Links comentados II

Declaração do gênio do Acre na volta para casa: “Eu desenvolvi uma teoria cosmogônica sobre como funcionava o universo através das experiências visuais que eu tava passando e essa linha vermelha ela chama barreira potencial de finitude”. Cosmogonia significa “origem do universo”, não “mecânica do universo”; “barreira potencial da finitude” não quer dizer nada, e a frase é gramaticalmente horrível. Cada país tem o gênio que merece.

Um certo flockoflambs decidiu interpretar os deuses lovecraftianos como alegorias para crenças sociais e impulsos irresistíveis da humanidade, semelhante à identificação de Moloch com o problema da coordenação. Não li tudo, e não sei o quão interessante isso pode ser depois da descrição de Moloch e Gnon; mas quem sabe surge ali algum ensaio inspirado?

Página decididamente feminista afirma que os “pais incríveis” na verdade não fazem quase nada perto do que as mães fazem, e tenta prová-lo através de uma lista hilária de coisas com as quais nenhum pai se preocupa. Entre os itens, estão coisas como ler blogs sobre introdução alimentar (!), pensar no tema da festa de aniversário (!) do filho com seis meses de antecedência (!!!), e comprar o livro de pediatria da moda. A página parece achar que não fazer essas coisas é ruim, por alguma razão; e eu, de minha parte, fico extremamente aliviado ao constatar que 99% dos pais e 95% das mães não acham esse tipo de bobagem essencial à tarefa de criar os filhos.

Atentado terrorista mata 14 e deixa mais de 130 feridos em Barcelona. Os terroristas eram muçulmanos, como sempre, mas desta vez há outra coisa a mencionar: a Justiça espanhola havia se recusado a extraditar o mentor dos ataques em 2015 quando ele foi preso por tráfico de drogas. O tribunal considerou que Abdelbaki es Satty não era perigoso e estava tentando integrar-se ao país! Eu pergunto a mim mesmo quantos crimes horrendos não se poderia prevenir se nós apenas não nos recusássemos a aplicar os rigores das leis que já temos para punir os criminosos logo na primeira vez que eles delinqüem.

Mulher reencontra anel de noivado em cenoura; ela o havia perdido 13 anos atrás ao trabalhar na horta!

Depois que um juiz barrou (irregularmente, segundo dizem e segundo acredito) a entrega do diploma de doutor honoris causa a Lula pela UFRB, um grupo de universitários da instituição resolveu presenteá-lo com um diploma de mentirinha… que continha erros de português. Não deixa de ser bastante ilustrativo da qualidade das instituições de ensino superior criadas por Lula (A Universidade Federal do Recôncavo Baiano foi criada – ou melhor, desmembrada da UFBA – em 2006), e do tipo de “dicente” que por lá se encontra.

Professora de português é brutalmente agredida por aluno de 15 anos do EJA em Indaial, SC, por tê-lo mandado pôr o livro sobre a mesa (!). Lendo as postagens no Facebook da distinta senhora, descobrimos que trata-se de uma militante petista que posta isto, isto, mais isto, e isto, e ainda isto. Ah, claro, e isto, isto, isto, isto, isto. Como ela fechou o perfil após a repercussão negativa (o pessoal não perdoou…), deixo aqui os prints principais:

marcia friggi prints
À esquerda, a postagem em que a professora relata a agressão injustificável que sofreu; à direita, a mesma professora justificando a agressão ao outros… (prints de mais de uma fonte)

Que fique claro: ela não mereceu ser agredida, independente das idéias que apóia e das noções tortas que tem sobre o emprego da violência. O criminoso aqui é exclusivamente o anjinho de quinze anos que achou por bem espancar a professora simplesmente porque quis. Só acho importante também apontar a incoerência do discurso de uma mulher que acha justo sair na porrada porque “tem muita gente merecendo um olho roxo”, mas acha injusto que os outros lhe dêem porrada. Seria bom que ela aprendesse, após este episódio, que justificar a violência particular contra uns implica em justificá-la contra todos, mesmo que não seja essa a intenção. Mas não vai aprender; pela entrevista nojenta que ela deu à rádio gaúcha (ver comentário aqui) – em que a ouvimos toda prosa, com ar triunfante, fazendo discurso político e desligando na cara do repórter quando pega em um assunto difícil – já ficou bem claro que ela é uma militante esquerdista bitolada mesmo.

Chico Buarque, o bem-amado da militância, agora está sendo acusado de machismo. Motivo: a letra de sua nova música, “Tua Cantiga”, falaria em abandonar a mulher e ficar com a amante. Podem rir, é isso mesmo: os movimentozinhos sociais já chegaram ao ponto de exigirem recato e respeito aos bons costumes dos compositores, tal qual os censores mequetrefes do período militar. Aliás, a resposta zombeteira que ele deu à acusação levaria qualquer um com menos cacife a perder o emprego e ser massacrado online. Mas ele é o Chico, o artista de esquerda por excelência… então ele pode. No final, quem é do clubinho pode tudo; é o resto dos mortais que não pode nada.

Stephen Kanitz é contra a privatização da Eletrobrás, alegando que não vale a pena vender 100% do patrimônio agora, na baixa, na bacia das almas. Parece que ninguém o avisou que a tal “privatização” da Eletrobrás NÃO é a venda de 100% das ações do governo, e sim a emissão de mais ações para que a participação do governo caia para  48%. O governo está fazendo o que ele sugeriu, e ele está criticando sugerindo a mesma coisa!

A propósito, vai ter privatização até da Casa da Moeda, eeeba! Não, isso não é mentira, e também não é nenhum absurdo.

Em caravana pelo nordeste, Lula sobe no palanque junto com Renan Calheiros. Já começaram os malabarismos para justificar a aliança da alma mais honesta do Brasil com o mais notório malandro do Brasil.

A propósito, Lula afirmou durante sua visita a Pernambuco que o aumento dos homicídios no estado se deu por conta do aumento da pobreza. Ou, como resumiu a Caneta Desesquerdizadora no Facebook: Lula disse que pobres são bandidos. Falta o doutor Lula explicar como é possível a taxa de homicídios ter aumentado em todos os estados do Nordeste, exceto Pernambuco, durante os anos de governo do PT. Por acaso, ao contrário do que Lula diz, esses lugares ficaram mais pobres durante o Governo do Povo™?

Inês Brasil, a dos infinitos memes, tirou uma foto com Jair Bolsonaro. Segundo a (até então) musa da comunidade LGBTQ, um segurança do folclórico deputado lhe pediu que fosse tirar a foto, e ela foi, porque, segundo a própria, ela PODERIA TER DITO NÃO MAS EU SOU A FAVOR DO AMOR E QUANDO UNS RESPONDEM COM ÓDIO EU RESPONDO COM AMOR E SEMPRE RESPONDEREI. Os mui compreensivos fãs (que gritam contra o ódio e pedem mais amor por favor) estão descascando a ex-musa na publicação.

Lembrando que, recentemente, Pepê e Neném – negras, periféricas, lésbicas, e ex-pobres – declararam apoio a Jair Bolsonaro (diferente de Inês Brasil, que só tirou foto e disse não apoiar político nenhum), e também sofreram ataques dos mesmos militantes que minutos antes juravam amá-las pelo que elas eram. Eu não acho que Bolsonaro tenha muita chance de ser eleito presidente – mas com essas demonstrações de apoio espontâneas vindas de onde menos se espera… eu tenho que admitir que a possibilidade existe.

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Stephanie Ribeiro sabe o que melhor lhe convém

Stephanie Ribeiro é uma ativista do feminismo e do movimento negro muito conhecida nas redes sociais. Desde que despontou para a fama em princípios de 2014, a moça tem feito uma bela carreira como colunista: seus textos foram publicados tanto em veículos muito específicos (Geledés, Blogueiras Negras, Capitolina) quanto muito populares  (Huffington Post Brasil, Marie Claire, Folha de SP), sempre recebendo forte apoio de seus numerosos seguidores. Atualmente, ela está escrevendo um livro a ser publicado pela Companhia das Letras, e vem sendo chamada para participações em eventos e programas de TV (na última quinta-feira esteve no Encontro com Fátima Bernardes, na Globo – interessantemente, ela não viu problema em aparecer naquela emissora golpista que não cansa de passar vergonha…).

Ainda em 2015, Stephanie rapidamente foi alçada à condição de musa na falecida página das Aventuras na Justiça Social no Facebook (que hoje continua na versão 4.0 e no site) graças a sua inegável beleza (ela foi modelo, até!) e seu inegável pendor para escrever bobagens gradiloqüentes. A despeito de seu sucesso na mídia alternativa e na mídia mainstream, a moça escreve mal (“E antes que alguém diga que não vê diferença entre seres humanos por sua cor, você pode até não ver, mas as estatísticas que mostram que a cada 23 minutos um jovem negro morre neste País mostram que muitos veem e nos matam por isso.“), argumenta com ainda menos qualidade (vide o trecho supracitado), e defende posições espúrias difíceis de conciliar com um ativismo sério. Stephanie joga-meu-nome-no-Google Ribeiro é aquela que chama homens negros que se relacionam com mulheres brancas de palmiteiros (e insinua que isso deve ser condenado moralmente!), que acha que Leonardo Sakamoto é um branco racista, que diz que homem branco tem tendência para ser burro, que acha agressivo um branco contrariá-la usando um texto escrito por um negro (!!!), que acha impossível um branco sofrer racismo, que acha que homem cis-hétero-de-classe-média não pode criticar o feminismo, que acredita em apropriação cultural, que acha que rolezinho em shopping center é “resistência política”, que reclama de preconceito lingüístico quando criticam sua gramática, que insinua uma associação do termo humor negro com o racismo, que defendeu até o fim o governo de uma mulher branca e rica porque… porque sim (a despeito do “genocídio negro” promovido durante os anos de governo do partido da presidenta inocenta), e que atribui até mesmo seu transtorno depressivo ao racismo (muito embora boa parte dos brancos também sofre dessa doença, mas enfim). A menina é a encarnação do estereótipo da militante problematizadora de classe média.

Há poucos dias, depois de Stephanie Ribeiro ter aparecido na TV, a AJS4.0 decidiu relembrar algumas das presepadas de sua musa preferida postando prints de comentários antigos em que Stephanie fazia alguns ataques… politicamente incorretos contra brancos, por assim dizer. Mas para a surpresa de todos, a combativa Stephanie Ribeiro desta vez não quis brigar; em vez disso, ela contatou a moderação da página via inbox pedindo que os prints fossem removidos, pois ela estaria arrependida de tê-los escrito. A Págine foi bastante cavalheira: removeu as imagens em questão, explicou sua decisão aos leitores, e desejou sorte à moça em sua nova fase. Vale a pena ler o que a moderação escreveu:

“Isso não significa que estamos preparados para aplaudir o que Stephanie diz. Seria melhor que ela tratasse o tema do racismo com mais cuidado. Dizer que sofre racismo 24h por dia, por exemplo, parece uma hipérbole. Hipérboles não costumam ser amigas da verdade e da justiça. Mas – o que é importante – nós jamais alegamos que Stephanie e outras pessoas negras não sofrem racismo no Brasil. É justamente porque acreditamos que sofrem, sim, que gostaríamos que ativistas como ela fossem sempre mais cuidadosos, mais rigorosos, mais pensativos, mais curiosos. Seu arrependimento e reconhecimento de que errou ao fazer aqueles comentários é um ótimo passo nessa direção. Desejamos ainda mais sucesso à Stephanie – e que use esse sucesso para o bem.”

Concordo, e acho que é uma boa atitude a se manter. Só devemos combater pessoas por suas idéias e ações; no momento em que os pensamentos ruins e as atitudes problemáticas se vão e os danos são reparados (na medida do possível), não sobram muitas razões aceitáveis para continuar atacando seus antigos portadores.

Dito isso, eu não acredito que Stephanie tenha se arrependido de nada, exceto da repercussão negativa que os prints lhe rendem hoje.

A postagem inclui um novo print do perfil da ativista (onde estou bloqueado preventivamente), que contém o textinho em que ela expressa seu arrependimento. Ei-lo reproduzido aqui:

print15 ste
(eu não escrevo maravilhosamente bem, mas não consigo não notar as peculiaridades da gramática stephaniana…)

Desculpem-me os bons, os otimistas, e os de suprema boa-fé; mas o conteúdo do texto não me permite acreditar que o arrependimento dela seja tão profundo e tão digno de boa vontade quanto a moderação da AJS parece crer. Talvez ela tenha sido mais convincente nas mensagens privadas, mas eu não vejo neste texto nada que indique uma mudança real de pensamento. Nestas poucas linhas de arrependimento faltam três coisas importantíssimas para uma autocrítica sincera:

 

  1. Ela não diz que errou. Em momento nenhum ela afirma ter agido errado, mas sim ter agido de forma que hoje ela julga inconveniente para seu objetivo de “somar pessoas”. Ela se arrepende de suas palavras não terem ajudado o discurso a ser amplo e a “somar”, não necessariamente de o discurso ser discriminatório. Já é um começo, claro: que bom que ela finalmente percebeu que xingar os brancos indiscriminadamente (hehe!) não ajuda em nada na luta contra o racismo -mas eu lembro bem que o ponto de contenção com ela não era só a falta de visão estratégica, era também a visão racista. Esta última, não temos evidência de que mudou. Afinal…
  2. Ela não diz de que se arrependeu. Quem se arrepende, sempre se arrepende de alguma coisa, não? Stephanie não diz do que. Ela alude vagamente a “coisas que foram ditas na raiva” (assim, na voz passiva mesmo), que não “somam” e não eram lúcidas. Que coisas? Por que não dizer com clareza que se arrepende de ter dito coisas como “homem branco tem tendência a ser burro?” Por que não dizer que se arrepende de ter estereotipado e desqualificado a opinião de todos os brancos? O arrependimento exige clareza, demanda precisão, precisa da coragem de assumir que errou: mas afinal, qual foi o erro? E cadê a admissão?
  3. Ela não pede desculpas pelo que fez. Quem se arrepende de fato costuma sentir um peso na consciência ao pensar em como seus atos afetaram os outros. As palavras de que hoje ela se arrepende foram ofensivas, mas ela não vê razão para pedir perdão aos possíveis ofendidos. As palavras foram, segundo conseguimos inferir do texto, divisivas e prejudiciais à causa – mas ela não se desculpa com seus seguidores ou com por isso. Arrependeu-se, de fato?

E se falta muito do que caracteriza um arrependimento sincero, por outro lado sobram aqueles elementos típicos de um texto de controle de danos, feito por quem não quer assumir, mas sim afastar de si a culpa que outros lhe atribuem. Reparem que:

  1. Ela procura desculpas para si. Ela usa as escusas de sempre que todos usam para diminuírem o peso da responsabilidade por suas ações: dizer que era jovem (faz só dois anos…), dizer que agiu sob efeito da raiva, e dizer que se sentiu atacada. Só faltou dizer que tinha bebido.
  2. Ela considera o que disse como parte de um “processo”. Um tanto cripticamente, ela afirma que o que fez é parte do processo de lidar com a violência racial. Se é uma etapa de um processo, a atitude dela se torna menos criticável, já que seria necessária para atingir um estágio mais avançado de pensamento e atitude. E se é importante para lidar com a violência racial – que ninguém apóia – então se torna mais passível de perdão. É uma maneira de afastar a culpa.
  3. Ela tenta despertar compaixão na platéia, ao fazer a afirmação absurda de que sofre racismo 24 horas por dia (até dormindo? Até conversando com a mãe?).

Não é, decididamente, o que eu esperaria de uma declaração genuína de arrependimento. Não a vejo assumir responsabilidade, não vejo ali objetividade, e não vejo um pedido de desculpas.

Vejo uma ativista que entrou para o mainstream midiático fazendo controle de danos.

Dois ou três anos atrás, ainda galgando os degraus da escada da lacração, Stephanie não via nenhum problema em xingar, em estereotipar, em extravasar sua raiva e seu preconceito contra os brancos (e contra os negros que divergissem dela…). Isso lhe era útil à época: fazia barulho, trazia mais seguidores, trazia a atenção das outras ativistas do meio. Atacar e ser atacada era bastante proveitoso, embora sem dúvida estressante.

Hoje a situação é diferente; a moça já está estabelecida na militância, já tem contrato com editora, já aparece em programa de TV. Já chegou no mainstream. E agora – com os olhos do grande público ali, voltados para ela, e o dinheiro dos editores podendo sumir ao menor sinal de insegurança ou boicote por parte do público – agora armar barraco só atrapalha. Antes a confusão atraía seguidores úteis e detratores que, no mínimo, não eram danosos (e eram facilmente bloqueáveis); hoje, o limite de seguidores fiéis já foi atingido, e a polêmica traz alguns detratores que podem causar danos reais: uma centena deles que veja aqueles prints e se ofenda pode começar uma campanha de boicote, que pode persuadir a editora a não publicar seu livro por medo do furor público. Uma campanha denunciando seu racismo pode impedi-la de seguir o caminho da Djamila Ribeiro e virar assessora política, ou de ser chamada para a TV como comentarista. Os movimentos de que ela participa, inclusive, são ótimos em fazer isso; ela já deve estar familiarizada com a possibilidade real de ser alvo de algo similar.

Antes, despertar a raiva dos outros era vantajoso; ela o fazia. Haters que só aumentam o tráfego da página e o cacife dentro da militância não fazem muito mal. Hoje, esses mesmos haters podem ser bem mais danosos a sua carreira, que sem dúvida já começou a render dinheiro; então agora ela quer paz. Agora ela pede educadamente para esquecerem o passado.

Eu sei que posso estar sendo pouco generoso; mas não consigo crer que o arrependimento dela seja puramente moral quando a admissão do crime é tão pífia e o timing é tão adequado. Não é pela ideologia, é pela conveniência. Tal como antes, ela está fazendo o que é mais conveniente para si. É pela conveniência que ela não cita diretamente do que se arrependeu – para que atrair atenção para o que se quer esconder? É pela conveniência que ela não diz que errou – já que boa parte de seu público não acha que ela estava tão errada assim, e podem não gostar do mea culpa.

Se com isso parece que eu estou dizendo que ela é calculista e não tem moral… admito que é compreensível que pareça, mas não é nisso que acredito; minha visão é um pouco mais complexa, mas não vou detalhar aqui. Tenho certeza de que ela não é um monstro calculista que pensa friamente sobre o melhor para si sem qualquer consideração pelo aspecto moral; acho que ela realmente pensou e pensou e acredita que decidiu moralmente. Mas a descrição que ela faz de seu arrependimento é tão editada pela conveniência que está claro que esta última teve muito peso ali. Muito mais do que a moral. A imagem que o texto me passa é a de uma dessas (muitas) pessoas cujo raciocínio moral é contaminado pelo raciocínio da conveniência a todo tempo. Por isso, não me considero no dever de acreditar que seu arrependimento advém de uma mudança moral profunda.

Finalizo: tal qual os moderadores da AJS4.0, não desejo mal a Stephanie Ribeiro, e acho que já é um bom progresso ela parar de atacar os brancos e focar em aspectos mais produtivos do discurso – mesmo que por razões egoístas. Uma mudança por conveniência é melhor do que nada; mas ainda não é o ideal, e não deve ser confundida com o ideal. Que o melhor não seja inimigo do bom e não nos impeça de apreciá-lo; mas que o bom não usurpe o lugar do melhor, e não nos faça dar a gente movida pela conveniência mais crédito do que elas merecerem.

O nazismo era nazista

O incidente de Charlottesville trouxe-nos um dos espetáculos do infinito dia da marmota que é a internet: a discussão de se o nazismo seria de esquerda ou de direita. É sempre a mesma coisa, sempre prossegue da mesma maneira estúpida e desonesta, sempre termina sem terminar; desta vez não vai ser diferente. Mas cabe responder à pergunta mesmo assim: afinal, era de esquerda ou de direita?

Resposta curta e rápida: nazismo não era de direita nem de esquerda, e quem o classifica como extrema-direita ou extrema esquerda não sabe o que diz1. O nazismo era nazista, porque a parte mais relevante de sua ideologia – aquela que melhor explica suas as ações – era totalmente sui generis.

Classificar o nazismo no eixo direita-esquerda é mais complicado e mais propenso a distorções do que parece à primeira vista, uma vez que os termos “esquerda” e “direita” têm mais de uma definição honesta possível, além da miríade de definições desonestas que invariavelmente são usadas em todas as polêmicas.

A começar, a definição pode ser feita a partir de princípios (“é esquerda quem defende X”) ou a partir de afiliação (“é esquerda quem se diz de esquerda e como tal é reconhecido”). Ambas as definições têm argumentos que as recomendam, mas dão resultados diferentes na hora de classificar os movimentos políticos. Só isso já basta para gerar divergências2.

O problema continua quando se observa que as posições defendidas por direita e esquerda não se mantêm constantes ao longo do tempo3; que a maioria das posições políticas possíveis não é intrinsecamente de esquerda nem de direita4; e que pautas que nascem em um lado do espectro político podem vir a ser defendidas pelo outro conforme o tempo passa5. Isso ocorre porque a definição mais correta e coerente possível de esquerda e direita não nos diz nada sobre que bandeiras cada uma defende, mas sim sobre o método de escolher as bandeiras: direita é conservadorismo, esquerda é progressismo. Grosso modo, a direita quer preservar as instituições de 100 anos atrás e destruir as de 20 anos atrás; a esquerda quer o contrário. Ao procurar substitutos para o que cada uma quer destruir, a direita olha para o (suposto) passado, e a esquerda para o (imaginado) futuro. Notem que essa definição praticamente implica em as pautas mudarem de lado com o passar do tempo, como de fato vemos acontecer6.

Por conta disso, uma posição defendida pela esquerda de 1917 pode ser defendida pela direita de 2017; e como a discussão está acontecendo em 2017 mas se refere a fatos antigos, é possível justificar que se chame de “esquerda” tanto uma pauta que era esquerdosa antigamente e hoje não é mais, quanto uma pauta que hoje é de esquerda mas na época era conservadora. Muitos textos sobre o nazismo recorrem a essa ambiguidade para forçar o encaixe do partido na direita ou na esquerda.

(Há também o problema de decidir quais, dentre as muitas bandeiras que cada lado da guerra política levanta, são as bandeiras mais relevantes e definidoras de cada lado. Um critério muito amplo ou muito rígido, como freqüentemente se usa em debates sobre o nazismo, gera resultados estranhos se aplicado consistentemente. Se comunismo é a bandeira que definia a esquerda7, então toda a social democracia teria que ser chamada de direitista. Se nacionalismo define a direita, então Mao tem que ser chamado de direitista)

Some-se a isso o hábito dos fanáticos de cada um dos lados atribuírem todos os males do mundo ao outro lado, e tem-se a receita para um debate pseudointelectual 100% descompromissado com informar o público. Assim, somos informados de que o nazismo era de direita por ser autoritário (Stálin, alguém lembra?), por ser antissemita (Marx?), por ser nacionalista (Mao?), por se favorável à propriedade privada (Lula?), e por ser militarista (Maduro?); nenhuma dessas características é exclusiva da direita, porém. Outros nos dizem que o nazismo era de esquerda por querer um Estado inchado (Franco?), ser uma ditadura (Médici?), e controlar a imprensa (todas as anteriores). Nenhuma dessas características é exclusiva de direita ou esquerda, mas não faltam textos que tentem avançar essas teses.

No caso específico do nazismo, ainda há dois fatores complicadores8: o programa nazista mudava mais do que as fases da Lua, e os nazistas eram notórios manipuladores e mentirosos9. Uma posição defendida em 1925 podia ser revertida em 1930, voltar em 1933, ser publicamente condenada em 1938, e aparecer novamente em memorandos internos de 1944. Não é por acaso que os historiadores concordam bastante quantos aos fatos materiais sobre o nazismo, mas discordam muito quanto a motivos, idéias, e planos.

Como concluir qualquer coisa no meio desta confusão?

Vamos por partes: analisando o nazismo a partir de sua atuação política de fato, a situação é bem complicada. Os nazistas mantinham uma plataforma socialista e populista (ver abaixo), mas sempre fizeram questão de atacar os comunistas e fazer de tudo para retirá-los da política alemã (embora as relações exteriores com a Rússia tenham sido menos maniqueístas), o que lhes rendeu a simpatia e a aliança de muitos conservadores (exceto, notoriamente, os ligados a partidos religiosos); alguns consideram isso evidência de que, na prática pelo menos, o nazismo foi de direita – mas não faz sentido. Briga interna, perseguições entre facções de esquerda, e alianças estranhas não são nenhuma novidade, e não bastam para desqualificar a inclinação de esquerda do partido. Ao mesmo tempo em que atacava sem piedade o comunismo, o nazismo se apresentava como uma variante mais aceitável e correta do socialismo. E é importante lembrar que os ataques virulentos ao comunismo não impediam os nazistas de atacarem (com menos violência, claro) as demais correntes da política alemã. Capitalistas, tradicionalistas, religiosos, todos que não fossem nazistas estavam sujeitos aos seus ataques.

A relação do nazismo com a esquerda fica mais interessante se formos analisá-lo a partir de seus princípios; é difícil negar que, no espectro esquerda-direita, o nazismo começou pendendo para a esquerda, por mais que rejeitasse o marxismo. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães começou atacando a burguesia, o capitalismo, as grandes empresas, e o rentismo, e defendendo a socialização dos lucros das empresas com os empregados, o Estado de bem estar social, a nacionalização de indústrias estratégicas e a reforma agrária – pautas mantidas pela esquerda nos últimos 200 anos. Está tudo lá nos 25 pontos de 1920. O partido também foi contrário à restauração da monarquia alemã e à influência religiosa sobre o governo (notoriamente a da Igreja Católica, cujo partido centrista competia com os nazistas por votos na parte católica da Alemanha).

O programa nazista original era basicamente um programa de esquerda – exceto que nele também se encontra uma forte insistência no nacionalismo, que (na época, como hoje) era visto como no mínimo secundário pela esquerda (e ativamente desprezado pelos setores marxistas), e que desde o começo abunda a rejeição ao comunismo nos escritos dos membros do partido – numa época em que o comunismo era mais ou menos apoiado por toda a esquerda. Apesar disso, a passagem do tempo inegavelmente distanciou o partido das promessas mais esquerdosas e aumentou o foco nos elementos militaristas e peculiares do nazismo (especialmente depois da Röhm Putsch), de modo que o caráter esquerdista do programa acabou tendo pouca influência no regime de fato. O nazismo deslocou-se em direção ao centro conforme ganhou mais poder, e estacionou em algum lugar entre o centro e a centro-direita. Virou uma ditadura oligárquica comum, com os membros do partido formando a nova elite. Esta não é uma trajetória incomum; o Partido Comunista Chinês e o governo comunista da Coréia do Norte passaram pelo mesmo processo em tempos recentes – este último basicamente converteu-se em uma monarquia hereditária absoluta.

Ocorre que toda a discussão sobre o nazismo ser de esquerda e direita é de pouca importância para entender o nazismo, porque a parte mais relevante de sua ideologia era sui generis. Aliás, essa discussão é danosa ao debate, pois faz parecer que o grande problema do nazismo seriam seus elementos esquerdistas ou direitistas, quando não são: o elemento apomórfico é responsável por 90% da ruindade do regime. Não foi por ter sido autoritário ou anticomunista ou anticapitalista que o nazismo foi terrível – isso explica os horrores de Stalin ou de Leopoldo II, mas não os de Hitler: este foi o que foi por fazer da crença na pureza racial alemã e na necessidade de mantê-la a qualquer custo uma política de Estado. Foi daí que adveio a barbárie. Foi o antissemitismo nazista que matou milhões de judeus, não seu anticomunismo ou anticapitalismo. Foi a crença no Lebensraum que os levou a massacrar a Polônia. E esta parte da ideologia não é de esquerda nem de direita, mas sim uma síntese de elementos antigos e ciência de época feita unicamente pelos nazistas, e por mais ninguém.

Reparem: o nazismo não foi o único regime fascista que existiu, mas foi o mais assustador, o mais terrível, e o mais odioso. Mussolini, Franco, Salazar, e Getúlio eram fascistas, e não foram nem de longe tão ruins quanto Hitler. Por quê? Porque a parte nacionalista e militarista da ideologia deles não se baseava fortemente em idéias raciais, mas sim no conjunto mais regular de identidade nacional (língua, história, cultura, religião, etc.); e a parte coletivista da ideologia coletivista deles não incluía sacrificar o povo numa guerra racial total. Sem o ângulo racial, Hitler teria sido como eles: um desastre para a Alemanha, mas não uma tragédia para o mundo.

É por isso que eu digo que a discussão sobre esquerda e direita é irrelevante para entender o nazismo, que saber se o nazismo era um ou outro é irrelevante para entender esquerda e direita, e que o nazismo era, antes de tudo, nazista: as idéias que tornaram o nazismo tão letal e tão odioso não vieram de nenhum dos lados, não podem ser derivadas das crenças de nenhum dos lados, e foram gestadas politicamente somente dentro do partido nazista. Perguntar se eles seriam de esquerda ou de direita faz tanto sentido quanto perguntar se César era de esquerda quando derrotou os gauleses ou se Tamerlão era de direita quando conquistou a Ásia central.

Resumindo: o nazismo era de esquerda ou direita?

1. O nazismo começou com mais elementos de esquerda do que de direita, e gradualmente moveu-se em direção ao centro do espectro político conforme ganhava mais poder.

2. Os elementos de esquerda e de direita explicam muito pouco do fenômeno que foi o nazismo (uns 10%, estimo), e portanto discutir sobre esquerda e direita no nazismo é discutir sobre trivialidades enquanto se ignora um tema maior.

3. A maior parte das ações dos nazistas são explicadas pela parte mais peculiar e única de sua ideologia – a crença em pureza racial, em um Lebensraum, e o antissemitismo exacerbado – algo que transcende a divisão direita-esquerda, e é uma mistura de elementos antigos reinterpretados à luz de ciência duvidosa e filosofia moderna.

Termino aqui. Agora guardem este texto para quando, daqui a uma ano, voltarmos a ter essa discussão inútil quando um neonazista disser que apoia o Bolsonaro ou quando uma suástica convenientemente aparecer desenhada em algum banheiro de universidade federal.


Notas:

1 “extrema direita” ou “extrema esquerda” implica uma adesão total à ortodoxia de um dos dois lados – ou pelo menos que o partido proclame e acredite que está aderindo aos extremos “verdadeiros” da esquerda ou da direita. Partidos cuja ideologia não pode ser mapeada totalmente em um dos lados e/ou que não clamam representar a verdadeira forma de um dos lados da disputa não podem ser “extremos” do espectro político. O nazismo, como o resto deste texto argumenta, não possui idéias de somente um lado do espectro político e nunca, até onde sei, clamou ser 100% de esquerda ou de direita.

2 para um exemplo dos vários problemas que o uso de definições diferentes acarreta, vide a discussão entre pseudoerasmus e Jonah Goldberg. O problema de jogar o fascismo italiano e o nazismo no mesmo balaio também é bastante proeminente no debate. Reparem os textos são de 2015; o assunto vem e volta todo ano.

3 por exemplo, o mainstream da esquerda já aprovou a ditadura do proletariado, mas hoje o rejeita. O mainstream de direita já foi decididamente contra o liberalismo econômico, mas hoje o aceita sem muitas restrições.

4 por exemplo, a ética da não violência, a preferência pela democracia, a defesa da responsabilidade fiscal, a importância do comércio internacional – assuntos politicamente relevantes que não se encaixam na dicotomia esquerda-direita.

5 por exemplo, aposentadoria. Começou como parte do Estado de bem estar social defendido pela esquerda, mas hoje foi perfeitamente incorporado à direita mainstream.

6 um exemplo real (se bem que polêmico) disso é a defesa moderna da eugenia e da ciência da classificação racial, que começou entre os progressistas do início do século XX (acreditem se quiserem) e hoje só subsiste em uma parcela pequena dos reacionários.

7 como diz nas entrelinhas o péssimo texto do Michel Gherman no Estadão, que para a tristeza de quem tem cérebro está entre os mais lidos desta semana. Gherman escreve um texto sobre a ideologia nazista sem citar os pontos do programa nazista, muitos dos quais eram escandalosamente de esquerda, e tenta igualar “esquerda” com “marxismo ortodoxo”. Após “””provar””” que o nazismo não pode ser de esquerda porque odiava o marxismo e os judeus, Gherman salta sobre a lógica para concluir que o nazismo era de extrema-direita, sem nem tentar argumentar. Ler isso aí vindo do coordenador do Centro de Estudos Judaicos da UFRJ é desalentador. Flávio Morgenstern lhe  deu uma resposta apropriada.

8 na verdade, há um terceiro fator complicador, que é a atitude do pós-guerra. A derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial é praticamente o mito de criação da sociedade ocidental contemporânea, e Hitler é um daqueles poucos personagens que se convencionou ser dever cívico odiar – aliás, não só odiar, mas demonstrar o ódio sempre que possível, sob pena de alguns olhares esquisitos. Neste contexto, é previsível que quem queira provocar desprezo a um adversário acuse-o de compactuar, ou de ter qualquer coisa em comum, com os nazistas (ver reductio ad hitlerum e Lei de Godwin). E como o tema é quente e dominado pelo moralismo, encontra-se historiadores e pundits de todos os lados com os argumentos mais distorcidos possíveis para tentar “provar” que o nazismo era exatamente igual a [insira grupo de que você não gosta aqui] e quem discordar é Literalmente Hitley.

9 como exemplo do nível de quão longe a manipulação chegava no tempo dos nazistas, olhem esse trecho sobre o assassinato de Moritz Schlick por Johann Nelböck em 1936. Nelböck era mentalmente perturbado, e alegou ter cometido o crime porque a filosofia anti-metafísica de Schlick teria perturbado seu senso de autocontenção (ou talvez por questões de amor). O evento foi cooptado pelos nazistas para atacar os judeus, embora nenhum dos dois envolvidos fosse judeu e o crime não tivesse qualquer relação com política! A “pós-verdade” de hoje não é nada por comparação.

Links comentados I

[Alguns links com alguns comentários]

Menino do Acre reaparece após mais de quatro meses. Lembrando que o “menino” é um estudante de 25 anos que escreveu 14 livros esotéricos criptografados com a cifra mais tosca da Terra, e cujo sumiço mostrou-se ter sido uma jogada de marketing para vender os manuscritos. Funcionou, pelo visto: o primeiro livro (TAC: Teoria de Absorção de Conhecimentos) atingiu o 20º lugar em vendas de não-ficção segundo o PublishNews. E o segundo volume, humildemente intitulado Caminho para a Verdade Absoluta, vem aí. Brasileiro é tão fácil de enganar.

Para a surpresa de ninguém, a Assembléia Constituinte convocada por Nicolás Maduro na Venezuela ratificou sua permanência na presidência. A Assembléia terá poderes plenos para instaurar de vez a ditadura reformar a democracia (cof, cof) venezuelana. Lembrando que o PT, o PC do B, e o PSOL divulgaram notas de apoio ao regime; nenhum, porém, explicou porque acha que a maravilhosa Constituição chavista, que eles tanto louvaram nos últimos 15 anos, deveria ser descartada agora, em meio à crise econômica e à desconfiança no governo.

Mulher reage a assalto em Fortaleza, espanta os bandidos, e o G1 está preocupado em nos dizer que reagir a assalto é errado. Como assim errado? Arriscado, sim; imprudente, talvez. Mas errado, de jeito nenhum. É triste ler o que escreve essa moça corajosa cuja bravura é censurada pela imprensa e pela polícia:

“Já fui assaltada cinco vezes. Em todas elas eu reagi. Em todos os casos. Eu sei que é errado. Agora vou tentar me corrigir e pedir a Deus mais calma. Agradecer por eles [os ladrões] não terem uma arma e me agredido. Vou tentar me corrigir”, afirma a costureira.

Não moça, quem precisa se corrigir são os vagabundos que tentaram te roubar. Você só precisa ser mais prudente – se bem que quem se livra de cinco assaltos podemos confiar que sabe o que está fazendo.

O aplicativo de edição de fotos FaceApp introduziu um filtro que permitia alterar a etnia do rosto do usuário. Pessoas normais acharam divertido; pessoas militantes acharam horrorosamente ofensivo, e fizeram tanto barulho que o filtro foi retirado do ar sob acusações de racismo. Aparentemente, retratar uma pessoa de uma raça com aparência de outra é o suprassumo do racismo hoje em dia. Quero só que fique registrado o quanto a luta contra o racismo deixou de lado o que era relevante para cair no completo ridículo.

Ao mesmo tempo em que o FaceApp era acusado de racismo, a Netflix escalava um ator negro para o papel de Zeus em uma série sobre a guerra de Tróia, e a BBC produzia um desenho animado educativo sobre o período romano da Grã-Bretanha incluindo um romano afrodescendente (qual a chance disso?) como representante típico da diversidade do período (sobre este último caso, ver o comentário do Nassim Taleb). Aparentemente, essas representações racialmente errôneas não contam como racismo para a mesma militância que atacou o FaceApp.

Tribunal Popular julgará a Operação Lava-Jato em Curitiba. Parece grande coisa, mas vamos lembrar que este “tribunal” é apenas um congresso de juristas pró-PT que se autoconcedeu o nome pomposo e se arroga o direito de chamar suas opiniões de “julgamento” – não é um tribunal de verdade com autoridade sobre o que quer que seja. Ridículo, não? Mas perfeitamente normal para um partido que reuniu um congresso de juristas sob patrocínio da Via Campesina, nomeou-o Tribunal Internacional para a Democracia, e o mandou conduzir um “julgamento” sobre o impeachment da Dilma em que até o acusador, o brizolista Nilo Batista, tinha vínculo com o PT. O resultado, evidentemente, foi a conclusão de que impeachment era golpe, e o alardeamento do resultado como se fosse uma sentença de algum tribunal de verdade, e não a opinião de meia dúzia de partidários.

O Coletivo das Mulheres de Relações Internacionais da UFF (ai, ai) emitiu uma nota de repúdio (que mais esses coletivos fazem mesmo?) contra o consumo de pornografia, afirmando que “é problemático mantermos no corpo docente do INEST funcionários que, para além de consumirem pornografia – se apropriando do corpo feminino em situação hiperssexualizada, sob infeliz respaldo de que sua conduta configura luta política – silenciam, coagem e perseguem alunas que expõem ponto de vista que contraria sua convicção“. Confuso? Eu explico: elas estavam reclamando de um professor que admitiu consumir pornografia em casa, e que não deu bola para as reclamações indignadas delas. O COMRI-UFF é basicamente uma versão moderna dos puritanos. Via AJS no Facebook.

Enfim temos uma resposta à altura para as irritantes tirinhas do Armandinho: Afonsinho, um moleque tão mala quanto o Armandinho mas que se ferra no final. Já que a Morrendo Violentamente foi censurada por questões de copyright, teremos que nos contentar em matar a paródia do infame problematizador infantil.

Tem que ser burro para tacar ovo no Doria

Nas notícias de celebridades… digo, notícias políticas de hoje, manifestantes de esquerda jogaram ovos em João Doria em Salvador. Naturalmente, boa parte das páginas de esquerda na internet achou tudo divertidíssimo e aprovou o ato.

O legal desse tipo de coisa ridícula é que expõe perfeitamente a qualidade da militância. A despeito de todo o pretenso intelectualismo e suposta tolerância (mais amor, por favor!), o que se vê é só um bando de gente irracional que se comporta igual torcedor de futebol depois de uns goles – e ainda se orgulha disso.

Mas mais interessante, no caso em questão a irracionalidade se soma à burrice. Apesar de seu discurso indignado, Doria deve estar esfregando as mãos e se contendo para não rir depois dessa; afinal, a ovada lhe dá publicidade gratuita (e ele sabe o valor disso) e material para atacar ainda mais os adversários ligados ao PT. Doria não foi “humilhado” em rede nacional; para isso, ele teria que já ser conhecido pelo Brasil afora E já ser detestado – ele não é nenhuma das duas coisas. Ele não foi abatido, ele ganhou um palanque. As paginazinhas de sempre estão todas alegres com o feito sem se dar conta disso.

(em tempo: tacar coisas [que não machuquem] em políticos fortemente escoltados e protegidos é uma daquelas coisas que não deveria ser feita, mas… não é tão grave assim quando fazem. Acho muito piores aquelas intimidações e ameaças de violência feitas em aeroportos ou na frente da casa do político – nestas, o sujeito pode razoavelmente ter medo de ser ferido pela turba. Não, a Democracia não Está Ameaçada™ pelo ovo do Doria, assim como não estava ameaçada no caso da bolinha de papel, nem no caso da galinha, nem no caso da torta na cara. Mas enfim, tanto a escolha do meio de protesto quanto o timing errado indicam alguma coisa sobre a falta de noção dos militantes)

 

Direitos humanos para humanos direitos, versão de esquerda

Resumo da notícia: um neonazista e sete punks brigaram em Osasco, e o neonazista saiu morto. A história em si não é nem incomum, nem surpreendente; brigas de gangues são parte da nossa paisagem urbana há décadas, por mais triste que seja admitir. A maior parte desse tipo de ocorrência nem chega a virar notícia, e o que vira tende a se resumir a uma ou duas linhas rapidamente esquecidas.

Mas o que importa para este post não é o acontecimento em si, e sim sua repercussão; em especial o que foi levantado neste texto do Guilherme Assis no Facebook: desde o momento em que o caso entrou em discussão na Internet (inicialmente, por causa de dúvidas quanto a se o morto era mesmo neonazista), os comentários foram dominados por pessoas comemorando a morte do vagabundo sujeito e aplaudindo os sete outros vagabundos punks por seu feito. De novo, nada muito surpreendente; boa parte da população não vê nada de errado em matar criminosos das mais variadas estirpes por crimes de todo tipo.

Exceto que, como Guilherme Assis apontou, boa parte dos comentaristas eram pessoas de esquerda que supostamente defendem os Direitos Humanos e criticam quem diz que bandido bom é bandido morto. São pessoas que condenam linchamentos e acham Bolsonaro monstruoso por querer matar e/ou castrar assassinos e estupradores, mas que (como vimos) não veem nenhum problema em defender exatamente a mesma coisa em um contexto um pouco diferente.

Quem quiser uma demonstração de o quão parecido é o discurso desses bravos antinazistas com o dos bolsominions só precisa passear pelos mais de 1800 comentários da postagem; uns 90% dos leitores não entenderam sequer o começo do texto (nada surpreendente também – ai, ai…) e uma enxurrada de gente de esquerda fez questão de confirmar que Guilherme Assis não tinha atacado um espantalho. Um amostra das interações na thread:

Nazista nem é gente! Defensor de nazista tb não!

(“Bandido nem é gente! Defensor de bandido tb não!”)

Guilhermino açaí passando pano pra nazi, é isso mesmo o que eu li???

(sempre tem alguém que acha que qualquer defesa da pessoa é igual a apoio incondicional. Vários alguéns, no caso)

Violência gratuita não se combate com flores! Mata mais que tá pouco.”

(no caso, a violência gratuita foi dos 7 punks contra o neonazista, mas enfim)

Um nazista não é igual a qualquer bandido, mto menos igual a qualquer ser humano.

(variante exculpatória dos anteriores)

ESPANCOU E MATOU FOI POCO. pega o nazi e da colinho, arrombado, deficiente cognitivo.

(variante menos educada das anteriores)

Nazista não é gente, leva seu sentimentalismo pra puta que pariu.

(clássico: igualar defesa dos Direitos Humanos com sentimentalismo. Às vezes é verdade, admito)

Quem se envolve com gangs de rua tem que ser consciente do que está fazendo. Tá na chuva é pra se molhar.

(outro clássico: ele mereceu, afinal foi se envolver com bandidagem)

O discurso [de direitos humanos] vale pra todo mundo, menos pra neonazista. O julgamento do neonazista é a suastica tatuada, não tem neonazista pacifico

(ou seja, Direitos Humanos para humanos direitos)

Ah tem dó… Se era nazista ja foi tarde. Ta com pena leva pra casa. “Desumanizar vítimas de violência” vou ter q rir kkkk Nazista não é humano. Tem mais é q morrer msm

(é o bordão do Datena: tá com dó, leva pra casa)

Que militudo. Matar nazista nem é crime, é dever humanitário.

(o lema de todo justiceiro: matar bandido é um dever para o bem da sociedade)

MAS ELE ERA NAZISTA CARALHO, SER NAZISTA NÃO É COMO SER ALGO OK
TU JA OUVIU FALAR EM HOLOCAUSTO? ONDE PESSOAS ERAM MORTAS EM CÂMARAS DE GÁS OU DE FOME? EM ACREDITAR EM UMA SUPERIORIDADE GENÉTICA?

(isso foi em resposta a um comentário de um judeu que criticou o assassinato do neonazista, só para constar)

Você quer combater nazismo como? Com sarau na faculdade? Com bundaço? Beijaço? Trocando ideia? Acorda pra vida, mongoloide

(mais um clássico aqui: o cara durão que acha que qualquer coisa que não seja porrada é utopia)

Tu muda de opinião quando um parente teu é homossexual ou nordestino e sofrer um ataque dessa raça

(quarto clássico, aquele que não podia faltar: “queria ver se acontecesse com você”)

“Deixa uns desses te pegarem numa rua escura pra ver se vão respeitar sua humanidade. Não morreu por pensar diferente, sim por ser NAZISTA!

(semelhante ao acima, mas com uma pérola no final)

Nazista nao é gente nao compare um bandido com algo q nao é nem humano todo nazista tem q ser MORTO a qualquer oportunidade e ponto defender qq coisa diferente disso isso sim poe em risco vida de muitos companheiros de esquerda

(repare no “ser morto a qualquer oportunidade”)

“Você fala isso só porque é branco e provavelmente de classe média e hetero. Se fosse negro ou gay, teria mais amor próprio e comemoraria a morte de todo facho.

(Argumentum ad loco locutionis, não pode faltar em debate de esquerda)

O crime de agressão literal não é espontâneo e sádico, o crime ideológico é muito mais grave. Quando um crime desses é espontâneo e sádico o meliante é punido e internado por ser um psicopata, agora neonazismo não é psicopatia.

(uma tentativa muito confusa de explicar porque não pode linchar agressores comuns mas pode matar nazistas)

pq realmente, um tatuador classe média morto por carregar ideais assassinos é exatamente a mesma coisa que quando a policia fuzila um moleque preto de 14 anos na favela e depois planta um revolver na mão dele

(mais um que tenta se explicar e acaba revelando que não leu o texto e não entendeu NADA da comparação)

Imagina se o esforço pra defender nazistinha fosse feito pra defender os sofredores do Brasil

(“imagine se o esforço para defender bandido fosse feito para proteger os cidadãos de bem”)

Matar anarquista pode mas nazi não?

(espantalho; o texto não defendia que se pudesse matar ninguém)

Quod erat demonstrandum, boa parte da esquerda mais fanática tem comportamento idêntico ao da direita mais selvagem. Critiquem o quanto quiserem, a Teoria da Ferradura é real. Um monte de gente que se horroriza com o bordão “Direitos Humanos para humanos direitos” acaba aderindo a esse pensamento no momento em que encontra um criminoso horrível o suficiente para suas sensibilidades morais – o que nos leva a questionar o quanto essas pessoas realmente acreditam na existência de Direitos Humanos Universais.

Qual é o ponto?

O ponto é que Direitos Humanos Universais só são Direitos Humanos Universais se valerem para todos os seres humanos, independente de quaisquer outras características individuais. São direitos considerados intrínsecos aos membros da nossa espécie, que devem ser preservados ao grau máximo que for possível em cada contexto. São direitos de que gozam os bons e os maus, os bonitos e os feios, os de que nós gostamos e os que nós odiamos. Toda a defesa dos Direitos Humanos começa por reconhecer que até os mais desprezíveis de nós devem ser tratados com um mínimo de dignidade e proteção.

Há muito espaço para controvérsias intelectuais sobre quais direitos devem cair sob a categoria de Direitos Humanos Universais, ou mesmo se deve existir um grupo de direitos assim. SIM, QUESTIONAR OS DIREITOS HUMANOS É INTELECTUALMENTE VÁLIDO. Mas qualquer que seja a sua posição sobre este assunto, ela deve envolver o uso de critérios consistentes para decidir quem merece a proteção dos direitos; não pode ser só uma coleção de arbitrariedades que magicamente coloca as pessoas (que você acha) odiosas fora da proteção da lei.

No caso em discussão, o texto comparava quem defendia a morte do neonazista com quem defende a execução de bandidos comuns; há quatro posições que podem ser defendidas intelectualmente quanto a isso – qual a mais defensável, qual a mais moral, cada um defina por si; mas que se diga explicitamente quais são elas e quais são suas conseqüências:

  1. Negar o direito de matar tanto o bandido quanto o neonazista, pois a vida é um direito humano que deve ser respeitado em todos os seres humanos.
  2. Aceitar o direito de poder matar neonazistas e bandidos. Neste caso, é preciso um critério que justifique matar ambos – talvez a comissão de crimes violentos no passado?
  3. Aceitar o direito de matar bandidos comuns, mas não neonazistas. Sob qual critério, não sei…
  4. Aceitar o direito de matar neonazistas, mas não bandidos comuns. O pessoal dos comentários do post do Guilherme Assis tentou elaborar alguma coisa nesse sentido, mas a maior parte passava por dizer que o bandido comum era [sempre] um sujeito sem oportunidades e/ou que o nazista era irrecuperável (esta última soa familiar?). Nenhuma das duas afirmativas é verdadeira, porém, e por isso nenhuma justifica a decisão de matar um e preservar o outro.

Notem que, das quatro posições possíveis, somente a posição 1 aceita a existência de um direito humano à preservação da vida; todos os outros três precisam admitir que a vida de alguns humanos vale menos, moralmente, do que a de outros, e pode lhes ser retirada sem culpa. Quem se declara a favor dos Direitos Humanos – como boa a parte da esquerda – tem que preferir a posição 1, ou então é um hipócrita.

O que implica em dizer: se você defende que se possa matar neonazistas sem ser em autodefesa – simplesmente por eles serem desprezíveis e potencialmente perigosos – admita que você não defende os Direitos Humanos, pare de falar como se os direitos humanos fossem sagrados para você, e pare de se escandalizar com os outros negadores dos Direitos Humanos que usam critérios diferentes de você para decidir quem se pode matar. Sua divergência com eles é apenas nos critérios, não na estrutura de pensamento.

Por fim: qualquer posição que se adote neste debate traz algumas conseqüências desconfortáveis, mas… isso é inevitável. Defender os Direitos Humanos é desconfortável. Aceitar a existência de um direito a vida implica em defender algumas criaturas abomináveis e imerecedoras de compaixão, como um assassino neonazista ou o Champinha, da compreensível fúria popular. É perfeitamente válido que alguém se revolte com essa perspectiva e queira negar que se conceda direitos incondicionais aos humanos, visto que entre nós caminham alguns monstros. Por isso eu não saio chamando os que são contra os Direitos Humanos de primitivos e impiedosos, e por isso eu não saio todo orgulhoso de defender esses direitos como se eles só trouxessem conseqüências inequivocamente boas.

Este texto não é só uma denúncia da hipocrisia de alguns militantes internéticos dos Direitos Humanos; na verdade, é mais um alerta para o quão mal pensadas são as posições ideológicas dessas pessoas. Nos comentários que tentaram elaborar uma justificativa para poder matar neonazistas e não bandidos, a confusão de conceitos, a prosa truncada e a incapacidade de responder a questionamentos diretos deixavam bem claro que a pessoa NUNCA havia parado para pensar no assunto antes. O pessoal defendia os DH sem ter se dado conta de que eles valem também para neonazistas é como se achassem que esses direitos só protegeriam os bandidos sanitizados que aparecem na cartilha ideológica.

Não é uma discussão por nada: palavras são importantes, conceitos claros são importantes, e denunciar o uso errado dos termos é necessário. Isto tem que ficar bem claro se quisermos tirar o país deste atoleiro intelectual.