2016 acabou de verdade

Repararam como voltamos à normalidade?

Essa semana, Lula deu o que era para ser O Grande Depoimento. Fosse ano passado, a cidade teria sido tomada de militantes e o Facebook estaria coalhado de shitposting. Todo mundo estaria ansioso para expor sua opinião mal formada por aí. Em vez disso, tivemos 6000 militantes pró-Lula acampando na rodoviária e uns 30 gatos-pingados pró-Moro no MON. E mesmo na internet, que amplifica tudo quanto é polêmica à máxima potência, as pessoas estão bastante contidas e circunspectas.

Duas semanas atrás, houve A Grande Greve Geral Que Derrubaria O Temer. Os infladores de números de plantão falavam em 30 milhões de grevistas, mas até eles sabem que isso é mentira. Eles contaram como grevistas as pessoas que foram impedidas de trabalhar pela meia dúzia que bloqueou as ruas… o governo nem se incomodou. Sakamoto desafiou o governo a enfrentar uma greve dessas por mês; mas ele sabe tão bem quanto todos nós que não haverá uma greve geral por mês. Ninguém apareceria depois da terceira repetição da micareta.

No final de março, o MBL convocou uma Grande Manifestação com pauta de… aquelas coisas de sempre. Pouca gente foi. Os grupos que conseguiram pôr 1 milhão de pessoas na avenida Paulista ano passado hoje não conseguem mais de 10 mil. A reação também foi menor: em outros tempos, os adversários teriam zoado o fiasco até cansarem; desta vez, passou quase sem comentários.

O pacote de reformas da CLT gerou um pouco de revolta, mas nada sequer próximo ao que gerou a PEC dos gastos públicos. Sim, tivemos “especialistas” falando bobagem e celebridades compartilhando mentiras, mas lembram o auê que foi a PEC do fim do mundo? Só faltava preverem que o eixo da Terra ia mudar de inclinação.

A reforma da Previdência vem aí, e vocês verão bem menos reações do que viram quando Temer baixou a MP do Ensino Médio – lembram? Ocupação de escolas por um mês, porrada do MBL na Antifa e da Antifa no MBL, discursos lacrimosos na Alep, um homicídio, e toda aquela conversa sobre a revolução que se espalharia pelo país para derrubar o governo ilegítimo? Isso tudo ficou no ano passado.

O padrão está claro.

Depois de um 2016 furioso, épico, fantástico, cheio de opiniões e acusações e drama – veio um 2017 perfeitamente comum. Os últimos estertores daquele ano diferente de todos os anos ficaram lá no comecinho, quando morreu o Zavascki. Depois disso, o silêncio.

Não foi preciso declarar uma moratória na discussão política, nem anunciar um pacto de não agressão com pompa e circunstância. Só acabou. As pessoas cansaram, e a coisa minguou.

Seis meses atrás, textão era quase um dever cívico. Hoje, ninguém mais os escreve (só eu); daqui a pouco vai ser tacitamente considerado rude e de mau gosto, e eu serei o único a continuar escrevendo de vez em quando, porque sim.

Voltamos ao normal.

Já não mais aquela vontade incontida de declarar seu lado em cada mínimo acontecimento da política.

Já não mais aquele fervor em divulgar notícias literalmente mentirosas, memes suspeitos de páginas hilárias (cof cof Verdadesemmanipulação cof cof), textões de gurus que cometem todas as falácias lógicas possíveis (cof Pablo cof Villaça cof), e análises de economistas que comentam a PEC241 sem ter lido sobre as exceções ao teto de gastos (cofCOfcOF Lau cof ra Carva COF lho cof cof cof).

Já não mais aquela dedicação em sustentar uma narrativa totalmente deslocada da realidade contra as pancadas dos fatos – o “golpe” (nem vou me repetir), a onipotência de Eduardo Cunha (quanto mais o cara se ferrava, mais o pessoal insistia que era ele por trás de tudo!), a confiança irrestrita na Revelação de Sérgio Machado (sempre extirpada das referências pouco favoráveis a Lula e Dilma, claro…), a Lava-jato partidária que só perseguia o PT e no entanto era o PMDB que queria parar (assim, sem maiores explicações), o perigo e o horror de Jair Bolsonaro (aquele que está lá há 20 anos sem fazer nada), a alma mais honesta do Brasil… escolham. Teve de sobra.

Já não mais aquela adrenalina de atacar os adversários, de xingá-los de machistafascistanazicoxinha/comunistaPTistamortadeladefensordebandido ao menor sinal de discordância – “o que, como ele ousa falar isso? QUEIMEM A BRUXA!!1!”

Já não mais aquela necessidade de pavonear a moralidade: aquele impulso de mostrar como você se preocupa com os pobres, os oprimidos, com as minorias, com os trabalhadores; aquela competição sobre quem é o menos preconceituoso, o menos homofóbico, o mais tolerante – e ai do intolerantes porque para esses QUEIMEM A BRUXA!

Tudo isso arrefeceu, e o ritmo de sempre voltou.

Não é que as pessoas tenham mudado em tão pouco tempo, claro. Não se vai de fanático a razoável em seis meses; o contrário até acontece, mas também não é tão comum assim. A radicalização do discurso vinha aumentando perceptivelmente desde 2011 (quando acabou qualquer oposição merecedora do nome à ideologia do governo de plantão) até atingir os níveis de loucura de 2015; 2016 foi apenas o ano em que a loucura agarrou o megafone e gritou como se não houvesse amanhã.

O que mudou foi a sensação de prioridade: todo mundo percebe que 2017 é menos importante que 2016. Podem dizer o que quiserem sobre como a reforma da Previdência é Na Verdade O Assunto Mais Importante, e como todos deveríamos estar mais preocupados com isso do que estávamos com se Renan Calheiros ficava na presidência do Senado ou não (lembram disso?). Pode até ser verdade em algum sentido; mas nos critérios que contam, não. O fato é que tudo o que está acontecendo agora é a política de sempre, aquela que segue no piloto automático sem ninguém ter que fazer nada – e sem que nós, pequenos cidadãos, possamos fazer qualquer coisa. É bem diferente do ano passado, em que ninguém tinha idéia do que aconteceria dali a uma semana.

O que mudou foi que os militantes mais vocais finalmente encontraram oposição. Obviamente estou me referindo à militância de esquerda/progressista, que passou anos falando tudo o que quis sem encontrar muita resistência. Já não é mais o tempo em que o militante esquerdista médio escrevia um textão e só recebia aplauso; dias em que ele só conhecia o Reinaldo Estadodedireito Azevedo e o Olavo Doidão de Carvalho como representantes da direita; dias em que ele podia viver na ilusão de que todo mundo concordava com ele, exceto uma meia dúzia de esquisitos movidos a ódio (porque nunca, nunca se pode admitir que talvez os opositores não sejam monstros cruéis e imorais, e que talvez eles tenham razão. Essa gente, ter razão! Claro que não). Ter que realmente debater – expor o argumento, expor-se às críticas públicas dos outros, e ter que vencer com a razão, sem poder usar chantagem emocional ou dar rage quit – isso cansa. Cansa mesmo. Isso é difícil, inglório, e não dá status imediato no clubinho. Aí o pessoal desanimou.

O que eu acho disso?

Acho que vai-se vivendo, e tenta-se extrair algo de bom das circunstâncias. A polarização de 2016 teve partes ruins, mas teve o efeito positivo de expor aos olhos de todos o estado do pensamento dos dois lados da disputa. Notoriamente, expôs o despreparo geral das pessoas que se acham capazes de discutir esses assuntos. A quietude de agora pode ser sinal de coisas negativas – não é bom que ninguém se sinta intimidado, nem que fique num canto emburrado por causa de ações perfeitamente aceitáveis de seus semelhantes, por exemplo – mas pode ter efeitos bons. O silêncio não elimina o fanatismo, mas pode ser um primeiro passo para desarmá-lo: o fanático é tão mais radical quanto mais acredita que tem o apoio dos outros. Menos gente apoiando implica em maior risco ao se expor em público; e assim o número de fanáticos loucos gritalhões diminui, e sobra espaço para as pessoas razoáveis poderem falar. Com o tempo, pode até ser que os loucos voltem à razão – tanto por terem (finalmente!) tido contato com argumentos melhores quanto por se verem isolados caso não abandonem suas opiniões radicais.

Acho também que isso nos dá esperança de que um dia (quem sabe) possamos realmente discutir os assuntos sérios como eles merecem. O silêncio não é bom quando se quer discutir (óbvio!), mas é melhor do que várias das alternativas. Tínhamos antes um grupelho ideológico dominante, montado no poder e batendo em qualquer um que pensasse diferente (se você duvida disso, eu peço para que você reflita se você não estava lá com o porrete na mão); isso é muito ruim. Depois tivemos dois grupos meio fanáticos se batendo, sem nunca ouvir os outros; isso também não é muito bom, mas é melhor do que antes. A progressão natural disto é o silêncio: a guerra ideológica atinge um equilíbrio, os soldados desanimam, o povo abandona o front e volta para casa para cuidar da própria vida. É melhor assim.

E depois disso, quem sabe – quem sabe – se abra campo para gente razoável discutir as coisas dentro do razoável. Nem precisa abrir tudo, só o bastante para que uns 10% das pessoas possa ouvi-los. Mesmo de uma margem tão pequena, coisas maravilhosas podem ser feitas.

Não é uma garantia, mas é certamente um sinal de esperança.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s