Stephanie Ribeiro sabe o que melhor lhe convém

Stephanie Ribeiro é uma ativista do feminismo e do movimento negro muito conhecida nas redes sociais. Desde que despontou para a fama em princípios de 2014, a moça tem feito uma bela carreira como colunista: seus textos foram publicados tanto em veículos muito específicos (Geledés, Blogueiras Negras, Capitolina) quanto muito populares  (Huffington Post Brasil, Marie Claire, Folha de SP), sempre recebendo forte apoio de seus numerosos seguidores. Atualmente, ela está escrevendo um livro a ser publicado pela Companhia das Letras, e vem sendo chamada para participações em eventos e programas de TV (na última quinta-feira esteve no Encontro com Fátima Bernardes, na Globo – interessantemente, ela não viu problema em aparecer naquela emissora golpista que não cansa de passar vergonha…).

Ainda em 2015, Stephanie rapidamente foi alçada à condição de musa na falecida página das Aventuras na Justiça Social no Facebook (que hoje continua na versão 4.0 e no site) graças a sua inegável beleza (ela foi modelo, até!) e seu inegável pendor para escrever bobagens gradiloqüentes. A despeito de seu sucesso na mídia alternativa e na mídia mainstream, a moça escreve mal (“E antes que alguém diga que não vê diferença entre seres humanos por sua cor, você pode até não ver, mas as estatísticas que mostram que a cada 23 minutos um jovem negro morre neste País mostram que muitos veem e nos matam por isso.“), argumenta com ainda menos qualidade (vide o trecho supracitado), e defende posições espúrias difíceis de conciliar com um ativismo sério. Stephanie joga-meu-nome-no-Google Ribeiro é aquela que chama homens negros que se relacionam com mulheres brancas de palmiteiros (e insinua que isso deve ser condenado moralmente!), que acha que Leonardo Sakamoto é um branco racista, que diz que homem branco tem tendência para ser burro, que acha agressivo um branco contrariá-la usando um texto escrito por um negro (!!!), que acha impossível um branco sofrer racismo, que acha que homem cis-hétero-de-classe-média não pode criticar o feminismo, que acredita em apropriação cultural, que acha que rolezinho em shopping center é “resistência política”, que reclama de preconceito lingüístico quando criticam sua gramática, que insinua uma associação do termo humor negro com o racismo, que defendeu até o fim o governo de uma mulher branca e rica porque… porque sim (a despeito do “genocídio negro” promovido durante os anos de governo do partido da presidenta inocenta), e que atribui até mesmo seu transtorno depressivo ao racismo (muito embora boa parte dos brancos também sofre dessa doença, mas enfim). A menina é a encarnação do estereótipo da militante problematizadora de classe média.

Há poucos dias, depois de Stephanie Ribeiro ter aparecido na TV, a AJS4.0 decidiu relembrar algumas das presepadas de sua musa preferida postando prints de comentários antigos em que Stephanie fazia alguns ataques… politicamente incorretos contra brancos, por assim dizer. Mas para a surpresa de todos, a combativa Stephanie Ribeiro desta vez não quis brigar; em vez disso, ela contatou a moderação da página via inbox pedindo que os prints fossem removidos, pois ela estaria arrependida de tê-los escrito. A Págine foi bastante cavalheira: removeu as imagens em questão, explicou sua decisão aos leitores, e desejou sorte à moça em sua nova fase. Vale a pena ler o que a moderação escreveu:

“Isso não significa que estamos preparados para aplaudir o que Stephanie diz. Seria melhor que ela tratasse o tema do racismo com mais cuidado. Dizer que sofre racismo 24h por dia, por exemplo, parece uma hipérbole. Hipérboles não costumam ser amigas da verdade e da justiça. Mas – o que é importante – nós jamais alegamos que Stephanie e outras pessoas negras não sofrem racismo no Brasil. É justamente porque acreditamos que sofrem, sim, que gostaríamos que ativistas como ela fossem sempre mais cuidadosos, mais rigorosos, mais pensativos, mais curiosos. Seu arrependimento e reconhecimento de que errou ao fazer aqueles comentários é um ótimo passo nessa direção. Desejamos ainda mais sucesso à Stephanie – e que use esse sucesso para o bem.”

Concordo, e acho que é uma boa atitude a se manter. Só devemos combater pessoas por suas idéias e ações; no momento em que os pensamentos ruins e as atitudes problemáticas se vão e os danos são reparados (na medida do possível), não sobram muitas razões aceitáveis para continuar atacando seus antigos portadores.

Dito isso, eu não acredito que Stephanie tenha se arrependido de nada, exceto da repercussão negativa que os prints lhe rendem hoje.

A postagem inclui um novo print do perfil da ativista (onde estou bloqueado preventivamente), que contém o textinho em que ela expressa seu arrependimento. Ei-lo reproduzido aqui:

print15 ste
(eu não escrevo maravilhosamente bem, mas não consigo não notar as peculiaridades da gramática stephaniana…)

Desculpem-me os bons, os otimistas, e os de suprema boa-fé; mas o conteúdo do texto não me permite acreditar que o arrependimento dela seja tão profundo e tão digno de boa vontade quanto a moderação da AJS parece crer. Talvez ela tenha sido mais convincente nas mensagens privadas, mas eu não vejo neste texto nada que indique uma mudança real de pensamento. Nestas poucas linhas de arrependimento faltam três coisas importantíssimas para uma autocrítica sincera:

 

  1. Ela não diz que errou. Em momento nenhum ela afirma ter agido errado, mas sim ter agido de forma que hoje ela julga inconveniente para seu objetivo de “somar pessoas”. Ela se arrepende de suas palavras não terem ajudado o discurso a ser amplo e a “somar”, não necessariamente de o discurso ser discriminatório. Já é um começo, claro: que bom que ela finalmente percebeu que xingar os brancos indiscriminadamente (hehe!) não ajuda em nada na luta contra o racismo -mas eu lembro bem que o ponto de contenção com ela não era só a falta de visão estratégica, era também a visão racista. Esta última, não temos evidência de que mudou. Afinal…
  2. Ela não diz de que se arrependeu. Quem se arrepende, sempre se arrepende de alguma coisa, não? Stephanie não diz do que. Ela alude vagamente a “coisas que foram ditas na raiva” (assim, na voz passiva mesmo), que não “somam” e não eram lúcidas. Que coisas? Por que não dizer com clareza que se arrepende de ter dito coisas como “homem branco tem tendência a ser burro?” Por que não dizer que se arrepende de ter estereotipado e desqualificado a opinião de todos os brancos? O arrependimento exige clareza, demanda precisão, precisa da coragem de assumir que errou: mas afinal, qual foi o erro? E cadê a admissão?
  3. Ela não pede desculpas pelo que fez. Quem se arrepende de fato costuma sentir um peso na consciência ao pensar em como seus atos afetaram os outros. As palavras de que hoje ela se arrepende foram ofensivas, mas ela não vê razão para pedir perdão aos possíveis ofendidos. As palavras foram, segundo conseguimos inferir do texto, divisivas e prejudiciais à causa – mas ela não se desculpa com seus seguidores ou com por isso. Arrependeu-se, de fato?

E se falta muito do que caracteriza um arrependimento sincero, por outro lado sobram aqueles elementos típicos de um texto de controle de danos, feito por quem não quer assumir, mas sim afastar de si a culpa que outros lhe atribuem. Reparem que:

  1. Ela procura desculpas para si. Ela usa as escusas de sempre que todos usam para diminuírem o peso da responsabilidade por suas ações: dizer que era jovem (faz só dois anos…), dizer que agiu sob efeito da raiva, e dizer que se sentiu atacada. Só faltou dizer que tinha bebido.
  2. Ela considera o que disse como parte de um “processo”. Um tanto cripticamente, ela afirma que o que fez é parte do processo de lidar com a violência racial. Se é uma etapa de um processo, a atitude dela se torna menos criticável, já que seria necessária para atingir um estágio mais avançado de pensamento e atitude. E se é importante para lidar com a violência racial – que ninguém apóia – então se torna mais passível de perdão. É uma maneira de afastar a culpa.
  3. Ela tenta despertar compaixão na platéia, ao fazer a afirmação absurda de que sofre racismo 24 horas por dia (até dormindo? Até conversando com a mãe?).

Não é, decididamente, o que eu esperaria de uma declaração genuína de arrependimento. Não a vejo assumir responsabilidade, não vejo ali objetividade, e não vejo um pedido de desculpas.

Vejo uma ativista que entrou para o mainstream midiático fazendo controle de danos.

Dois ou três anos atrás, ainda galgando os degraus da escada da lacração, Stephanie não via nenhum problema em xingar, em estereotipar, em extravasar sua raiva e seu preconceito contra os brancos (e contra os negros que divergissem dela…). Isso lhe era útil à época: fazia barulho, trazia mais seguidores, trazia a atenção das outras ativistas do meio. Atacar e ser atacada era bastante proveitoso, embora sem dúvida estressante.

Hoje a situação é diferente; a moça já está estabelecida na militância, já tem contrato com editora, já aparece em programa de TV. Já chegou no mainstream. E agora – com os olhos do grande público ali, voltados para ela, e o dinheiro dos editores podendo sumir ao menor sinal de insegurança ou boicote por parte do público – agora armar barraco só atrapalha. Antes a confusão atraía seguidores úteis e detratores que, no mínimo, não eram danosos (e eram facilmente bloqueáveis); hoje, o limite de seguidores fiéis já foi atingido, e a polêmica traz alguns detratores que podem causar danos reais: uma centena deles que veja aqueles prints e se ofenda pode começar uma campanha de boicote, que pode persuadir a editora a não publicar seu livro por medo do furor público. Uma campanha denunciando seu racismo pode impedi-la de seguir o caminho da Djamila Ribeiro e virar assessora política, ou de ser chamada para a TV como comentarista. Os movimentos de que ela participa, inclusive, são ótimos em fazer isso; ela já deve estar familiarizada com a possibilidade real de ser alvo de algo similar.

Antes, despertar a raiva dos outros era vantajoso; ela o fazia. Haters que só aumentam o tráfego da página e o cacife dentro da militância não fazem muito mal. Hoje, esses mesmos haters podem ser bem mais danosos a sua carreira, que sem dúvida já começou a render dinheiro; então agora ela quer paz. Agora ela pede educadamente para esquecerem o passado.

Eu sei que posso estar sendo pouco generoso; mas não consigo crer que o arrependimento dela seja puramente moral quando a admissão do crime é tão pífia e o timing é tão adequado. Não é pela ideologia, é pela conveniência. Tal como antes, ela está fazendo o que é mais conveniente para si. É pela conveniência que ela não cita diretamente do que se arrependeu – para que atrair atenção para o que se quer esconder? É pela conveniência que ela não diz que errou – já que boa parte de seu público não acha que ela estava tão errada assim, e podem não gostar do mea culpa.

Se com isso parece que eu estou dizendo que ela é calculista e não tem moral… admito que é compreensível que pareça, mas não é nisso que acredito; minha visão é um pouco mais complexa, mas não vou detalhar aqui. Tenho certeza de que ela não é um monstro calculista que pensa friamente sobre o melhor para si sem qualquer consideração pelo aspecto moral; acho que ela realmente pensou e pensou e acredita que decidiu moralmente. Mas a descrição que ela faz de seu arrependimento é tão editada pela conveniência que está claro que esta última teve muito peso ali. Muito mais do que a moral. A imagem que o texto me passa é a de uma dessas (muitas) pessoas cujo raciocínio moral é contaminado pelo raciocínio da conveniência a todo tempo. Por isso, não me considero no dever de acreditar que seu arrependimento advém de uma mudança moral profunda.

Finalizo: tal qual os moderadores da AJS4.0, não desejo mal a Stephanie Ribeiro, e acho que já é um bom progresso ela parar de atacar os brancos e focar em aspectos mais produtivos do discurso – mesmo que por razões egoístas. Uma mudança por conveniência é melhor do que nada; mas ainda não é o ideal, e não deve ser confundida com o ideal. Que o melhor não seja inimigo do bom e não nos impeça de apreciá-lo; mas que o bom não usurpe o lugar do melhor, e não nos faça dar a gente movida pela conveniência mais crédito do que elas merecerem.

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