Sobre a mostra Queermuseu do Santander

Se alguém aí está chocado, apoplético, absurdado com a “censura” da mostra cultural Queermuseu, é porque passou os últimos anos sem prestar atenção no estado da vida intelectual da nação.

Para quem não acompanhou a polêmica da semana: o Santander Cultural resolveu fazer uma mostra “artística” ao custo de R$800.000,00 de isenção fiscal via lei Rouanet (ou seja, deixaram de pagar 800 mil de impostos para bancar o troço, com aval do governo). A mostra Queermuseu incluía coisas como hóstias pichadas com palavrões e desenhos mal feitos com legendas como “criança viada travesti da lambada”, em meio a um monte de clichês pseudotransgressores.

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“Arte transgressora”, versão quarta série. Esta e outras fotos podem ser vistas neste link.

Uma bela porcaria, portanto – no conteúdo e na forma, mas muito especialmente nesta última. Claro que a mostra continha obras melhores, mas estava coalhada daquele tipo de produção que reivindica o nome de “arte” exclusivamente pelo choque que causa nas pessoas comuns; e que de resto, não exige técnica, não exige esforço, não exige inspiração, não exige busca pelo belo, não exige nada, e não exige sequer a boa vontade de se fazer entender pelo público. É a lacrada pela lacrada, simplesmente.

Bom: queriam chocar, e chocaram; e o resultado foi previsível para qualquer um que não esteja intoxicado pela romantização da “luta” e do povo. A mostra caiu no conhecimento do público (graças a visitas escolares e a páginas como a Socialista de IPhone) e gerou uma tempestade de indignação moral, com direito a acusações (no mínimo exageradas) de blasfêmia e pedofilia, que causou uma campanha de boicote ao Santander, que intimidou o banco, que cancelou a exposição. Restou o choro livre aos apoiadores.

Nossa intelectualidade está indignada com esse ato de censura e intolerância. O El País arranjou três artistas para reclamarem da censura conservadora, e a Mídia Ninja já saiu chamando o MBL (que teve muito pouco a ver com a história) de nazista (que visão! Prêmio Godwin para eles). Artistas assinaram um manifesto (aparentemente, é isso que os artistas mais fazem hoje em dia) e prometeram protestos.

Eu, porém, tenho um pouco de memória. O que aconteceu nos últimos dias pode ser resumido em um grupo fazendo pressão sobre uma instituição privada porque esta ofendeu a moralidade do grupo; e não faltam exemplos nos últimos anos de grupelhos que se arvoraram o direito de fazer A MESMA COISA, e com bem menos apoio popular, mas defendendo uma moralidade progressista. Por exemplo, para ficar só no mundo da arte:

– Começando em 2012, grupos de pressão acusaram a obra de Monteiro Lobato de ser racista, com diferentes subgrupos exigindo medidas como o banimento da obra ou a pelo menos a adição de notas explicativas. O caso chegou a ir ao STF; alguém aí veio dizer que “arte tem que chocar” em defesa dos livros?

– Em 2014, artistas protestaram contra o financiamento israelense à Bienal de Arte de São Paulo, já que, segundo eles “Ao aceitar esse financiamento, o nosso trabalho artístico exibido na exposição é prejudicado e, implicitamente, usado para legitimar agressões e violação do direito internacional e dos direitos humanos em curso em Israel”. Aliás, boicotes a artistas israelenses são bem comuns por aí, justificados em nome da rejeição à ocupação da Palestina. Alguém aí lembrou de dizer que “financiar não é apoiar”, como estão dizendo agora?

– Em 2015, o Itaú cultural cancelou a exibição da peça “A Mulher do Trem” por causa de acusações de racismo feitas pela militância. A peça tinha um ator fazendo blackface (em linguagem comum, um branco pintado de preto). A remoção da peça por conta deste pecado tão específico (quem além da militância americanizada conhecia isto?) gerou alguma reclamação por parte dos bem-pensantes?

– Em junho de 2016, Mc Biel viu sua carreira implodir após dizer safadezas para uma repórter que o entrevistou e se comprometer ainda mais nas explicações. Grupos online escavaram suas publicações, encontraram a tradicional combinação de machismo, racismo etc etc, e tanto barulho fizeram que intimidaram os produtores. Alguém achou isso imoral ou censório? (OK, neste caso nem eu)

– Em maio deste ano, cineastas nacionais e críticos de cinema organizaram um boicote (hilário, que eu comentei aqui) ao CinePE por conta da exibição do filme O Jardim das Aflições. A grandiloqüência do manifesto era ridícula e autoritária, mas vocês viram algum desses paladinos da tolerância criticar os cineastas?

– Há menos de um mês, uma dessas bandinhas alternativas (Apanhador Só) teve que cancelar shows após o furor gerado entre os fãs pela lavação de roupa suja de uma ex-namorada do guitarrista, que o acusou de ser desleal, abusador, e machista. O público ficou em chamas, e não quis mais saber da banda. Intolerantes, por acaso?

Minha visão é bem simples: primeiro, a vitória dos “conservadores” esta semana é só um sinal de que eles estão jogando o mesmo jogo que os “progressistas” e obtendo algum sucesso. Jogo, aliás, que nem foram os progressistas que inventaram: lobbying é mais antigo que andar pra frente, não é necessariamente ruim, e não é algo que se consiga banir da vida em sociedade. E uma vez existindo, existe para todos em algum grau: quem acha que o seu grupinho deve poder gritar e boicotar uma obra que lhe ofende precisa admitir esse mesmo direito para os demais grupos.

Segundo, cada um dos grupinho mencionados neste texto estava em seu pleno direito de manifestação (ao menos até começarem com práticas ilegais), mesmo aqueles cujas pautas me parecem erradas ou meio exageradas. Do mesmo modo, as empresas envolvidas tinham pleno direito de financiar as obras polêmicas e também pleno direito de retirá-las de cartaz quando acharam que seriam prejudicadas.

Terceiro, e mais importante: ter o direito de manifestar-se não torna a manifestação boa, justa e tolerante. É intolerância SIM querer barrar uma exposição ou um artista (mesmo que porcaria) só porque alguém discorda dela e ficou ofendido, como aconteceu nos casos mencionados acima. Mas acho importante lembrar que, no caso Santander pelo menos, havia mais fatores além da rejeição moral ao conteúdo e da rejeição estética da forma: o evento foi feito com dinheiro público (renúncia fiscal via lei Rouanet) e não tinha classificação etária, tendo sido inclusive recebido visitas de grupos de alunos de escolas de Porto Alegre. Ainda que se queira plena liberdade para exposição artística, não é razoável querer que o cidadão financie tudo isso calado e para todos os públicos.

E por fim quarto, só para não perder o costume: tem certeza que você quer um país em que tudo se dobra à vontade popular, amiguinho? Lembre-se que as idéias da massa não costumam coincidir com os ideais mais progressistas e tolerantes. A rejeição ao Queermuseu não foi ação de meia dúzia do MBL (ao contrário do que estão dizendo), foi um evento com adesão popular maior do que todos os outros protestos mencionados neste texto. Você quer mesmo que o país se torne um campo de batalha em que você tenha que medir forças com essa gente?

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