Sobre os críticos que não distinguem as coisas

[Esse texto pode ser interpretado como uma versão TL;DR do post anterior]

A micropolêmica mais engraçada da última semana foi a que provocou o adiamento do Festival de Cinema de Pernambuco (CinePE).

Resumidamente, sete dos 28 diretores participantes resolveram retirar seus filmes da mostra em protesto ao que chamaram de “politização inédita” (HuEeE!) do festival – a exibição de dois filmes da “direita extremista”. Um deles era um documentário sobre Olavo de Carvalho, e o outro um documentário sobre o Plano Real. A confusão garantiu boa divulgação na imprensa a todos os envolvidos, mas os organizadores acharam melhor suspender a programação até a poeira baixar.

Vou ser direto: alguém que acha que um adversário político não é digno nem de subir no mesmo tablado é um intolerante. Ninguém precisa (nem deve) sair abraçando e elogiando os adversários que despreza e acha perigosos (né, Carina Vitral?), mas daí para achar imoral que o adversário se manifeste há uma longa distância. Toda a divergência ideológica que porventura haja entre os tais cineastas é só isso mesmo: divergência – uma discordância não violenta, não pessoal, e perfeitamente aceitável em uma sociedade minimamente livre. Alguém que se ofenda porque DOIS FILMES ENTRE VINTE E OITO são “de direita” e ache isso absurdo é um intolerante. Alguém que ache que um documentário sobre o Plano Real é “de direita”, ou que já tenha decidido que o documentário sobre o Olavo é necessariamente propaganda ideológica – SEM NEM TER VISTO O FILME! – é um intolerante. Alguém que só se incomoda com a politização da arte quando é o adversário que a politiza é um intolerante.

Que importância tem esse acontecimento? Por si só, nenhuma. Esse pessoal não tem um centésimo da importância que se arroga. Mas é interessante ler essas coisas para ver o grau de solipsismo e desconexão com a vida real que atingiu as nossas classes bem-pensantes. Lendo o manifesto, você fica com a impressão de que Heitor e Enéias estão enfrentando uma invasão nazista – quando só o que aconteceu foi sete birrentos fazerem birra.

Ainda mais ridículo do que ver esse pessoal tão desimportante reclamando e dando a si mesmos ares de grandeza e coragem foi o follow-up: um grupo de 34 “críticas e críticos de cinema” (só pela escolha das palavras já dá para saber em quem eles votaram nas últimas 5 eleições…), encabeçados aparentemente pelo Pablo Villaça, resolveu manifestar seu apoio aos bravos guerreiros cinematográficos. O manifesto dos 34 é tão cheio de autoilusão de grandeza e chavões mal explicados que é até difícil de criticar linha por linha – não sobraria uma sem contestação. Mas ali no meio, há uma frase muito interessante que resume muito bem a natureza da patologia de pensamento da turma:

“Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem”

Respire fundo, leia de novo:

“Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem”

Eis a raiz do mal. OS CARAS NÃO CONSEGUEM DIFERENCIAR AS COISAS. Vida e cinema, realidade e ficção, público e privado, evidência e opinião, pessoa e obra; é tudo a mesma coisa para os nossos amiguinhos. É por não saber dissociar coisas perfeitamente dissociáveis, é por não saber separar a realidade da interpretação torta da realidade, que essa gente é tão fanática, tão ridícula, e tão perigosa – se tiverem algum poder real, claro. Eles falando sobre cinema no máximo nos custam alguns milhões por ano…

Essa é a doença da mente dos nossos autointitulados intelectuais. O Plano Real foi feito por FHC, que hoje é considerado inimigo da esquerda. Como nada se distingue, logicamente um filme sobre o Plano Real tem que ser um louvor a FHC, tem que ser um ataque à esquerda, e por isso tem que ser considerado imoral e tem que ser boicotado. Porque sim. Nada se distingue, certo? Para quem, como Villaça & Cia., acha que a esquerda não se distingue do Bem, não há como a direita, e tudo que ela toca, se distinguir do Mal.

Não é por acaso que toda discussão decente depende das definições dos conceitos, da distinção entre as coisas. Não é por outra razão que Confúcio achava fundamental realizar a Retificação dos Nomes para que o país escapasse à convulsão (não foi feita, não escapou). Quando vida e cinema se distinguem nós temos chance de ter discussões produtivas sobre vida e cinema. Quando não, aí temos Pablo Villaça.

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