor sua opinião mal formada por aí. Em vez disso, tivemos 6000 militantes pró-Lula acampando na rodoviária e uns 30 gatos-pingados pró-Moro no MON. E mesmo na internet, que amplifica tudo quanto é polêmica à máxima potência, as pessoas estão bastante contidas e circunspectas.

Duas semanas atrás, houve A Grande Greve Geral Que Derrubaria O Temer. Os infladores de números de plantão falavam em 30 milhões de grevistas, mas até eles sabem que isso é mentira. Eles contaram como grevistas as pessoas que foram impedidas de trabalhar pela meia dúzia que bloqueou as ruas… o governo nem se incomodou. Sakamoto desafiou o governo a enfrentar uma greve dessas por mês; mas ele sabe tão bem quanto todos nós que não haverá uma greve geral por mês. Ninguém apareceria depois da terceira repetição da micareta.

No final de março, o MBL convocou uma Grande Manifestação com pauta de… aquelas coisas de sempre. Pouca gente foi. Os grupos que conseguiram pôr 1 milhão de pessoas na avenida Paulista ano passado hoje não conseguem mais de 10 mil. A reação também foi menor: em outros tempos, os adversários teriam zoado o fiasco até cansarem; desta vez, passou quase sem comentários.

O pacote de reformas da CLT gerou um pouco de revolta, mas nada sequer próximo ao que gerou a PEC dos gastos públicos. Sim, tivemos “especialistas” falando bobagem e celebridades compartilhando mentiras, mas lembram o auê que foi a PEC do fim do mundo? Só faltava preverem que o eixo da Terra ia mudar de inclinação.

A reforma da Previdência vem aí, e vocês verão bem menos reações do que viram quando Temer baixou a MP do Ensino Médio – lembram? Ocupação de escolas por um mês, porrada do MBL na Antifa e da Antifa no MBL, discursos lacrimosos na Alep, um homicídio, e toda aquela conversa sobre a revolução que se espalharia pelo país para derrubar o governo ilegítimo? Isso tudo ficou no ano passado.

O padrão está claro.

Depois de um 2016 furioso, épico, fantástico, cheio de opiniões e acusações e drama – veio um 2017 perfeitamente comum. Os últimos estertores daquele ano diferente de todos os anos ficaram lá no comecinho, quando morreu o Zavascki. Depois disso, o silêncio.

Não foi preciso declarar uma moratória na discussão política, nem anunciar um pacto de não agressão com pompa e circunstância. Só acabou. As pessoas cansaram, e a coisa minguou.

Seis meses atrás, textão era quase um dever cívico. Hoje, ninguém mais os escreve (só eu); daqui a pouco vai ser tacitamente considerado rude e de mau gosto, e eu serei o único a continuar escrevendo de vez em quando, porque sim.

Voltamos ao normal.

Já não mais aquela vontade incontida de declarar seu lado em cada mínimo acontecimento da política.

Já não mais aquele fervor em divulgar notícias literalmente mentirosas, memes suspeitos de páginas hilárias (cof cof Verdadesemmanipulação cof cof), textões de gurus que cometem todas as falácias lógicas possíveis (cof Pablo cof Villaça cof), e análises de economistas que comentam a PEC241 sem ter lido sobre as exceções ao teto de gastos (cofCOfcOF Lau cof ra Carva COF lho cof cof cof).

Já não mais aquela dedicação em sustentar uma narrativa totalmente deslocada da realidade contra as pancadas dos fatos – o “golpe” (nem vou me repetir), a onipotência de Eduardo Cunha (quanto mais o cara se ferrava, mais o pessoal insistia que era ele por trás de tudo!), a confiança irrestrita na Revelação de Sérgio Machado (sempre extirpada das referências pouco favoráveis a Lula e Dilma, claro…), a Lava-jato partidária que só perseguia o PT e no entanto era o PMDB que queria parar (assim, sem maiores explicações), o perigo e o horror de Jair Bolsonaro (aquele que está lá há 20 anos sem fazer nada), a alma mais honesta do Brasil… escolham. Teve de sobra.

Já não mais aquela adrenalina de atacar os adversários, de xingá-los de machistafascistanazicoxinha/comunistaPTistamortadeladefensordebandido ao menor sinal de discordância – “o que, como ele ousa falar isso? QUEIMEM A BRUXA!!1!”

Já não mais aquela necessidade de pavonear a moralidade: aquele impulso de mostrar como você se preocupa com os pobres, os oprimidos, com as minorias, com os trabalhadores; aquela competição sobre quem é o menos preconceituoso, o menos homofóbico, o mais tolerante – e ai do intolerantes porque para esses QUEIMEM A BRUXA!

Tudo isso arrefeceu, e o ritmo de sempre voltou.

Não é que as pessoas tenham mudado em tão pouco tempo, claro. Não se vai de fanático a razoável em seis meses; o contrário até acontece, mas também não é tão comum assim. A radicalização do discurso vinha aumentando perceptivelmente desde 2011 (quando acabou qualquer oposição merecedora do nome à ideologia do governo de plantão) até atingir os níveis de loucura de 2015; 2016 foi apenas o ano em que a loucura agarrou o megafone e gritou como se não houvesse amanhã.

O que mudou foi a sensação de prioridade: todo mundo percebe que 2017 é menos importante que 2016. Podem dizer o que quiserem sobre como a reforma da Previdência é Na Verdade O Assunto Mais Importante, e como todos deveríamos estar mais preocupados com isso do que estávamos com se Renan Calheiros ficava na presidência do Senado ou não (lembram disso?). Pode até ser verdade em algum sentido; mas nos critérios que contam, não. O fato é que tudo o que está acontecendo agora é a política de sempre, aquela que segue no piloto automático sem ninguém ter que fazer nada – e sem que nós, pequenos cidadãos, possamos fazer qualquer coisa. É bem diferente do ano passado, em que ninguém tinha idéia do que aconteceria dali a uma semana.

O que mudou foi que os militantes mais vocais finalmente encontraram oposição. Obviamente estou me referindo à militância de esquerda/progressista, que passou anos falando tudo o que quis sem encontrar muita resistência. Já não é mais o tempo em que o militante esquerdista médio escrevia um textão e só recebia aplauso; dias em que ele só conhecia o Reinaldo Estadodedireito Azevedo e o Olavo Doidão de Carvalho como representantes da direita; dias em que ele podia viver na ilusão de que todo mundo concordava com ele, exceto uma meia dúzia de esquisitos movidos a ódio (porque nunca, nunca se pode admitir que talvez os opositores não sejam monstros cruéis e imorais, e que talvez eles tenham razão. Essa gente, ter razão! Claro que não). Ter que realmente debater – expor o argumento, expor-se às críticas públicas dos outros, e ter que vencer com a razão, sem poder usar chantagem emocional ou dar rage quit – isso cansa. Cansa mesmo. Isso é difícil, inglório, e não dá status imediato no clubinho. Aí o pessoal desanimou.

O que eu acho disso?

Acho que vai-se vivendo, e tenta-se extrair algo de bom das circunstâncias. A polarização de 2016 teve partes ruins, mas teve o efeito positivo de expor aos olhos de todos o estado do pensamento dos dois lados da disputa. Notoriamente, expôs o despreparo geral das pessoas que se acham capazes de discutir esses assuntos. A quietude de agora pode ser sinal de coisas negativas – não é bom que ninguém se sinta intimidado, nem que fique num canto emburrado por causa de ações perfeitamente aceitáveis de seus semelhantes, por exemplo – mas pode ter efeitos bons. O silêncio não elimina o fanatismo, mas pode ser um primeiro passo para desarmá-lo: o fanático é tão mais radical quanto mais acredita que tem o apoio dos outros. Menos gente apoiando implica em maior risco ao se expor em público; e assim o número de fanáticos loucos gritalhões diminui, e sobra espaço para as pessoas razoáveis poderem falar. Com o tempo, pode até ser que os loucos voltem à razão – tanto por terem (finalmente!) tido contato com argumentos melhores quanto por se verem isolados caso não abandonem suas opiniões radicais.

Acho também que isso nos dá esperança de que um dia (quem sabe) possamos realmente discutir os assuntos sérios como eles merecem. O silêncio não é bom quando se quer discutir (óbvio!), mas é melhor do que várias das alternativas. Tínhamos antes um grupelho ideológico dominante, montado no poder e batendo em qualquer um que pensasse diferente (se você duvida disso, eu peço para que você reflita se você não estava lá com o porrete na mão); isso é muito ruim. Depois tivemos dois grupos meio fanáticos se batendo, sem nunca ouvir os outros; isso também não é muito bom, mas é melhor do que antes. A progressão natural disto é o silêncio: a guerra ideológica atinge um equilíbrio, os soldados desanimam, o povo abandona o front e volta para casa para cuidar da própria vida. É melhor assim.

E depois disso, quem sabe – quem sabe – se abra campo para gente razoável discutir as coisas dentro do razoável. Nem precisa abrir tudo, só o bastante para que uns 10% das pessoas possa ouvi-los. Mesmo de uma margem tão pequena, coisas maravilhosas podem ser feitas.

Não é uma garantia, mas é certamente um sinal de esperança.