O nazismo era nazista

O incidente de Charlottesville trouxe-nos um dos espetáculos do infinito dia da marmota que é a internet: a discussão de se o nazismo seria de esquerda ou de direita. É sempre a mesma coisa, sempre prossegue da mesma maneira estúpida e desonesta, sempre termina sem terminar; desta vez não vai ser diferente. Mas cabe responder à pergunta mesmo assim: afinal, era de esquerda ou de direita?

Resposta curta e rápida: nazismo não era de direita nem de esquerda, e quem o classifica como extrema-direita ou extrema esquerda não sabe o que diz1. O nazismo era nazista, porque a parte mais relevante de sua ideologia – aquela que melhor explica suas as ações – era totalmente sui generis.

Classificar o nazismo no eixo direita-esquerda é mais complicado e mais propenso a distorções do que parece à primeira vista, uma vez que os termos “esquerda” e “direita” têm mais de uma definição honesta possível, além da miríade de definições desonestas que invariavelmente são usadas em todas as polêmicas.

A começar, a definição pode ser feita a partir de princípios (“é esquerda quem defende X”) ou a partir de afiliação (“é esquerda quem se diz de esquerda e como tal é reconhecido”). Ambas as definições têm argumentos que as recomendam, mas dão resultados diferentes na hora de classificar os movimentos políticos. Só isso já basta para gerar divergências2.

O problema continua quando se observa que as posições defendidas por direita e esquerda não se mantêm constantes ao longo do tempo3; que a maioria das posições políticas possíveis não é intrinsecamente de esquerda nem de direita4; e que pautas que nascem em um lado do espectro político podem vir a ser defendidas pelo outro conforme o tempo passa5. Isso ocorre porque a definição mais correta e coerente possível de esquerda e direita não nos diz nada sobre que bandeiras cada uma defende, mas sim sobre o método de escolher as bandeiras: direita é conservadorismo, esquerda é progressismo. Grosso modo, a direita quer preservar as instituições de 100 anos atrás e destruir as de 20 anos atrás; a esquerda quer o contrário. Ao procurar substitutos para o que cada uma quer destruir, a direita olha para o (suposto) passado, e a esquerda para o (imaginado) futuro. Notem que essa definição praticamente implica em as pautas mudarem de lado com o passar do tempo, como de fato vemos acontecer6.

Por conta disso, uma posição defendida pela esquerda de 1917 pode ser defendida pela direita de 2017; e como a discussão está acontecendo em 2017 mas se refere a fatos antigos, é possível justificar que se chame de “esquerda” tanto uma pauta que era esquerdosa antigamente e hoje não é mais, quanto uma pauta que hoje é de esquerda mas na época era conservadora. Muitos textos sobre o nazismo recorrem a essa ambiguidade para forçar o encaixe do partido na direita ou na esquerda.

(Há também o problema de decidir quais, dentre as muitas bandeiras que cada lado da guerra política levanta, são as bandeiras mais relevantes e definidoras de cada lado. Um critério muito amplo ou muito rígido, como freqüentemente se usa em debates sobre o nazismo, gera resultados estranhos se aplicado consistentemente. Se comunismo é a bandeira que definia a esquerda7, então toda a social democracia teria que ser chamada de direitista. Se nacionalismo define a direita, então Mao tem que ser chamado de direitista)

Some-se a isso o hábito dos fanáticos de cada um dos lados atribuírem todos os males do mundo ao outro lado, e tem-se a receita para um debate pseudointelectual 100% descompromissado com informar o público. Assim, somos informados de que o nazismo era de direita por ser autoritário (Stálin, alguém lembra?), por ser antissemita (Marx?), por ser nacionalista (Mao?), por se favorável à propriedade privada (Lula?), e por ser militarista (Maduro?); nenhuma dessas características é exclusiva da direita, porém. Outros nos dizem que o nazismo era de esquerda por querer um Estado inchado (Franco?), ser uma ditadura (Médici?), e controlar a imprensa (todas as anteriores). Nenhuma dessas características é exclusiva de direita ou esquerda, mas não faltam textos que tentem avançar essas teses.

No caso específico do nazismo, ainda há dois fatores complicadores8: o programa nazista mudava mais do que as fases da Lua, e os nazistas eram notórios manipuladores e mentirosos9. Uma posição defendida em 1925 podia ser revertida em 1930, voltar em 1933, ser publicamente condenada em 1938, e aparecer novamente em memorandos internos de 1944. Não é por acaso que os historiadores concordam bastante quantos aos fatos materiais sobre o nazismo, mas discordam muito quanto a motivos, idéias, e planos.

Como concluir qualquer coisa no meio desta confusão?

Vamos por partes: analisando o nazismo a partir de sua atuação política de fato, a situação é bem complicada. Os nazistas mantinham uma plataforma socialista e populista (ver abaixo), mas sempre fizeram questão de atacar os comunistas e fazer de tudo para retirá-los da política alemã (embora as relações exteriores com a Rússia tenham sido menos maniqueístas), o que lhes rendeu a simpatia e a aliança de muitos conservadores (exceto, notoriamente, os ligados a partidos religiosos); alguns consideram isso evidência de que, na prática pelo menos, o nazismo foi de direita – mas não faz sentido. Briga interna, perseguições entre facções de esquerda, e alianças estranhas não são nenhuma novidade, e não bastam para desqualificar a inclinação de esquerda do partido. Ao mesmo tempo em que atacava sem piedade o comunismo, o nazismo se apresentava como uma variante mais aceitável e correta do socialismo. E é importante lembrar que os ataques virulentos ao comunismo não impediam os nazistas de atacarem (com menos violência, claro) as demais correntes da política alemã. Capitalistas, tradicionalistas, religiosos, todos que não fossem nazistas estavam sujeitos aos seus ataques.

A relação do nazismo com a esquerda fica mais interessante se formos analisá-lo a partir de seus princípios; é difícil negar que, no espectro esquerda-direita, o nazismo começou pendendo para a esquerda, por mais que rejeitasse o marxismo. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães começou atacando a burguesia, o capitalismo, as grandes empresas, e o rentismo, e defendendo a socialização dos lucros das empresas com os empregados, o Estado de bem estar social, a nacionalização de indústrias estratégicas e a reforma agrária – pautas mantidas pela esquerda nos últimos 200 anos. Está tudo lá nos 25 pontos de 1920. O partido também foi contrário à restauração da monarquia alemã e à influência religiosa sobre o governo (notoriamente a da Igreja Católica, cujo partido centrista competia com os nazistas por votos na parte católica da Alemanha).

O programa nazista original era basicamente um programa de esquerda – exceto que nele também se encontra uma forte insistência no nacionalismo, que (na época, como hoje) era visto como no mínimo secundário pela esquerda (e ativamente desprezado pelos setores marxistas), e que desde o começo abunda a rejeição ao comunismo nos escritos dos membros do partido – numa época em que o comunismo era mais ou menos apoiado por toda a esquerda. Apesar disso, a passagem do tempo inegavelmente distanciou o partido das promessas mais esquerdosas e aumentou o foco nos elementos militaristas e peculiares do nazismo (especialmente depois da Röhm Putsch), de modo que o caráter esquerdista do programa acabou tendo pouca influência no regime de fato. O nazismo deslocou-se em direção ao centro conforme ganhou mais poder, e estacionou em algum lugar entre o centro e a centro-direita. Virou uma ditadura oligárquica comum, com os membros do partido formando a nova elite. Esta não é uma trajetória incomum; o Partido Comunista Chinês e o governo comunista da Coréia do Norte passaram pelo mesmo processo em tempos recentes – este último basicamente converteu-se em uma monarquia hereditária absoluta.

Ocorre que toda a discussão sobre o nazismo ser de esquerda e direita é de pouca importância para entender o nazismo, porque a parte mais relevante de sua ideologia era sui generis. Aliás, essa discussão é danosa ao debate, pois faz parecer que o grande problema do nazismo seriam seus elementos esquerdistas ou direitistas, quando não são: o elemento apomórfico é responsável por 90% da ruindade do regime. Não foi por ter sido autoritário ou anticomunista ou anticapitalista que o nazismo foi terrível – isso explica os horrores de Stalin ou de Leopoldo II, mas não os de Hitler: este foi o que foi por fazer da crença na pureza racial alemã e na necessidade de mantê-la a qualquer custo uma política de Estado. Foi daí que adveio a barbárie. Foi o antissemitismo nazista que matou milhões de judeus, não seu anticomunismo ou anticapitalismo. Foi a crença no Lebensraum que os levou a massacrar a Polônia. E esta parte da ideologia não é de esquerda nem de direita, mas sim uma síntese de elementos antigos e ciência de época feita unicamente pelos nazistas, e por mais ninguém.

Reparem: o nazismo não foi o único regime fascista que existiu, mas foi o mais assustador, o mais terrível, e o mais odioso. Mussolini, Franco, Salazar, e Getúlio eram fascistas, e não foram nem de longe tão ruins quanto Hitler. Por quê? Porque a parte nacionalista e militarista da ideologia deles não se baseava fortemente em idéias raciais, mas sim no conjunto mais regular de identidade nacional (língua, história, cultura, religião, etc.); e a parte coletivista da ideologia coletivista deles não incluía sacrificar o povo numa guerra racial total. Sem o ângulo racial, Hitler teria sido como eles: um desastre para a Alemanha, mas não uma tragédia para o mundo.

É por isso que eu digo que a discussão sobre esquerda e direita é irrelevante para entender o nazismo, que saber se o nazismo era um ou outro é irrelevante para entender esquerda e direita, e que o nazismo era, antes de tudo, nazista: as idéias que tornaram o nazismo tão letal e tão odioso não vieram de nenhum dos lados, não podem ser derivadas das crenças de nenhum dos lados, e foram gestadas politicamente somente dentro do partido nazista. Perguntar se eles seriam de esquerda ou de direita faz tanto sentido quanto perguntar se César era de esquerda quando derrotou os gauleses ou se Tamerlão era de direita quando conquistou a Ásia central.

Resumindo: o nazismo era de esquerda ou direita?

1. O nazismo começou com mais elementos de esquerda do que de direita, e gradualmente moveu-se em direção ao centro do espectro político conforme ganhava mais poder.

2. Os elementos de esquerda e de direita explicam muito pouco do fenômeno que foi o nazismo (uns 10%, estimo), e portanto discutir sobre esquerda e direita no nazismo é discutir sobre trivialidades enquanto se ignora um tema maior.

3. A maior parte das ações dos nazistas são explicadas pela parte mais peculiar e única de sua ideologia – a crença em pureza racial, em um Lebensraum, e o antissemitismo exacerbado – algo que transcende a divisão direita-esquerda, e é uma mistura de elementos antigos reinterpretados à luz de ciência duvidosa e filosofia moderna.

Termino aqui. Agora guardem este texto para quando, daqui a uma ano, voltarmos a ter essa discussão inútil quando um neonazista disser que apoia o Bolsonaro ou quando uma suástica convenientemente aparecer desenhada em algum banheiro de universidade federal.


Notas:

1 “extrema direita” ou “extrema esquerda” implica uma adesão total à ortodoxia de um dos dois lados – ou pelo menos que o partido proclame e acredite que está aderindo aos extremos “verdadeiros” da esquerda ou da direita. Partidos cuja ideologia não pode ser mapeada totalmente em um dos lados e/ou que não clamam representar a verdadeira forma de um dos lados da disputa não podem ser “extremos” do espectro político. O nazismo, como o resto deste texto argumenta, não possui idéias de somente um lado do espectro político e nunca, até onde sei, clamou ser 100% de esquerda ou de direita.

2 para um exemplo dos vários problemas que o uso de definições diferentes acarreta, vide a discussão entre pseudoerasmus e Jonah Goldberg. O problema de jogar o fascismo italiano e o nazismo no mesmo balaio também é bastante proeminente no debate. Reparem os textos são de 2015; o assunto vem e volta todo ano.

3 por exemplo, o mainstream da esquerda já aprovou a ditadura do proletariado, mas hoje o rejeita. O mainstream de direita já foi decididamente contra o liberalismo econômico, mas hoje o aceita sem muitas restrições.

4 por exemplo, a ética da não violência, a preferência pela democracia, a defesa da responsabilidade fiscal, a importância do comércio internacional – assuntos politicamente relevantes que não se encaixam na dicotomia esquerda-direita.

5 por exemplo, aposentadoria. Começou como parte do Estado de bem estar social defendido pela esquerda, mas hoje foi perfeitamente incorporado à direita mainstream.

6 um exemplo real (se bem que polêmico) disso é a defesa moderna da eugenia e da ciência da classificação racial, que começou entre os progressistas do início do século XX (acreditem se quiserem) e hoje só subsiste em uma parcela pequena dos reacionários.

7 como diz nas entrelinhas o péssimo texto do Michel Gherman no Estadão, que para a tristeza de quem tem cérebro está entre os mais lidos desta semana. Gherman escreve um texto sobre a ideologia nazista sem citar os pontos do programa nazista, muitos dos quais eram escandalosamente de esquerda, e tenta igualar “esquerda” com “marxismo ortodoxo”. Após “””provar””” que o nazismo não pode ser de esquerda porque odiava o marxismo e os judeus, Gherman salta sobre a lógica para concluir que o nazismo era de extrema-direita, sem nem tentar argumentar. Ler isso aí vindo do coordenador do Centro de Estudos Judaicos da UFRJ é desalentador. Flávio Morgenstern lhe  deu uma resposta apropriada.

8 na verdade, há um terceiro fator complicador, que é a atitude do pós-guerra. A derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial é praticamente o mito de criação da sociedade ocidental contemporânea, e Hitler é um daqueles poucos personagens que se convencionou ser dever cívico odiar – aliás, não só odiar, mas demonstrar o ódio sempre que possível, sob pena de alguns olhares esquisitos. Neste contexto, é previsível que quem queira provocar desprezo a um adversário acuse-o de compactuar, ou de ter qualquer coisa em comum, com os nazistas (ver reductio ad hitlerum e Lei de Godwin). E como o tema é quente e dominado pelo moralismo, encontra-se historiadores e pundits de todos os lados com os argumentos mais distorcidos possíveis para tentar “provar” que o nazismo era exatamente igual a [insira grupo de que você não gosta aqui] e quem discordar é Literalmente Hitley.

9 como exemplo do nível de quão longe a manipulação chegava no tempo dos nazistas, olhem esse trecho sobre o assassinato de Moritz Schlick por Johann Nelböck em 1936. Nelböck era mentalmente perturbado, e alegou ter cometido o crime porque a filosofia anti-metafísica de Schlick teria perturbado seu senso de autocontenção (ou talvez por questões de amor). O evento foi cooptado pelos nazistas para atacar os judeus, embora nenhum dos dois envolvidos fosse judeu e o crime não tivesse qualquer relação com política! A “pós-verdade” de hoje não é nada por comparação.

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Direitos humanos para humanos direitos, versão de esquerda

Resumo da notícia: um neonazista e sete punks brigaram em Osasco, e o neonazista saiu morto. A história em si não é nem incomum, nem surpreendente; brigas de gangues são parte da nossa paisagem urbana há décadas, por mais triste que seja admitir. A maior parte desse tipo de ocorrência nem chega a virar notícia, e o que vira tende a se resumir a uma ou duas linhas rapidamente esquecidas.

Mas o que importa para este post não é o acontecimento em si, e sim sua repercussão; em especial o que foi levantado neste texto do Guilherme Assis no Facebook: desde o momento em que o caso entrou em discussão na Internet (inicialmente, por causa de dúvidas quanto a se o morto era mesmo neonazista), os comentários foram dominados por pessoas comemorando a morte do vagabundo sujeito e aplaudindo os sete outros vagabundos punks por seu feito. De novo, nada muito surpreendente; boa parte da população não vê nada de errado em matar criminosos das mais variadas estirpes por crimes de todo tipo.

Exceto que, como Guilherme Assis apontou, boa parte dos comentaristas eram pessoas de esquerda que supostamente defendem os Direitos Humanos e criticam quem diz que bandido bom é bandido morto. São pessoas que condenam linchamentos e acham Bolsonaro monstruoso por querer matar e/ou castrar assassinos e estupradores, mas que (como vimos) não veem nenhum problema em defender exatamente a mesma coisa em um contexto um pouco diferente.

Quem quiser uma demonstração de o quão parecido é o discurso desses bravos antinazistas com o dos bolsominions só precisa passear pelos mais de 1800 comentários da postagem; uns 90% dos leitores não entenderam sequer o começo do texto (nada surpreendente também – ai, ai…) e uma enxurrada de gente de esquerda fez questão de confirmar que Guilherme Assis não tinha atacado um espantalho. Um amostra das interações na thread:

Nazista nem é gente! Defensor de nazista tb não!

(“Bandido nem é gente! Defensor de bandido tb não!”)

Guilhermino açaí passando pano pra nazi, é isso mesmo o que eu li???

(sempre tem alguém que acha que qualquer defesa da pessoa é igual a apoio incondicional. Vários alguéns, no caso)

Violência gratuita não se combate com flores! Mata mais que tá pouco.”

(no caso, a violência gratuita foi dos 7 punks contra o neonazista, mas enfim)

Um nazista não é igual a qualquer bandido, mto menos igual a qualquer ser humano.

(variante exculpatória dos anteriores)

ESPANCOU E MATOU FOI POCO. pega o nazi e da colinho, arrombado, deficiente cognitivo.

(variante menos educada das anteriores)

Nazista não é gente, leva seu sentimentalismo pra puta que pariu.

(clássico: igualar defesa dos Direitos Humanos com sentimentalismo. Às vezes é verdade, admito)

Quem se envolve com gangs de rua tem que ser consciente do que está fazendo. Tá na chuva é pra se molhar.

(outro clássico: ele mereceu, afinal foi se envolver com bandidagem)

O discurso [de direitos humanos] vale pra todo mundo, menos pra neonazista. O julgamento do neonazista é a suastica tatuada, não tem neonazista pacifico

(ou seja, Direitos Humanos para humanos direitos)

Ah tem dó… Se era nazista ja foi tarde. Ta com pena leva pra casa. “Desumanizar vítimas de violência” vou ter q rir kkkk Nazista não é humano. Tem mais é q morrer msm

(é o bordão do Datena: tá com dó, leva pra casa)

Que militudo. Matar nazista nem é crime, é dever humanitário.

(o lema de todo justiceiro: matar bandido é um dever para o bem da sociedade)

MAS ELE ERA NAZISTA CARALHO, SER NAZISTA NÃO É COMO SER ALGO OK
TU JA OUVIU FALAR EM HOLOCAUSTO? ONDE PESSOAS ERAM MORTAS EM CÂMARAS DE GÁS OU DE FOME? EM ACREDITAR EM UMA SUPERIORIDADE GENÉTICA?

(isso foi em resposta a um comentário de um judeu que criticou o assassinato do neonazista, só para constar)

Você quer combater nazismo como? Com sarau na faculdade? Com bundaço? Beijaço? Trocando ideia? Acorda pra vida, mongoloide

(mais um clássico aqui: o cara durão que acha que qualquer coisa que não seja porrada é utopia)

Tu muda de opinião quando um parente teu é homossexual ou nordestino e sofrer um ataque dessa raça

(quarto clássico, aquele que não podia faltar: “queria ver se acontecesse com você”)

“Deixa uns desses te pegarem numa rua escura pra ver se vão respeitar sua humanidade. Não morreu por pensar diferente, sim por ser NAZISTA!

(semelhante ao acima, mas com uma pérola no final)

Nazista nao é gente nao compare um bandido com algo q nao é nem humano todo nazista tem q ser MORTO a qualquer oportunidade e ponto defender qq coisa diferente disso isso sim poe em risco vida de muitos companheiros de esquerda

(repare no “ser morto a qualquer oportunidade”)

“Você fala isso só porque é branco e provavelmente de classe média e hetero. Se fosse negro ou gay, teria mais amor próprio e comemoraria a morte de todo facho.

(Argumentum ad loco locutionis, não pode faltar em debate de esquerda)

O crime de agressão literal não é espontâneo e sádico, o crime ideológico é muito mais grave. Quando um crime desses é espontâneo e sádico o meliante é punido e internado por ser um psicopata, agora neonazismo não é psicopatia.

(uma tentativa muito confusa de explicar porque não pode linchar agressores comuns mas pode matar nazistas)

pq realmente, um tatuador classe média morto por carregar ideais assassinos é exatamente a mesma coisa que quando a policia fuzila um moleque preto de 14 anos na favela e depois planta um revolver na mão dele

(mais um que tenta se explicar e acaba revelando que não leu o texto e não entendeu NADA da comparação)

Imagina se o esforço pra defender nazistinha fosse feito pra defender os sofredores do Brasil

(“imagine se o esforço para defender bandido fosse feito para proteger os cidadãos de bem”)

Matar anarquista pode mas nazi não?

(espantalho; o texto não defendia que se pudesse matar ninguém)

Quod erat demonstrandum, boa parte da esquerda mais fanática tem comportamento idêntico ao da direita mais selvagem. Critiquem o quanto quiserem, a Teoria da Ferradura é real. Um monte de gente que se horroriza com o bordão “Direitos Humanos para humanos direitos” acaba aderindo a esse pensamento no momento em que encontra um criminoso horrível o suficiente para suas sensibilidades morais – o que nos leva a questionar o quanto essas pessoas realmente acreditam na existência de Direitos Humanos Universais.

Qual é o ponto?

O ponto é que Direitos Humanos Universais só são Direitos Humanos Universais se valerem para todos os seres humanos, independente de quaisquer outras características individuais. São direitos considerados intrínsecos aos membros da nossa espécie, que devem ser preservados ao grau máximo que for possível em cada contexto. São direitos de que gozam os bons e os maus, os bonitos e os feios, os de que nós gostamos e os que nós odiamos. Toda a defesa dos Direitos Humanos começa por reconhecer que até os mais desprezíveis de nós devem ser tratados com um mínimo de dignidade e proteção.

Há muito espaço para controvérsias intelectuais sobre quais direitos devem cair sob a categoria de Direitos Humanos Universais, ou mesmo se deve existir um grupo de direitos assim. SIM, QUESTIONAR OS DIREITOS HUMANOS É INTELECTUALMENTE VÁLIDO. Mas qualquer que seja a sua posição sobre este assunto, ela deve envolver o uso de critérios consistentes para decidir quem merece a proteção dos direitos; não pode ser só uma coleção de arbitrariedades que magicamente coloca as pessoas (que você acha) odiosas fora da proteção da lei.

No caso em discussão, o texto comparava quem defendia a morte do neonazista com quem defende a execução de bandidos comuns; há quatro posições que podem ser defendidas intelectualmente quanto a isso – qual a mais defensável, qual a mais moral, cada um defina por si; mas que se diga explicitamente quais são elas e quais são suas conseqüências:

  1. Negar o direito de matar tanto o bandido quanto o neonazista, pois a vida é um direito humano que deve ser respeitado em todos os seres humanos.
  2. Aceitar o direito de poder matar neonazistas e bandidos. Neste caso, é preciso um critério que justifique matar ambos – talvez a comissão de crimes violentos no passado?
  3. Aceitar o direito de matar bandidos comuns, mas não neonazistas. Sob qual critério, não sei…
  4. Aceitar o direito de matar neonazistas, mas não bandidos comuns. O pessoal dos comentários do post do Guilherme Assis tentou elaborar alguma coisa nesse sentido, mas a maior parte passava por dizer que o bandido comum era [sempre] um sujeito sem oportunidades e/ou que o nazista era irrecuperável (esta última soa familiar?). Nenhuma das duas afirmativas é verdadeira, porém, e por isso nenhuma justifica a decisão de matar um e preservar o outro.

Notem que, das quatro posições possíveis, somente a posição 1 aceita a existência de um direito humano à preservação da vida; todos os outros três precisam admitir que a vida de alguns humanos vale menos, moralmente, do que a de outros, e pode lhes ser retirada sem culpa. Quem se declara a favor dos Direitos Humanos – como boa a parte da esquerda – tem que preferir a posição 1, ou então é um hipócrita.

O que implica em dizer: se você defende que se possa matar neonazistas sem ser em autodefesa – simplesmente por eles serem desprezíveis e potencialmente perigosos – admita que você não defende os Direitos Humanos, pare de falar como se os direitos humanos fossem sagrados para você, e pare de se escandalizar com os outros negadores dos Direitos Humanos que usam critérios diferentes de você para decidir quem se pode matar. Sua divergência com eles é apenas nos critérios, não na estrutura de pensamento.

Por fim: qualquer posição que se adote neste debate traz algumas conseqüências desconfortáveis, mas… isso é inevitável. Defender os Direitos Humanos é desconfortável. Aceitar a existência de um direito a vida implica em defender algumas criaturas abomináveis e imerecedoras de compaixão, como um assassino neonazista ou o Champinha, da compreensível fúria popular. É perfeitamente válido que alguém se revolte com essa perspectiva e queira negar que se conceda direitos incondicionais aos humanos, visto que entre nós caminham alguns monstros. Por isso eu não saio chamando os que são contra os Direitos Humanos de primitivos e impiedosos, e por isso eu não saio todo orgulhoso de defender esses direitos como se eles só trouxessem conseqüências inequivocamente boas.

Este texto não é só uma denúncia da hipocrisia de alguns militantes internéticos dos Direitos Humanos; na verdade, é mais um alerta para o quão mal pensadas são as posições ideológicas dessas pessoas. Nos comentários que tentaram elaborar uma justificativa para poder matar neonazistas e não bandidos, a confusão de conceitos, a prosa truncada e a incapacidade de responder a questionamentos diretos deixavam bem claro que a pessoa NUNCA havia parado para pensar no assunto antes. O pessoal defendia os DH sem ter se dado conta de que eles valem também para neonazistas é como se achassem que esses direitos só protegeriam os bandidos sanitizados que aparecem na cartilha ideológica.

Não é uma discussão por nada: palavras são importantes, conceitos claros são importantes, e denunciar o uso errado dos termos é necessário. Isto tem que ficar bem claro se quisermos tirar o país deste atoleiro intelectual.

Resumo: Against murderism

Scott Alexander é o melhor blogueiro da Anglosfera, e este é provavelmente o melhor texto sobre racismo/intolerância escrito em 2017. Recomendo lerem o texto inteiro; é difícil resumir em poucas linhas tantos argumentos importantes e com o quais eu concordo tão fortemente, mas vou tentar:

1. A definição mais consistente de racismo é aquela feita a partir dos (supostos) motivos das ações dos indivíduos: uma pessoa é racista quando odeia irracionalmente um determinado grupo étnico e tem intenção de lhes causar danos; um ato de racismo é um ato motivado por essa malevolência contra um determinado grupo. Mas essa não é a única definição de racismo em circulação.

2. Todo o discurso atual em torno da palavra racismo é uma mistura irresponsável de (pelo menos) três conceitos distintos; dois são meio inconsistentes, e geralmente são mencionados quando o conceito mais coerente não permite xingar os adversários de racistas.

3. Justamente por causa da confusão de conceitos, o termo “racismo” cresceu tanto em abrangência que passou a abrigar coisas muito díspares. Pessoas movidas por sentimentos os mais distintos e ações com as conseqüências mais diversas passaram a ser cobertas por uma definição de racismo amplíssima e cambiável.

4. Justamente por “racismo” ter-se tornado um conceito amplo e incoerente demais, as discussões atuais sobre racismo não são apenas pouco informativas, mas ativamente desinformativas e danosas ao debate de idéias (e mesmo ao combate ao racismo). O conceito amplo e incoerente de racismo estimulou seus ideólogos a explicarem qualquer coisa em termos de racismo, enquanto se recusavam a explorar explicações alternativas mais parcimoniosas.

5. A luta contra o racismo, em parte por se usar o termo tão mal, acabou se tornando parte de uma estrutura moralista para separar a tribo dos Bons da tribo dos Maus, sem qualquer espaço para nuance, gradação, ou generosidade de interpretação. Acusações de suposto racismo (que de tão mal definido, pode-se encontrar em qualquer coisa) tornaram-se uma desculpa para não ter que lidar com argumentos contrários em assuntos sensíveis e polêmicos – imigração, globalização, e welfare são alguns exemplos. Nos piores momentos, acusações de racismo se tornaram uma tentativa de desumanizar os adversários e incitar perseguição política.

Que esse texto seja polêmico já basta para indicar o triste estado em que se encontra o debate intelectual de hoje. Deveria ser simples compreender que, para se ter uma discussão frutífera, é preciso começar por definir bem os termos da discussão. Sem boas definições, não há como produzir nada que não seja confusão, moralismo irracional, e injustiça. Já faz mais de 2500 anos que se sabe disso…

Deveria também estar claro, para todos os que discutem essas coisas, que é preciso discuti-las de verdade: é preciso realmente ouvir o que os outros têm a dizer, mesmo que as opiniões deles pareçam desprezíveis dentro do seu sistema moral. Mesmo que os outros pareçam errados, mesmo que pareçam malignos, mesmo que pareçam ignorantes, não se discute nada quando sequer se considera a possibilidade de os adversários terem razão. E certamente, não se faz nenhuma discussão relevante com gritos de RACISTA! RACISTA!!1!! QUEIMEM A BRUXA!!

O texto usa “racismo” como modelo de discussão, mas naturalmente o argumento não se restringe a este assunto. Quase todos os Assuntos Importantes Sobre Os Quais Precisamos Falar sofrem do mesmíssimo mal: definições incoerentes e amplas, e moralismo rampante. Essa praga atingiu termos como fascismo, preconceito, feminismo, direitos, xenofobia, abuso, conservadorismo, meritocracia, ódio, – enfim, muitas das coisas que fazem parte da dimensão ideológica da política. Tal confusão não ocorre sem ter conseqüências práticas: à medida em que os conceitos se ampliam e se erodem, a comunicação entre os indivíduos vai se tornando mais difícil e frustrante; os adversários começam a parecer cada vez mais incompreensíveis, e eventualmente já nem parecem mais tão humanos quanto o ingroup. O resultado final disso – e Scott Alexander aponta muito bem – é a guerra civil. Sim, é esse o resultado.

Querem uma boa razão para se opor a esses delírios coletivos? Aí está.

Sobre os críticos que não distinguem as coisas

[Esse texto pode ser interpretado como uma versão TL;DR do post anterior]

A micropolêmica mais engraçada da última semana foi a que provocou o adiamento do Festival de Cinema de Pernambuco (CinePE).

Resumidamente, sete dos 28 diretores participantes resolveram retirar seus filmes da mostra em protesto ao que chamaram de “politização inédita” (HuEeE!) do festival – a exibição de dois filmes da “direita extremista”. Um deles era um documentário sobre Olavo de Carvalho, e o outro um documentário sobre o Plano Real. A confusão garantiu boa divulgação na imprensa a todos os envolvidos, mas os organizadores acharam melhor suspender a programação até a poeira baixar.

Vou ser direto: alguém que acha que um adversário político não é digno nem de subir no mesmo tablado é um intolerante. Ninguém precisa (nem deve) sair abraçando e elogiando os adversários que despreza e acha perigosos (né, Carina Vitral?), mas daí para achar imoral que o adversário se manifeste há uma longa distância. Toda a divergência ideológica que porventura haja entre os tais cineastas é só isso mesmo: divergência – uma discordância não violenta, não pessoal, e perfeitamente aceitável em uma sociedade minimamente livre. Alguém que se ofenda porque DOIS FILMES ENTRE VINTE E OITO são “de direita” e ache isso absurdo é um intolerante. Alguém que ache que um documentário sobre o Plano Real é “de direita”, ou que já tenha decidido que o documentário sobre o Olavo é necessariamente propaganda ideológica – SEM NEM TER VISTO O FILME! – é um intolerante. Alguém que só se incomoda com a politização da arte quando é o adversário que a politiza é um intolerante.

Que importância tem esse acontecimento? Por si só, nenhuma. Esse pessoal não tem um centésimo da importância que se arroga. Mas é interessante ler essas coisas para ver o grau de solipsismo e desconexão com a vida real que atingiu as nossas classes bem-pensantes. Lendo o manifesto, você fica com a impressão de que Heitor e Enéias estão enfrentando uma invasão nazista – quando só o que aconteceu foi sete birrentos fazerem birra.

Ainda mais ridículo do que ver esse pessoal tão desimportante reclamando e dando a si mesmos ares de grandeza e coragem foi o follow-up: um grupo de 34 “críticas e críticos de cinema” (só pela escolha das palavras já dá para saber em quem eles votaram nas últimas 5 eleições…), encabeçados aparentemente pelo Pablo Villaça, resolveu manifestar seu apoio aos bravos guerreiros cinematográficos. O manifesto dos 34 é tão cheio de autoilusão de grandeza e chavões mal explicados que é até difícil de criticar linha por linha – não sobraria uma sem contestação. Mas ali no meio, há uma frase muito interessante que resume muito bem a natureza da patologia de pensamento da turma:

“Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem”

Respire fundo, leia de novo:

“Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem”

Eis a raiz do mal. OS CARAS NÃO CONSEGUEM DIFERENCIAR AS COISAS. Vida e cinema, realidade e ficção, público e privado, evidência e opinião, pessoa e obra; é tudo a mesma coisa para os nossos amiguinhos. É por não saber dissociar coisas perfeitamente dissociáveis, é por não saber separar a realidade da interpretação torta da realidade, que essa gente é tão fanática, tão ridícula, e tão perigosa – se tiverem algum poder real, claro. Eles falando sobre cinema no máximo nos custam alguns milhões por ano…

Essa é a doença da mente dos nossos autointitulados intelectuais. O Plano Real foi feito por FHC, que hoje é considerado inimigo da esquerda. Como nada se distingue, logicamente um filme sobre o Plano Real tem que ser um louvor a FHC, tem que ser um ataque à esquerda, e por isso tem que ser considerado imoral e tem que ser boicotado. Porque sim. Nada se distingue, certo? Para quem, como Villaça & Cia., acha que a esquerda não se distingue do Bem, não há como a direita, e tudo que ela toca, se distinguir do Mal.

Não é por acaso que toda discussão decente depende das definições dos conceitos, da distinção entre as coisas. Não é por outra razão que Confúcio achava fundamental realizar a Retificação dos Nomes para que o país escapasse à convulsão (não foi feita, não escapou). Quando vida e cinema se distinguem nós temos chance de ter discussões produtivas sobre vida e cinema. Quando não, aí temos Pablo Villaça.

A coragem covarde no Cine PE

O Festival de Cinema de Pernambuco (Cine PE) é um evento… de cinema, que acontece em… Pernambuco (hehe) há 21 anos. A menos que você seja aficcionado por filmes nacionais ou trabalhe na indústria do entretenimento, você provavelmente nunca nem ouviu falar. O mercado cinematográfico brasileiro é dominado por títulos internacionais, segundo observações da própria Ancine, e os poucos filmes nacionais que se destacam no gosto do público tendem a não ser os filmes-arte que se exibe nesses festivais.

O festival se tornou um pouco mais conhecido esse ano devido a uma polêmica envolvendo alguns dos inscritos no evento. Sete dos 28 cineastas que participariam do festival decidiram retirar seus filmes da mostra em protesto contra a exibição dos documentários O Jardim das Aflições (direção de Josias Teófilo) – um filme sobre Olavo de Carvalho, ícone intelectual de uma parte da direita no Brasil – e Real: o Plano por trás da História (Rodrigo Bittencourt), sobre a criação do Plano Real. Eles alegaram não quererem suas obras associadas às da direita “extremista” e repudiarem a politização “inédita” da escolha dos filmes. Em vista das desistências de participação e da repercussão negativa, o Cine PE 2017 acabou sendo adiado.

Eu poderia criticar a intolerância evidente na medida; sim, os cineastas têm todo o direito de inscreverem e retirarem seus filmes do festival, mas isso não torna bons todos os seus motivos para fazê-lo. Recusar-se a meramente participar do mesmo evento que um adversário ideológico é quase um textbook case da dificuldade em lidar com a divergência.

O que mais me chama a atenção, porém, é que é tudo ridículo demais. São cineastas cujos filmes ninguém assiste, participando de um evento que 99,9% do povo desconhece, fazendo birra porque gente de fora do clubinho foi convidada para o mesmo evento que eles. Toda a atitude deles mostra um senso de autoimportância que só se encontra mesmo nos aspirantes a artistas. Tentem ler isso sem rir: o diretor do filme Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica (!) retirou sua gloriosa obra de um festival obscuro em protesto contra um filme de extrema direita.

Mas o que é ridículo pode sempre ficar mais ridículo. Um grupo de críticos de cinema, o mais famoso deles sendo Pablo Villaça (evidentemente…), resolveu lançar uma nota de apoio aos cineastas rebeldes. Já é meio estúpido um cineasta querer evitar que o público veja sua obra por causa de divergências políticas com os coleguinhas; que dizer então de um crítico de cinema, cujo ganha-pão é assistir filmes e criticá-los… mas a nota deste grupelho me chamou mais a atenção, porque é um ótimo exemplo de algumas patologias do pensamento que são muito comuns na nossa classe pensante – formada sempre por esquerdistas de classe média.

Eis o texto, retirado da página do Pablo Villaça no Facebook. Destaco alguns trechos em negrito, e comento tudo.

“MANIFESTO DE APOIO AOS CINEASTAS QUE RETIRARAM SEUS FILMES DO CINE PE

Nós, críticas e críticos de cinema, manifestamos nosso irrestrito apoio à decisão soberana dos cineastas que retiraram seus filmes da programação da 21ª edição do Cine PE – Festival de Cinema de Pernambuco. Da mesma forma, refutamos os argumentos de setores do cinema e da mídia hegemônica que classificam a atitude como censura, uma vez que não se reivindicou a proibição de nenhuma obra programada.”

Traduzo: nós, críticos subescreventes, apoiamos os cineastas que pularam fora do Cine Pe, e achamos que não foi censura.

Eles têm toda a razão em dizer que não é censura; é só intolerância mesmo. E eles podem apoiar quem quiserem, evidentemente. No entanto, algumas observações:

É engraçado como, às vezes, dá para prever todo o texto a partir de uma única frase. Os subescreventes poderiam ter dito simplesmente “nós, críticos de cinema”, uma vez que na língua portuguesa o gênero masculino é usado como gênero neutro. Mas não, pois como informam nossos luminares do pensamento nacional, a língua é sexista e é preciso nos esforçarmos para torná-la mais neutra. Eles poderiam ter escrito “nós, críticos e críticas de cinema”, pois é o usual na prosa da nossa língua listar o gênero neutro/masculino antes do gênero feminino. Mas não; pôr os homens antes das mulheres também é prova do sexismo na língua (link do governo do RS, p. 24), e nossos bravos cineastas são antes de tudo contra os preconceitos e discriminações. E contra a direita, claro. Só a partir desse começo já dá para saber que eles vão apoiar qualquer coisa contra a “direita”, e que esse povo votou no PT nas últimas cinco eleições…

À parte isso, notem o uso ruim e impreciso das palavras: a decisão dos cineastas é “soberana”. Quê? Decisão soberana é aquela tomada pelo Estado sem que haja qualquer direito de contestação (exceto a guerra). Os sujeitos usam o mesmo adjetivo para se referirem à prosaica e desimportante decisão de participar de um evento. Da mesma forma, eles dizem ter “refutado os argumentos”; é uma frase pronta emprestada das discussões de retórica/filosofia na internet. Refutar um argumento é demonstrar que ele está errado. Quais argumentos foram refutados nesse texto? A única coisa parecida com um argumento é a afirmação (que não é argumento…) de que haveria censura em retirar-se do festival. Cadê os outros? E onde estão as referências aos textos da “mídia hegemônica” (ai, ai..) que falaram em censura?

“Repudiamos o discurso que busca deslegitimar e diluir a potência de ação política de quem não transige com o desmantelamento do estado de direito que se seguiu ao golpe branco de 2016. O atual estado de exceção tem tido repercussões altamente negativas sobre o setor audiovisual, como os desmandos da administração no âmbito do Ministério da Cultura e a tentativa de boicote ao filme “Aquarius” após o protesto de sua equipe em Cannes.”

O palavrório ficou mais rebuscado, mas traduzo: discordamos de quem nos acha ridículos. Estamos combatendo o gólpi, que foi muito ruim para o setor audiovisual.

Notem, de novo, o uso impreciso dos termos. O que quer dizer “deslegitimar”? Essa palavra é uma buzzword que aparece vez por outra em textos de esquerda, e ninguém sabe dizer o que realmente é essa tal deslegitimação. Aparentemente, é o novo nome para as críticas de que o grupinho não gosta.

Ainda, “estado de exceção”. Um estado de exceção é uma situação em que as leis são suspensas por razão de extrema necessidade da parte do governo – legítimo ou não. É o que aconteceu na Turquia, por exemplo, após a tentativa de golpe militar do ano passado. Aparentemente, os nossos críticos acham que o Brasil passa por coisa similar. Que comentar? Quando alguém chega a esse nível de ilusão não há nada que se possa fazer.

Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem. Qualquer prática, privada ou pública, feita por cidadãs e cidadãos é um ato político. E como tal deve ser considerado. Quem fala de democracia hoje neste país deve falar necessariamente de combate e resistência. Foi exatamente isso o que fizeram esses cineastas. Em nosso entendimento, sua iniciativa nada tem de censura ou intolerância. Eles exerceram o direito legítimo de não compactuar com a formação de uma tribuna para o pensamento ultraconservador que ora se vê encorajado pelo governo Temer.”

Traduzo: nós não sabemos separar ficção de realidade, e vida pessoal de vida pública. E nós achamos que estamos lutando uma nova Guerra de Tróia contra o governo de plantão ao espernearmos contra um filme sobre um filósofo que também detesta o governo atual.

A frase em negrito traz o ponto mais grave sobre este manifesto, e todo este meu textão serve só para chegar aqui. Para os nossos críticos, vida e cinema não se distinguem. Isso explica muito da loucura coletiva deles e de todo e qualquer correligionário de esquerda que os apóie: eles não conseguem distinguir as coisas. Eles não conseguem separar campos distintos da atividade humana. Vida real e ficção são a mesma coisa, trabalho e vida pessoal são a mesma coisa, obra pública e comportamento privado são a mesma coisa, pessoa e país não se distinguem, descrição e defesa não se distinguem.

Se essas pessoas realmente acreditam no que escreveram, toda a irrazoabilidade deles se torna inteligível. Se vida e cinema não se distinguem, e eles querem a “direita” longe da sua vida, faz todo o sentido reagirem anafilaticamente a um filme de direita. Se a mera tolerância já se confunde com apoio à causa, faz todo o sentido serem intolerantes.

Ainda, reparem que a escrita enganosa e imprecisa persiste: “combate e resistência”. Que combate? Algum desses aí está pegando em armas contra o Temer? Que resistência? Por acaso o governo os estava obrigando a participar do festival? Eles falam em pensamento ultraconservador encorajado pelo governo Temer – Olavo é contra Temer, pô. E o plano Real nada tem a ver com conservadorismo.

“Por fim, agradecemos aos realizadores que fizeram aquilo que Guimarães Rosa escreveu genialmente sobre a vida: o que ela quer da gente é coragem.”

Coragem. Mais uma palavra que perdeu o significado. Os valentes estão arriscando o que exatamente com esse manifesto? Todos eles já têm público cativo, majoritariamente de esquerda. Nenhum deles será processado e preso e torturado por ter se manifestado. Nenhum deles será excluído de festivais futuros ou dos novos editais do MinC por terem se manifestado – ao contrário, são os seus adversários “conservadores” que têm dificuldade em conseguir financiamento e contatos no mundo artístico. Nenhum deles sofrerá violência por ter dito o que pensava. Onde está a coragem nisso tudo?

Segue-se a lista dos valentes:

“Alysson Oliveira, André Dib, Beatriz Saldanha, Bianca de França Zasso, Bruno Ghetti, Carlos Alberto Mattos, Carlos Primati, Cecilia Barroso, Celso Sabadin, Cesar Zamberlan, Chico Fireman, Daniel Medeiros, Diego Benevides, Filippo Pitanga, Ivonete Pinto, Janaína Oliveira, Joao de Oliveira, Juliana Costa, Larissa Padron, Luiz Zanin, Maria Do Rosário Caetano, Marcus Mello, Neusa Barbosa, Pablo Villaça, Pedro Butcher, Raphaela Ximenes, Regina Behar, Renato Félix, Renato Silveira, Roberta Canuto, Rodrigo Fonseca, Roni Filgueiras, Samantha Brasil, Susy E.C. Freitas”

 

Em tempo: os termos do protesto parecem ter sido exagerados demais mesmo para a fanbase do Pablo Villaça. A postagem teve cerca de um décimo do engajamento usual que têm os posts políticos do autor. Ele respondeu aos críticos (imagino que após banir metade deles):

Desculpe, mas não é questão de intolerância, mas de não legitimar um evento que representa uma postura anti-democrática. Não se trata, aqui, de algo simplista como “patrulhamento ideológico” ou de uma tentativa de pré-condenar obras ligadas a um pensamento reacionário; a inclusão dos longas O Jardim das Aflições (sobre Olavo de Carvalho) e de O Plano Real não é simplesmente uma mera questão de curadoria diversificada, mas de um gesto claramente político por parte dos responsáveis pelo CinePE. Um de seus idealizadores não apenas apoiou a deposição ilegítima de uma presidenta eleita democraticamente como quase imediatamente assumiu um cargo importante no “governo” colocado em seu lugar. Pior: em sua passagem pela Secretaria do Audiovisual, basicamente permitiu (isto para não dizermos “iniciou”) uma perseguição – aí, sim – ideológica, política, contra o longa “Aquarius” e contra seu diretor, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, o que envolveu escalar para a comissão de seleção do Oscar um “crítico” que não apenas se alinhava desde o primeiro momento ao pensamento golpista como atacou publicamente o filme e seu diretor antes mesmo de assistir à obra. O resultado todos conhecem.

Ele não aceita que filmes conservadores estejam representados no festival, mas o festival é que é anti-democrático. Villaça TAMBÉM NÃO ASSISTIU as obras que está criticando, mas já está fazendo campanha contra – enquanto critica o adversário por supostamente ter feito o mesmo.

“Além disso, é público e notório que os realizadores de O Jardim das Aflições fizeram diversos ataques virulentos aos colegas cineastas que se posicionaram à esquerda, chegando a fazer ilações irresponsáveis e difamatórias até mesmo com relação ao financiamento de seus trabalhos.”

O homem que fez ataques virulentos no parágrafo anterior da resposta não se conforma que os adversários também o façam. O homem que acusa o adversário de perseguir o filme “Aquarius” (com que provas, amigo Villaça?) reclama das ilações irresponsáveis e difamatórias… dos outros.

“Portanto, a decisão corajosa dos sete cineastas de retirar seus filmes do CinePE não é, como se pode perceber, um esforço de censura, mas um posicionamento claro diante da constatação de que, ao incluir especificamente estes dois filmes, os responsáveis pelo festival não apenas dão continuidade à postura reacionária, anti-democrática, que assumiram no ano passado como a reforçam através do evento. Um evento cuja legitimidade está associada precisamente à presença de obras como aquelas criadas pelos sete diretores e diretoras.”

Que lindo. O simples fato de haver DOIS filmes “reacionários” em meio a VINTE E SEIS outros filmes é um sinal claro de reacionarismo. E o reacionarismo, na opinião do Villaça, é sempre anti-democrático. Quantos autores reacionários será que ele leu? Quantos amigos reacionários ele tem? Quão preocupado ele realmente está com as tais “ilações irresponsáveis”, já que faz questão de fazê-las em seus textos?

E vejam só! A legitimidade (o que quer que seja isso) do festival é dada justamente por obras como aquelas dos sete esquerdistas que se retiraram. Como Villaça acredita que vida e cinema não se distinguem, tenho que concluir que os cineastas esquerdistas produziram obras que não se distinguem das suas vidas, e são obras de esquerda. Agora entendi: para Villaça, o que confere “legitimidade” ao festival é ele expor obras de esquerda. Se não tem esquerda, não é legítimo; se tem direita reacionária, não é legítimo também.

Democracia, versão esquerda classe média: só é legítimo quem concorda comigo.

“E, portanto, permanecer no festival – por mais que isso trouxesse visibilidade aos seus trabalhos – seria contribuir para a legitimação desta postura lamentável, anti-progressista, dos diretores do CinePE. E que tenham tido a coragem de sacrificar esta exposição de seus trabalhos em prol de sua integridade ética e política é algo que deveria inspirar aplausos, não condenação.”

Finalizemos com uma observação prática e cínica: os trabalhos dos ditos cineastas tiveram muito mais cobertura midiática e atenção do público depois da polêmica. Podem apostar que esses sete filmes terão o dobro da minguada bilheteria usual, com os engajadinhos de esquerda fazendo questão de assistir as grandes obras desses guerreiros da lei Rouanet. Foi assim com a polêmica em torno de “Aquarius”. Ou seja, sequer o público os cineastas sacrificaram nesse ato abnegado de protesto político.

E não é sempre assim?