Contra a tentativa de censura de um artigo pró-colonialismo

Há alguns dias, a ANPUH (Associação Nacional de História)* encontrou um artigo de um certo Bruce Gilley publicado na Third World Quarterly, uma revista científica da área de Estudos Internacionais (link original aqui). O artigo (intitulado The Case for Colonialism) defendia que o legado do colonialismo europeu não havia sido de todo ruim, nem de todo ilegítimo, que a ideologia anti-colonial havia causado danos terríveis a alguns dos países, e que alguns dos Estados mais frágeis se beneficiariam de um retorno da agenda colonial.

Polêmico, sem dúvida. Mas historiador não pode ter medo de polêmica, certo? Boa parte do trabalho da profissão envolve discussões sujeitas a objeções de todo tipo.

A resposta da ANPUH consistiu em lançar uma nota convocando seus seguidores no Facebook a assinar uma petição para a “retirada imediata” do artigo. Reproduzo-a abaixo na íntegra com alguns trechos em destaque:

Tempos sombrios…

A ANPUH vem encorajar todas e todos a assinar uma petição para retirada imediata do artigo recém-publicado na Revista Third World Quarterly – publicação do Taylor & Francis Group – em defesa, acreditem ou não, do colonialismo.

Como muito bem apontado pela Dr. Farhana Sultana professora associada da Syracuse University, o texto é ultrajante, imoral, negacionista, distorce fatos históricos, promove um discurso de ódio, dissemina a ideia da supremacia branca e europeia, além de sugerir uma agenda para uma suposta “recolonização”, desrespeitando a memória de todos os seres humanos que sofreram nos países ocupados.

Nota importante: não baixem o texto pelo site da revista, não citem ele em seus trabalhos, para não impulsionar suas métricas. Ele pode ser lido no Post original da Prof.ª Sultana aqui:

https://www.facebook.com/farhanasul…/posts/10101130697230492

Assine o manifesto aqui:
https://www.change.org/p/editors-of-the-third-world-quarter…

#colonialism #supremacy #racism #brutality #YesYoureRacist #ThirdWorld #TWQ #TaylorandFrancis

Sabem, é por causa deste tipo de coisa que ninguém leva os historiadores muito a sério. A Associação Nacional de História tropeçou em um artigo defendendo o colonialismo em uma revista científica de pouco impacto, e o que faz? Lança uma nota pedindo a destruição do artigo, e fazendo a recomendação mesquinha de que ninguém cite o artigo para não impulsionar as métricas (aparentemente, preocupar-se com as métricas é mais importante do que suscitar discussão!). Segundo a associação, isso se justificaria porque além de distorcer os fatos históricos, o artigo seria “ultrajante”, “imoral”, e “desrespeitoso” – do que conclui-se que para a ANPUH, é justo censurar um artigo por ferir a moral e a honra. Ultrajante, imoral, desrespeitoso, e portanto censurável… os caras já nem conseguem disfarçar. Um cientista ou um filósofo não empregaria essas palavras carregadas de moralismo ao rejeitar uma tese; e um historiador também não deveria. Esses são os termos que um fanático religioso usaria para tentar desqualificar quem discordou dele.

Certo ou errado, justo ou exagerado, o consenso moderno entre os historiadores é de que o colonialismo foi péssimo para as regiões colonizadas; nada mais esperado, portanto, do que ver uma associação de historiadores rejeitar um artigo que sugira o contrário. Mas por que não refutar o artigo em vez de tentar eliminá-lo? É uma associação de historiadores, afinal. Se os argumentos do Sr. Gilley são tão ruins assim, deveria ser fácil reunir alguns dos membros mais qualificados em história colonial para escrever um artigo contrário. Aliás, deveria ser o primeiro pensamento do grupo: combate-se discussão acadêmica errônea com discussão acadêmica correta, não com petições. Que tipo de historiadores são esses, que tendo tamanha oportunidade de flexionarem os músculos intelectuais contra um alvo tão fácil, preferem fugir da luta e obrigar que retirem o adversário do ringue? Se o erro existe e é tão grosseiro, por que não refutar, por que não mostrar onde o erro está? Que professores, educadores, e pesquisadores são esses que, confrontados com um (um!) artigo que os contradiz entre centenas que lhes são favoráveis, optam por excluir aquele único divergente sob alegações de afronta à moral? Que tem a moral a ver com verdade histórica?

Só dá para concluir que essa gente não é séria. Nem eles se levam a sério, na verdade: tendo a oportunidade de discutir e atacar as idéias do artigo como historiadores, preferiram agir como moleques de DCE que assinam petições para tentar ganhar no grito. Ou como religiosos fanáticos para quem qualquer divergência é afronta e merece paulada.

 

 

*Previamente, Associação Nacional dos Professores Universitários de História – vem daí a sigla.

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