Resumo: Against murderism

Scott Alexander é o melhor blogueiro da Anglosfera, e este é provavelmente o melhor texto sobre racismo/intolerância escrito em 2017. Recomendo lerem o texto inteiro; é difícil resumir em poucas linhas tantos argumentos importantes e com o quais eu concordo tão fortemente, mas vou tentar:

1. A definição mais consistente de racismo é aquela feita a partir dos (supostos) motivos das ações dos indivíduos: uma pessoa é racista quando odeia irracionalmente um determinado grupo étnico e tem intenção de lhes causar danos; um ato de racismo é um ato motivado por essa malevolência contra um determinado grupo. Mas essa não é a única definição de racismo em circulação.

2. Todo o discurso atual em torno da palavra racismo é uma mistura irresponsável de (pelo menos) três conceitos distintos; dois são meio inconsistentes, e geralmente são mencionados quando o conceito mais coerente não permite xingar os adversários de racistas.

3. Justamente por causa da confusão de conceitos, o termo “racismo” cresceu tanto em abrangência que passou a abrigar coisas muito díspares. Pessoas movidas por sentimentos os mais distintos e ações com as conseqüências mais diversas passaram a ser cobertas por uma definição de racismo amplíssima e cambiável.

4. Justamente por “racismo” ter-se tornado um conceito amplo e incoerente demais, as discussões atuais sobre racismo não são apenas pouco informativas, mas ativamente desinformativas e danosas ao debate de idéias (e mesmo ao combate ao racismo). O conceito amplo e incoerente de racismo estimulou seus ideólogos a explicarem qualquer coisa em termos de racismo, enquanto se recusavam a explorar explicações alternativas mais parcimoniosas.

5. A luta contra o racismo, em parte por se usar o termo tão mal, acabou se tornando parte de uma estrutura moralista para separar a tribo dos Bons da tribo dos Maus, sem qualquer espaço para nuance, gradação, ou generosidade de interpretação. Acusações de suposto racismo (que de tão mal definido, pode-se encontrar em qualquer coisa) tornaram-se uma desculpa para não ter que lidar com argumentos contrários em assuntos sensíveis e polêmicos – imigração, globalização, e welfare são alguns exemplos. Nos piores momentos, acusações de racismo se tornaram uma tentativa de desumanizar os adversários e incitar perseguição política.

Que esse texto seja polêmico já basta para indicar o triste estado em que se encontra o debate intelectual de hoje. Deveria ser simples compreender que, para se ter uma discussão frutífera, é preciso começar por definir bem os termos da discussão. Sem boas definições, não há como produzir nada que não seja confusão, moralismo irracional, e injustiça. Já faz mais de 2500 anos que se sabe disso…

Deveria também estar claro, para todos os que discutem essas coisas, que é preciso discuti-las de verdade: é preciso realmente ouvir o que os outros têm a dizer, mesmo que as opiniões deles pareçam desprezíveis dentro do seu sistema moral. Mesmo que os outros pareçam errados, mesmo que pareçam malignos, mesmo que pareçam ignorantes, não se discute nada quando sequer se considera a possibilidade de os adversários terem razão. E certamente, não se faz nenhuma discussão relevante com gritos de RACISTA! RACISTA!!1!! QUEIMEM A BRUXA!!

O texto usa “racismo” como modelo de discussão, mas naturalmente o argumento não se restringe a este assunto. Quase todos os Assuntos Importantes Sobre Os Quais Precisamos Falar sofrem do mesmíssimo mal: definições incoerentes e amplas, e moralismo rampante. Essa praga atingiu termos como fascismo, preconceito, feminismo, direitos, xenofobia, abuso, conservadorismo, meritocracia, ódio, – enfim, muitas das coisas que fazem parte da dimensão ideológica da política. Tal confusão não ocorre sem ter conseqüências práticas: à medida em que os conceitos se ampliam e se erodem, a comunicação entre os indivíduos vai se tornando mais difícil e frustrante; os adversários começam a parecer cada vez mais incompreensíveis, e eventualmente já nem parecem mais tão humanos quanto o ingroup. O resultado final disso – e Scott Alexander aponta muito bem – é a guerra civil. Sim, é esse o resultado.

Querem uma boa razão para se opor a esses delírios coletivos? Aí está.

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