Direitos humanos para humanos direitos, versão de esquerda

Resumo da notícia: um neonazista e sete punks brigaram em Osasco, e o neonazista saiu morto. A história em si não é nem incomum, nem surpreendente; brigas de gangues são parte da nossa paisagem urbana há décadas, por mais triste que seja admitir. A maior parte desse tipo de ocorrência nem chega a virar notícia, e o que vira tende a se resumir a uma ou duas linhas rapidamente esquecidas.

Mas o que importa para este post não é o acontecimento em si, e sim sua repercussão; em especial o que foi levantado neste texto do Guilherme Assis no Facebook: desde o momento em que o caso entrou em discussão na Internet (inicialmente, por causa de dúvidas quanto a se o morto era mesmo neonazista), os comentários foram dominados por pessoas comemorando a morte do vagabundo sujeito e aplaudindo os sete outros vagabundos punks por seu feito. De novo, nada muito surpreendente; boa parte da população não vê nada de errado em matar criminosos das mais variadas estirpes por crimes de todo tipo.

Exceto que, como Guilherme Assis apontou, boa parte dos comentaristas eram pessoas de esquerda que supostamente defendem os Direitos Humanos e criticam quem diz que bandido bom é bandido morto. São pessoas que condenam linchamentos e acham Bolsonaro monstruoso por querer matar e/ou castrar assassinos e estupradores, mas que (como vimos) não veem nenhum problema em defender exatamente a mesma coisa em um contexto um pouco diferente.

Quem quiser uma demonstração de o quão parecido é o discurso desses bravos antinazistas com o dos bolsominions só precisa passear pelos mais de 1800 comentários da postagem; uns 90% dos leitores não entenderam sequer o começo do texto (nada surpreendente também – ai, ai…) e uma enxurrada de gente de esquerda fez questão de confirmar que Guilherme Assis não tinha atacado um espantalho. Um amostra das interações na thread:

Nazista nem é gente! Defensor de nazista tb não!

(“Bandido nem é gente! Defensor de bandido tb não!”)

Guilhermino açaí passando pano pra nazi, é isso mesmo o que eu li???

(sempre tem alguém que acha que qualquer defesa da pessoa é igual a apoio incondicional. Vários alguéns, no caso)

Violência gratuita não se combate com flores! Mata mais que tá pouco.”

(no caso, a violência gratuita foi dos 7 punks contra o neonazista, mas enfim)

Um nazista não é igual a qualquer bandido, mto menos igual a qualquer ser humano.

(variante exculpatória dos anteriores)

ESPANCOU E MATOU FOI POCO. pega o nazi e da colinho, arrombado, deficiente cognitivo.

(variante menos educada das anteriores)

Nazista não é gente, leva seu sentimentalismo pra puta que pariu.

(clássico: igualar defesa dos Direitos Humanos com sentimentalismo. Às vezes é verdade, admito)

Quem se envolve com gangs de rua tem que ser consciente do que está fazendo. Tá na chuva é pra se molhar.

(outro clássico: ele mereceu, afinal foi se envolver com bandidagem)

O discurso [de direitos humanos] vale pra todo mundo, menos pra neonazista. O julgamento do neonazista é a suastica tatuada, não tem neonazista pacifico

(ou seja, Direitos Humanos para humanos direitos)

Ah tem dó… Se era nazista ja foi tarde. Ta com pena leva pra casa. “Desumanizar vítimas de violência” vou ter q rir kkkk Nazista não é humano. Tem mais é q morrer msm

(é o bordão do Datena: tá com dó, leva pra casa)

Que militudo. Matar nazista nem é crime, é dever humanitário.

(o lema de todo justiceiro: matar bandido é um dever para o bem da sociedade)

MAS ELE ERA NAZISTA CARALHO, SER NAZISTA NÃO É COMO SER ALGO OK
TU JA OUVIU FALAR EM HOLOCAUSTO? ONDE PESSOAS ERAM MORTAS EM CÂMARAS DE GÁS OU DE FOME? EM ACREDITAR EM UMA SUPERIORIDADE GENÉTICA?

(isso foi em resposta a um comentário de um judeu que criticou o assassinato do neonazista, só para constar)

Você quer combater nazismo como? Com sarau na faculdade? Com bundaço? Beijaço? Trocando ideia? Acorda pra vida, mongoloide

(mais um clássico aqui: o cara durão que acha que qualquer coisa que não seja porrada é utopia)

Tu muda de opinião quando um parente teu é homossexual ou nordestino e sofrer um ataque dessa raça

(quarto clássico, aquele que não podia faltar: “queria ver se acontecesse com você”)

“Deixa uns desses te pegarem numa rua escura pra ver se vão respeitar sua humanidade. Não morreu por pensar diferente, sim por ser NAZISTA!

(semelhante ao acima, mas com uma pérola no final)

Nazista nao é gente nao compare um bandido com algo q nao é nem humano todo nazista tem q ser MORTO a qualquer oportunidade e ponto defender qq coisa diferente disso isso sim poe em risco vida de muitos companheiros de esquerda

(repare no “ser morto a qualquer oportunidade”)

“Você fala isso só porque é branco e provavelmente de classe média e hetero. Se fosse negro ou gay, teria mais amor próprio e comemoraria a morte de todo facho.

(Argumentum ad loco locutionis, não pode faltar em debate de esquerda)

O crime de agressão literal não é espontâneo e sádico, o crime ideológico é muito mais grave. Quando um crime desses é espontâneo e sádico o meliante é punido e internado por ser um psicopata, agora neonazismo não é psicopatia.

(uma tentativa muito confusa de explicar porque não pode linchar agressores comuns mas pode matar nazistas)

pq realmente, um tatuador classe média morto por carregar ideais assassinos é exatamente a mesma coisa que quando a policia fuzila um moleque preto de 14 anos na favela e depois planta um revolver na mão dele

(mais um que tenta se explicar e acaba revelando que não leu o texto e não entendeu NADA da comparação)

Imagina se o esforço pra defender nazistinha fosse feito pra defender os sofredores do Brasil

(“imagine se o esforço para defender bandido fosse feito para proteger os cidadãos de bem”)

Matar anarquista pode mas nazi não?

(espantalho; o texto não defendia que se pudesse matar ninguém)

Quod erat demonstrandum, boa parte da esquerda mais fanática tem comportamento idêntico ao da direita mais selvagem. Critiquem o quanto quiserem, a Teoria da Ferradura é real. Um monte de gente que se horroriza com o bordão “Direitos Humanos para humanos direitos” acaba aderindo a esse pensamento no momento em que encontra um criminoso horrível o suficiente para suas sensibilidades morais – o que nos leva a questionar o quanto essas pessoas realmente acreditam na existência de Direitos Humanos Universais.

Qual é o ponto?

O ponto é que Direitos Humanos Universais só são Direitos Humanos Universais se valerem para todos os seres humanos, independente de quaisquer outras características individuais. São direitos considerados intrínsecos aos membros da nossa espécie, que devem ser preservados ao grau máximo que for possível em cada contexto. São direitos de que gozam os bons e os maus, os bonitos e os feios, os de que nós gostamos e os que nós odiamos. Toda a defesa dos Direitos Humanos começa por reconhecer que até os mais desprezíveis de nós devem ser tratados com um mínimo de dignidade e proteção.

Há muito espaço para controvérsias intelectuais sobre quais direitos devem cair sob a categoria de Direitos Humanos Universais, ou mesmo se deve existir um grupo de direitos assim. SIM, QUESTIONAR OS DIREITOS HUMANOS É INTELECTUALMENTE VÁLIDO. Mas qualquer que seja a sua posição sobre este assunto, ela deve envolver o uso de critérios consistentes para decidir quem merece a proteção dos direitos; não pode ser só uma coleção de arbitrariedades que magicamente coloca as pessoas (que você acha) odiosas fora da proteção da lei.

No caso em discussão, o texto comparava quem defendia a morte do neonazista com quem defende a execução de bandidos comuns; há quatro posições que podem ser defendidas intelectualmente quanto a isso – qual a mais defensável, qual a mais moral, cada um defina por si; mas que se diga explicitamente quais são elas e quais são suas conseqüências:

  1. Negar o direito de matar tanto o bandido quanto o neonazista, pois a vida é um direito humano que deve ser respeitado em todos os seres humanos.
  2. Aceitar o direito de poder matar neonazistas e bandidos. Neste caso, é preciso um critério que justifique matar ambos – talvez a comissão de crimes violentos no passado?
  3. Aceitar o direito de matar bandidos comuns, mas não neonazistas. Sob qual critério, não sei…
  4. Aceitar o direito de matar neonazistas, mas não bandidos comuns. O pessoal dos comentários do post do Guilherme Assis tentou elaborar alguma coisa nesse sentido, mas a maior parte passava por dizer que o bandido comum era [sempre] um sujeito sem oportunidades e/ou que o nazista era irrecuperável (esta última soa familiar?). Nenhuma das duas afirmativas é verdadeira, porém, e por isso nenhuma justifica a decisão de matar um e preservar o outro.

Notem que, das quatro posições possíveis, somente a posição 1 aceita a existência de um direito humano à preservação da vida; todos os outros três precisam admitir que a vida de alguns humanos vale menos, moralmente, do que a de outros, e pode lhes ser retirada sem culpa. Quem se declara a favor dos Direitos Humanos – como boa a parte da esquerda – tem que preferir a posição 1, ou então é um hipócrita.

O que implica em dizer: se você defende que se possa matar neonazistas sem ser em autodefesa – simplesmente por eles serem desprezíveis e potencialmente perigosos – admita que você não defende os Direitos Humanos, pare de falar como se os direitos humanos fossem sagrados para você, e pare de se escandalizar com os outros negadores dos Direitos Humanos que usam critérios diferentes de você para decidir quem se pode matar. Sua divergência com eles é apenas nos critérios, não na estrutura de pensamento.

Por fim: qualquer posição que se adote neste debate traz algumas conseqüências desconfortáveis, mas… isso é inevitável. Defender os Direitos Humanos é desconfortável. Aceitar a existência de um direito a vida implica em defender algumas criaturas abomináveis e imerecedoras de compaixão, como um assassino neonazista ou o Champinha, da compreensível fúria popular. É perfeitamente válido que alguém se revolte com essa perspectiva e queira negar que se conceda direitos incondicionais aos humanos, visto que entre nós caminham alguns monstros. Por isso eu não saio chamando os que são contra os Direitos Humanos de primitivos e impiedosos, e por isso eu não saio todo orgulhoso de defender esses direitos como se eles só trouxessem conseqüências inequivocamente boas.

Este texto não é só uma denúncia da hipocrisia de alguns militantes internéticos dos Direitos Humanos; na verdade, é mais um alerta para o quão mal pensadas são as posições ideológicas dessas pessoas. Nos comentários que tentaram elaborar uma justificativa para poder matar neonazistas e não bandidos, a confusão de conceitos, a prosa truncada e a incapacidade de responder a questionamentos diretos deixavam bem claro que a pessoa NUNCA havia parado para pensar no assunto antes. O pessoal defendia os DH sem ter se dado conta de que eles valem também para neonazistas é como se achassem que esses direitos só protegeriam os bandidos sanitizados que aparecem na cartilha ideológica.

Não é uma discussão por nada: palavras são importantes, conceitos claros são importantes, e denunciar o uso errado dos termos é necessário. Isto tem que ficar bem claro se quisermos tirar o país deste atoleiro intelectual.

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