O nazismo era nazista

O incidente de Charlottesville trouxe-nos um dos espetáculos do infinito dia da marmota que é a internet: a discussão de se o nazismo seria de esquerda ou de direita. É sempre a mesma coisa, sempre prossegue da mesma maneira estúpida e desonesta, sempre termina sem terminar; desta vez não vai ser diferente. Mas cabe responder à pergunta mesmo assim: afinal, era de esquerda ou de direita?

Resposta curta e rápida: nazismo não era de direita nem de esquerda, e quem o classifica como extrema-direita ou extrema esquerda não sabe o que diz1. O nazismo era nazista, porque a parte mais relevante de sua ideologia – aquela que melhor explica suas as ações – era totalmente sui generis.

Classificar o nazismo no eixo direita-esquerda é mais complicado e mais propenso a distorções do que parece à primeira vista, uma vez que os termos “esquerda” e “direita” têm mais de uma definição honesta possível, além da miríade de definições desonestas que invariavelmente são usadas em todas as polêmicas.

A começar, a definição pode ser feita a partir de princípios (“é esquerda quem defende X”) ou a partir de afiliação (“é esquerda quem se diz de esquerda e como tal é reconhecido”). Ambas as definições têm argumentos que as recomendam, mas dão resultados diferentes na hora de classificar os movimentos políticos. Só isso já basta para gerar divergências2.

O problema continua quando se observa que as posições defendidas por direita e esquerda não se mantêm constantes ao longo do tempo3; que a maioria das posições políticas possíveis não é intrinsecamente de esquerda nem de direita4; e que pautas que nascem em um lado do espectro político podem vir a ser defendidas pelo outro conforme o tempo passa5. Isso ocorre porque a definição mais correta e coerente possível de esquerda e direita não nos diz nada sobre que bandeiras cada uma defende, mas sim sobre o método de escolher as bandeiras: direita é conservadorismo, esquerda é progressismo. Grosso modo, a direita quer preservar as instituições de 100 anos atrás e destruir as de 20 anos atrás; a esquerda quer o contrário. Ao procurar substitutos para o que cada uma quer destruir, a direita olha para o (suposto) passado, e a esquerda para o (imaginado) futuro. Notem que essa definição praticamente implica em as pautas mudarem de lado com o passar do tempo, como de fato vemos acontecer6.

Por conta disso, uma posição defendida pela esquerda de 1917 pode ser defendida pela direita de 2017; e como a discussão está acontecendo em 2017 mas se refere a fatos antigos, é possível justificar que se chame de “esquerda” tanto uma pauta que era esquerdosa antigamente e hoje não é mais, quanto uma pauta que hoje é de esquerda mas na época era conservadora. Muitos textos sobre o nazismo recorrem a essa ambiguidade para forçar o encaixe do partido na direita ou na esquerda.

(Há também o problema de decidir quais, dentre as muitas bandeiras que cada lado da guerra política levanta, são as bandeiras mais relevantes e definidoras de cada lado. Um critério muito amplo ou muito rígido, como freqüentemente se usa em debates sobre o nazismo, gera resultados estranhos se aplicado consistentemente. Se comunismo é a bandeira que definia a esquerda7, então toda a social democracia teria que ser chamada de direitista. Se nacionalismo define a direita, então Mao tem que ser chamado de direitista)

Some-se a isso o hábito dos fanáticos de cada um dos lados atribuírem todos os males do mundo ao outro lado, e tem-se a receita para um debate pseudointelectual 100% descompromissado com informar o público. Assim, somos informados de que o nazismo era de direita por ser autoritário (Stálin, alguém lembra?), por ser antissemita (Marx?), por ser nacionalista (Mao?), por se favorável à propriedade privada (Lula?), e por ser militarista (Maduro?); nenhuma dessas características é exclusiva da direita, porém. Outros nos dizem que o nazismo era de esquerda por querer um Estado inchado (Franco?), ser uma ditadura (Médici?), e controlar a imprensa (todas as anteriores). Nenhuma dessas características é exclusiva de direita ou esquerda, mas não faltam textos que tentem avançar essas teses.

No caso específico do nazismo, ainda há dois fatores complicadores8: o programa nazista mudava mais do que as fases da Lua, e os nazistas eram notórios manipuladores e mentirosos9. Uma posição defendida em 1925 podia ser revertida em 1930, voltar em 1933, ser publicamente condenada em 1938, e aparecer novamente em memorandos internos de 1944. Não é por acaso que os historiadores concordam bastante quantos aos fatos materiais sobre o nazismo, mas discordam muito quanto a motivos, idéias, e planos.

Como concluir qualquer coisa no meio desta confusão?

Vamos por partes: analisando o nazismo a partir de sua atuação política de fato, a situação é bem complicada. Os nazistas mantinham uma plataforma socialista e populista (ver abaixo), mas sempre fizeram questão de atacar os comunistas e fazer de tudo para retirá-los da política alemã (embora as relações exteriores com a Rússia tenham sido menos maniqueístas), o que lhes rendeu a simpatia e a aliança de muitos conservadores (exceto, notoriamente, os ligados a partidos religiosos); alguns consideram isso evidência de que, na prática pelo menos, o nazismo foi de direita – mas não faz sentido. Briga interna, perseguições entre facções de esquerda, e alianças estranhas não são nenhuma novidade, e não bastam para desqualificar a inclinação de esquerda do partido. Ao mesmo tempo em que atacava sem piedade o comunismo, o nazismo se apresentava como uma variante mais aceitável e correta do socialismo. E é importante lembrar que os ataques virulentos ao comunismo não impediam os nazistas de atacarem (com menos violência, claro) as demais correntes da política alemã. Capitalistas, tradicionalistas, religiosos, todos que não fossem nazistas estavam sujeitos aos seus ataques.

A relação do nazismo com a esquerda fica mais interessante se formos analisá-lo a partir de seus princípios; é difícil negar que, no espectro esquerda-direita, o nazismo começou pendendo para a esquerda, por mais que rejeitasse o marxismo. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães começou atacando a burguesia, o capitalismo, as grandes empresas, e o rentismo, e defendendo a socialização dos lucros das empresas com os empregados, o Estado de bem estar social, a nacionalização de indústrias estratégicas e a reforma agrária – pautas mantidas pela esquerda nos últimos 200 anos. Está tudo lá nos 25 pontos de 1920. O partido também foi contrário à restauração da monarquia alemã e à influência religiosa sobre o governo (notoriamente a da Igreja Católica, cujo partido centrista competia com os nazistas por votos na parte católica da Alemanha).

O programa nazista original era basicamente um programa de esquerda – exceto que nele também se encontra uma forte insistência no nacionalismo, que (na época, como hoje) era visto como no mínimo secundário pela esquerda (e ativamente desprezado pelos setores marxistas), e que desde o começo abunda a rejeição ao comunismo nos escritos dos membros do partido – numa época em que o comunismo era mais ou menos apoiado por toda a esquerda. Apesar disso, a passagem do tempo inegavelmente distanciou o partido das promessas mais esquerdosas e aumentou o foco nos elementos militaristas e peculiares do nazismo (especialmente depois da Röhm Putsch), de modo que o caráter esquerdista do programa acabou tendo pouca influência no regime de fato. O nazismo deslocou-se em direção ao centro conforme ganhou mais poder, e estacionou em algum lugar entre o centro e a centro-direita. Virou uma ditadura oligárquica comum, com os membros do partido formando a nova elite. Esta não é uma trajetória incomum; o Partido Comunista Chinês e o governo comunista da Coréia do Norte passaram pelo mesmo processo em tempos recentes – este último basicamente converteu-se em uma monarquia hereditária absoluta.

Ocorre que toda a discussão sobre o nazismo ser de esquerda e direita é de pouca importância para entender o nazismo, porque a parte mais relevante de sua ideologia era sui generis. Aliás, essa discussão é danosa ao debate, pois faz parecer que o grande problema do nazismo seriam seus elementos esquerdistas ou direitistas, quando não são: o elemento apomórfico é responsável por 90% da ruindade do regime. Não foi por ter sido autoritário ou anticomunista ou anticapitalista que o nazismo foi terrível – isso explica os horrores de Stalin ou de Leopoldo II, mas não os de Hitler: este foi o que foi por fazer da crença na pureza racial alemã e na necessidade de mantê-la a qualquer custo uma política de Estado. Foi daí que adveio a barbárie. Foi o antissemitismo nazista que matou milhões de judeus, não seu anticomunismo ou anticapitalismo. Foi a crença no Lebensraum que os levou a massacrar a Polônia. E esta parte da ideologia não é de esquerda nem de direita, mas sim uma síntese de elementos antigos e ciência de época feita unicamente pelos nazistas, e por mais ninguém.

Reparem: o nazismo não foi o único regime fascista que existiu, mas foi o mais assustador, o mais terrível, e o mais odioso. Mussolini, Franco, Salazar, e Getúlio eram fascistas, e não foram nem de longe tão ruins quanto Hitler. Por quê? Porque a parte nacionalista e militarista da ideologia deles não se baseava fortemente em idéias raciais, mas sim no conjunto mais regular de identidade nacional (língua, história, cultura, religião, etc.); e a parte coletivista da ideologia coletivista deles não incluía sacrificar o povo numa guerra racial total. Sem o ângulo racial, Hitler teria sido como eles: um desastre para a Alemanha, mas não uma tragédia para o mundo.

É por isso que eu digo que a discussão sobre esquerda e direita é irrelevante para entender o nazismo, que saber se o nazismo era um ou outro é irrelevante para entender esquerda e direita, e que o nazismo era, antes de tudo, nazista: as idéias que tornaram o nazismo tão letal e tão odioso não vieram de nenhum dos lados, não podem ser derivadas das crenças de nenhum dos lados, e foram gestadas politicamente somente dentro do partido nazista. Perguntar se eles seriam de esquerda ou de direita faz tanto sentido quanto perguntar se César era de esquerda quando derrotou os gauleses ou se Tamerlão era de direita quando conquistou a Ásia central.

Resumindo: o nazismo era de esquerda ou direita?

1. O nazismo começou com mais elementos de esquerda do que de direita, e gradualmente moveu-se em direção ao centro do espectro político conforme ganhava mais poder.

2. Os elementos de esquerda e de direita explicam muito pouco do fenômeno que foi o nazismo (uns 10%, estimo), e portanto discutir sobre esquerda e direita no nazismo é discutir sobre trivialidades enquanto se ignora um tema maior.

3. A maior parte das ações dos nazistas são explicadas pela parte mais peculiar e única de sua ideologia – a crença em pureza racial, em um Lebensraum, e o antissemitismo exacerbado – algo que transcende a divisão direita-esquerda, e é uma mistura de elementos antigos reinterpretados à luz de ciência duvidosa e filosofia moderna.

Termino aqui. Agora guardem este texto para quando, daqui a uma ano, voltarmos a ter essa discussão inútil quando um neonazista disser que apoia o Bolsonaro ou quando uma suástica convenientemente aparecer desenhada em algum banheiro de universidade federal.


Notas:

1 “extrema direita” ou “extrema esquerda” implica uma adesão total à ortodoxia de um dos dois lados – ou pelo menos que o partido proclame e acredite que está aderindo aos extremos “verdadeiros” da esquerda ou da direita. Partidos cuja ideologia não pode ser mapeada totalmente em um dos lados e/ou que não clamam representar a verdadeira forma de um dos lados da disputa não podem ser “extremos” do espectro político. O nazismo, como o resto deste texto argumenta, não possui idéias de somente um lado do espectro político e nunca, até onde sei, clamou ser 100% de esquerda ou de direita.

2 para um exemplo dos vários problemas que o uso de definições diferentes acarreta, vide a discussão entre pseudoerasmus e Jonah Goldberg. O problema de jogar o fascismo italiano e o nazismo no mesmo balaio também é bastante proeminente no debate. Reparem os textos são de 2015; o assunto vem e volta todo ano.

3 por exemplo, o mainstream da esquerda já aprovou a ditadura do proletariado, mas hoje o rejeita. O mainstream de direita já foi decididamente contra o liberalismo econômico, mas hoje o aceita sem muitas restrições.

4 por exemplo, a ética da não violência, a preferência pela democracia, a defesa da responsabilidade fiscal, a importância do comércio internacional – assuntos politicamente relevantes que não se encaixam na dicotomia esquerda-direita.

5 por exemplo, aposentadoria. Começou como parte do Estado de bem estar social defendido pela esquerda, mas hoje foi perfeitamente incorporado à direita mainstream.

6 um exemplo real (se bem que polêmico) disso é a defesa moderna da eugenia e da ciência da classificação racial, que começou entre os progressistas do início do século XX (acreditem se quiserem) e hoje só subsiste em uma parcela pequena dos reacionários.

7 como diz nas entrelinhas o péssimo texto do Michel Gherman no Estadão, que para a tristeza de quem tem cérebro está entre os mais lidos desta semana. Gherman escreve um texto sobre a ideologia nazista sem citar os pontos do programa nazista, muitos dos quais eram escandalosamente de esquerda, e tenta igualar “esquerda” com “marxismo ortodoxo”. Após “””provar””” que o nazismo não pode ser de esquerda porque odiava o marxismo e os judeus, Gherman salta sobre a lógica para concluir que o nazismo era de extrema-direita, sem nem tentar argumentar. Ler isso aí vindo do coordenador do Centro de Estudos Judaicos da UFRJ é desalentador. Flávio Morgenstern lhe  deu uma resposta apropriada.

8 na verdade, há um terceiro fator complicador, que é a atitude do pós-guerra. A derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial é praticamente o mito de criação da sociedade ocidental contemporânea, e Hitler é um daqueles poucos personagens que se convencionou ser dever cívico odiar – aliás, não só odiar, mas demonstrar o ódio sempre que possível, sob pena de alguns olhares esquisitos. Neste contexto, é previsível que quem queira provocar desprezo a um adversário acuse-o de compactuar, ou de ter qualquer coisa em comum, com os nazistas (ver reductio ad hitlerum e Lei de Godwin). E como o tema é quente e dominado pelo moralismo, encontra-se historiadores e pundits de todos os lados com os argumentos mais distorcidos possíveis para tentar “provar” que o nazismo era exatamente igual a [insira grupo de que você não gosta aqui] e quem discordar é Literalmente Hitley.

9 como exemplo do nível de quão longe a manipulação chegava no tempo dos nazistas, olhem esse trecho sobre o assassinato de Moritz Schlick por Johann Nelböck em 1936. Nelböck era mentalmente perturbado, e alegou ter cometido o crime porque a filosofia anti-metafísica de Schlick teria perturbado seu senso de autocontenção (ou talvez por questões de amor). O evento foi cooptado pelos nazistas para atacar os judeus, embora nenhum dos dois envolvidos fosse judeu e o crime não tivesse qualquer relação com política! A “pós-verdade” de hoje não é nada por comparação.

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Links comentados I

[Alguns links com alguns comentários]

Menino do Acre reaparece após mais de quatro meses. Lembrando que o “menino” é um estudante de 25 anos que escreveu 14 livros esotéricos criptografados com a cifra mais tosca da Terra, e cujo sumiço mostrou-se ter sido uma jogada de marketing para vender os manuscritos. Funcionou, pelo visto: o primeiro livro (TAC: Teoria de Absorção de Conhecimentos) atingiu o 20º lugar em vendas de não-ficção segundo o PublishNews. E o segundo volume, humildemente intitulado Caminho para a Verdade Absoluta, vem aí. Brasileiro é tão fácil de enganar.

Para a surpresa de ninguém, a Assembléia Constituinte convocada por Nicolás Maduro na Venezuela ratificou sua permanência na presidência. A Assembléia terá poderes plenos para instaurar de vez a ditadura reformar a democracia (cof, cof) venezuelana. Lembrando que o PT, o PC do B, e o PSOL divulgaram notas de apoio ao regime; nenhum, porém, explicou porque acha que a maravilhosa Constituição chavista, que eles tanto louvaram nos últimos 15 anos, deveria ser descartada agora, em meio à crise econômica e à desconfiança no governo.

Mulher reage a assalto em Fortaleza, espanta os bandidos, e o G1 está preocupado em nos dizer que reagir a assalto é errado. Como assim errado? Arriscado, sim; imprudente, talvez. Mas errado, de jeito nenhum. É triste ler o que escreve essa moça corajosa cuja bravura é censurada pela imprensa e pela polícia:

“Já fui assaltada cinco vezes. Em todas elas eu reagi. Em todos os casos. Eu sei que é errado. Agora vou tentar me corrigir e pedir a Deus mais calma. Agradecer por eles [os ladrões] não terem uma arma e me agredido. Vou tentar me corrigir”, afirma a costureira.

Não moça, quem precisa se corrigir são os vagabundos que tentaram te roubar. Você só precisa ser mais prudente – se bem que quem se livra de cinco assaltos podemos confiar que sabe o que está fazendo.

O aplicativo de edição de fotos FaceApp introduziu um filtro que permitia alterar a etnia do rosto do usuário. Pessoas normais acharam divertido; pessoas militantes acharam horrorosamente ofensivo, e fizeram tanto barulho que o filtro foi retirado do ar sob acusações de racismo. Aparentemente, retratar uma pessoa de uma raça com aparência de outra é o suprassumo do racismo hoje em dia. Quero só que fique registrado o quanto a luta contra o racismo deixou de lado o que era relevante para cair no completo ridículo.

Ao mesmo tempo em que o FaceApp era acusado de racismo, a Netflix escalava um ator negro para o papel de Zeus em uma série sobre a guerra de Tróia, e a BBC produzia um desenho animado educativo sobre o período romano da Grã-Bretanha incluindo um romano afrodescendente (qual a chance disso?) como representante típico da diversidade do período (sobre este último caso, ver o comentário do Nassim Taleb). Aparentemente, essas representações racialmente errôneas não contam como racismo para a mesma militância que atacou o FaceApp.

Tribunal Popular julgará a Operação Lava-Jato em Curitiba. Parece grande coisa, mas vamos lembrar que este “tribunal” é apenas um congresso de juristas pró-PT que se autoconcedeu o nome pomposo e se arroga o direito de chamar suas opiniões de “julgamento” – não é um tribunal de verdade com autoridade sobre o que quer que seja. Ridículo, não? Mas perfeitamente normal para um partido que reuniu um congresso de juristas sob patrocínio da Via Campesina, nomeou-o Tribunal Internacional para a Democracia, e o mandou conduzir um “julgamento” sobre o impeachment da Dilma em que até o acusador, o brizolista Nilo Batista, tinha vínculo com o PT. O resultado, evidentemente, foi a conclusão de que impeachment era golpe, e o alardeamento do resultado como se fosse uma sentença de algum tribunal de verdade, e não a opinião de meia dúzia de partidários.

O Coletivo das Mulheres de Relações Internacionais da UFF (ai, ai) emitiu uma nota de repúdio (que mais esses coletivos fazem mesmo?) contra o consumo de pornografia, afirmando que “é problemático mantermos no corpo docente do INEST funcionários que, para além de consumirem pornografia – se apropriando do corpo feminino em situação hiperssexualizada, sob infeliz respaldo de que sua conduta configura luta política – silenciam, coagem e perseguem alunas que expõem ponto de vista que contraria sua convicção“. Confuso? Eu explico: elas estavam reclamando de um professor que admitiu consumir pornografia em casa, e que não deu bola para as reclamações indignadas delas. O COMRI-UFF é basicamente uma versão moderna dos puritanos. Via AJS no Facebook.

Enfim temos uma resposta à altura para as irritantes tirinhas do Armandinho: Afonsinho, um moleque tão mala quanto o Armandinho mas que se ferra no final. Já que a Morrendo Violentamente foi censurada por questões de copyright, teremos que nos contentar em matar a paródia do infame problematizador infantil.

Tem que ser burro para tacar ovo no Doria

Nas notícias de celebridades… digo, notícias políticas de hoje, manifestantes de esquerda jogaram ovos em João Doria em Salvador. Naturalmente, boa parte das páginas de esquerda na internet achou tudo divertidíssimo e aprovou o ato.

O legal desse tipo de coisa ridícula é que expõe perfeitamente a qualidade da militância. A despeito de todo o pretenso intelectualismo e suposta tolerância (mais amor, por favor!), o que se vê é só um bando de gente irracional que se comporta igual torcedor de futebol depois de uns goles – e ainda se orgulha disso.

Mas mais interessante, no caso em questão a irracionalidade se soma à burrice. Apesar de seu discurso indignado, Doria deve estar esfregando as mãos e se contendo para não rir depois dessa; afinal, a ovada lhe dá publicidade gratuita (e ele sabe o valor disso) e material para atacar ainda mais os adversários ligados ao PT. Doria não foi “humilhado” em rede nacional; para isso, ele teria que já ser conhecido pelo Brasil afora E já ser detestado – ele não é nenhuma das duas coisas. Ele não foi abatido, ele ganhou um palanque. As paginazinhas de sempre estão todas alegres com o feito sem se dar conta disso.

(em tempo: tacar coisas [que não machuquem] em políticos fortemente escoltados e protegidos é uma daquelas coisas que não deveria ser feita, mas… não é tão grave assim quando fazem. Acho muito piores aquelas intimidações e ameaças de violência feitas em aeroportos ou na frente da casa do político – nestas, o sujeito pode razoavelmente ter medo de ser ferido pela turba. Não, a Democracia não Está Ameaçada™ pelo ovo do Doria, assim como não estava ameaçada no caso da bolinha de papel, nem no caso da galinha, nem no caso da torta na cara. Mas enfim, tanto a escolha do meio de protesto quanto o timing errado indicam alguma coisa sobre a falta de noção dos militantes)

 

Direitos humanos para humanos direitos, versão de esquerda

Resumo da notícia: um neonazista e sete punks brigaram em Osasco, e o neonazista saiu morto. A história em si não é nem incomum, nem surpreendente; brigas de gangues são parte da nossa paisagem urbana há décadas, por mais triste que seja admitir. A maior parte desse tipo de ocorrência nem chega a virar notícia, e o que vira tende a se resumir a uma ou duas linhas rapidamente esquecidas.

Mas o que importa para este post não é o acontecimento em si, e sim sua repercussão; em especial o que foi levantado neste texto do Guilherme Assis no Facebook: desde o momento em que o caso entrou em discussão na Internet (inicialmente, por causa de dúvidas quanto a se o morto era mesmo neonazista), os comentários foram dominados por pessoas comemorando a morte do vagabundo sujeito e aplaudindo os sete outros vagabundos punks por seu feito. De novo, nada muito surpreendente; boa parte da população não vê nada de errado em matar criminosos das mais variadas estirpes por crimes de todo tipo.

Exceto que, como Guilherme Assis apontou, boa parte dos comentaristas eram pessoas de esquerda que supostamente defendem os Direitos Humanos e criticam quem diz que bandido bom é bandido morto. São pessoas que condenam linchamentos e acham Bolsonaro monstruoso por querer matar e/ou castrar assassinos e estupradores, mas que (como vimos) não veem nenhum problema em defender exatamente a mesma coisa em um contexto um pouco diferente.

Quem quiser uma demonstração de o quão parecido é o discurso desses bravos antinazistas com o dos bolsominions só precisa passear pelos mais de 1800 comentários da postagem; uns 90% dos leitores não entenderam sequer o começo do texto (nada surpreendente também – ai, ai…) e uma enxurrada de gente de esquerda fez questão de confirmar que Guilherme Assis não tinha atacado um espantalho. Um amostra das interações na thread:

Nazista nem é gente! Defensor de nazista tb não!

(“Bandido nem é gente! Defensor de bandido tb não!”)

Guilhermino açaí passando pano pra nazi, é isso mesmo o que eu li???

(sempre tem alguém que acha que qualquer defesa da pessoa é igual a apoio incondicional. Vários alguéns, no caso)

Violência gratuita não se combate com flores! Mata mais que tá pouco.”

(no caso, a violência gratuita foi dos 7 punks contra o neonazista, mas enfim)

Um nazista não é igual a qualquer bandido, mto menos igual a qualquer ser humano.

(variante exculpatória dos anteriores)

ESPANCOU E MATOU FOI POCO. pega o nazi e da colinho, arrombado, deficiente cognitivo.

(variante menos educada das anteriores)

Nazista não é gente, leva seu sentimentalismo pra puta que pariu.

(clássico: igualar defesa dos Direitos Humanos com sentimentalismo. Às vezes é verdade, admito)

Quem se envolve com gangs de rua tem que ser consciente do que está fazendo. Tá na chuva é pra se molhar.

(outro clássico: ele mereceu, afinal foi se envolver com bandidagem)

O discurso [de direitos humanos] vale pra todo mundo, menos pra neonazista. O julgamento do neonazista é a suastica tatuada, não tem neonazista pacifico

(ou seja, Direitos Humanos para humanos direitos)

Ah tem dó… Se era nazista ja foi tarde. Ta com pena leva pra casa. “Desumanizar vítimas de violência” vou ter q rir kkkk Nazista não é humano. Tem mais é q morrer msm

(é o bordão do Datena: tá com dó, leva pra casa)

Que militudo. Matar nazista nem é crime, é dever humanitário.

(o lema de todo justiceiro: matar bandido é um dever para o bem da sociedade)

MAS ELE ERA NAZISTA CARALHO, SER NAZISTA NÃO É COMO SER ALGO OK
TU JA OUVIU FALAR EM HOLOCAUSTO? ONDE PESSOAS ERAM MORTAS EM CÂMARAS DE GÁS OU DE FOME? EM ACREDITAR EM UMA SUPERIORIDADE GENÉTICA?

(isso foi em resposta a um comentário de um judeu que criticou o assassinato do neonazista, só para constar)

Você quer combater nazismo como? Com sarau na faculdade? Com bundaço? Beijaço? Trocando ideia? Acorda pra vida, mongoloide

(mais um clássico aqui: o cara durão que acha que qualquer coisa que não seja porrada é utopia)

Tu muda de opinião quando um parente teu é homossexual ou nordestino e sofrer um ataque dessa raça

(quarto clássico, aquele que não podia faltar: “queria ver se acontecesse com você”)

“Deixa uns desses te pegarem numa rua escura pra ver se vão respeitar sua humanidade. Não morreu por pensar diferente, sim por ser NAZISTA!

(semelhante ao acima, mas com uma pérola no final)

Nazista nao é gente nao compare um bandido com algo q nao é nem humano todo nazista tem q ser MORTO a qualquer oportunidade e ponto defender qq coisa diferente disso isso sim poe em risco vida de muitos companheiros de esquerda

(repare no “ser morto a qualquer oportunidade”)

“Você fala isso só porque é branco e provavelmente de classe média e hetero. Se fosse negro ou gay, teria mais amor próprio e comemoraria a morte de todo facho.

(Argumentum ad loco locutionis, não pode faltar em debate de esquerda)

O crime de agressão literal não é espontâneo e sádico, o crime ideológico é muito mais grave. Quando um crime desses é espontâneo e sádico o meliante é punido e internado por ser um psicopata, agora neonazismo não é psicopatia.

(uma tentativa muito confusa de explicar porque não pode linchar agressores comuns mas pode matar nazistas)

pq realmente, um tatuador classe média morto por carregar ideais assassinos é exatamente a mesma coisa que quando a policia fuzila um moleque preto de 14 anos na favela e depois planta um revolver na mão dele

(mais um que tenta se explicar e acaba revelando que não leu o texto e não entendeu NADA da comparação)

Imagina se o esforço pra defender nazistinha fosse feito pra defender os sofredores do Brasil

(“imagine se o esforço para defender bandido fosse feito para proteger os cidadãos de bem”)

Matar anarquista pode mas nazi não?

(espantalho; o texto não defendia que se pudesse matar ninguém)

Quod erat demonstrandum, boa parte da esquerda mais fanática tem comportamento idêntico ao da direita mais selvagem. Critiquem o quanto quiserem, a Teoria da Ferradura é real. Um monte de gente que se horroriza com o bordão “Direitos Humanos para humanos direitos” acaba aderindo a esse pensamento no momento em que encontra um criminoso horrível o suficiente para suas sensibilidades morais – o que nos leva a questionar o quanto essas pessoas realmente acreditam na existência de Direitos Humanos Universais.

Qual é o ponto?

O ponto é que Direitos Humanos Universais só são Direitos Humanos Universais se valerem para todos os seres humanos, independente de quaisquer outras características individuais. São direitos considerados intrínsecos aos membros da nossa espécie, que devem ser preservados ao grau máximo que for possível em cada contexto. São direitos de que gozam os bons e os maus, os bonitos e os feios, os de que nós gostamos e os que nós odiamos. Toda a defesa dos Direitos Humanos começa por reconhecer que até os mais desprezíveis de nós devem ser tratados com um mínimo de dignidade e proteção.

Há muito espaço para controvérsias intelectuais sobre quais direitos devem cair sob a categoria de Direitos Humanos Universais, ou mesmo se deve existir um grupo de direitos assim. SIM, QUESTIONAR OS DIREITOS HUMANOS É INTELECTUALMENTE VÁLIDO. Mas qualquer que seja a sua posição sobre este assunto, ela deve envolver o uso de critérios consistentes para decidir quem merece a proteção dos direitos; não pode ser só uma coleção de arbitrariedades que magicamente coloca as pessoas (que você acha) odiosas fora da proteção da lei.

No caso em discussão, o texto comparava quem defendia a morte do neonazista com quem defende a execução de bandidos comuns; há quatro posições que podem ser defendidas intelectualmente quanto a isso – qual a mais defensável, qual a mais moral, cada um defina por si; mas que se diga explicitamente quais são elas e quais são suas conseqüências:

  1. Negar o direito de matar tanto o bandido quanto o neonazista, pois a vida é um direito humano que deve ser respeitado em todos os seres humanos.
  2. Aceitar o direito de poder matar neonazistas e bandidos. Neste caso, é preciso um critério que justifique matar ambos – talvez a comissão de crimes violentos no passado?
  3. Aceitar o direito de matar bandidos comuns, mas não neonazistas. Sob qual critério, não sei…
  4. Aceitar o direito de matar neonazistas, mas não bandidos comuns. O pessoal dos comentários do post do Guilherme Assis tentou elaborar alguma coisa nesse sentido, mas a maior parte passava por dizer que o bandido comum era [sempre] um sujeito sem oportunidades e/ou que o nazista era irrecuperável (esta última soa familiar?). Nenhuma das duas afirmativas é verdadeira, porém, e por isso nenhuma justifica a decisão de matar um e preservar o outro.

Notem que, das quatro posições possíveis, somente a posição 1 aceita a existência de um direito humano à preservação da vida; todos os outros três precisam admitir que a vida de alguns humanos vale menos, moralmente, do que a de outros, e pode lhes ser retirada sem culpa. Quem se declara a favor dos Direitos Humanos – como boa a parte da esquerda – tem que preferir a posição 1, ou então é um hipócrita.

O que implica em dizer: se você defende que se possa matar neonazistas sem ser em autodefesa – simplesmente por eles serem desprezíveis e potencialmente perigosos – admita que você não defende os Direitos Humanos, pare de falar como se os direitos humanos fossem sagrados para você, e pare de se escandalizar com os outros negadores dos Direitos Humanos que usam critérios diferentes de você para decidir quem se pode matar. Sua divergência com eles é apenas nos critérios, não na estrutura de pensamento.

Por fim: qualquer posição que se adote neste debate traz algumas conseqüências desconfortáveis, mas… isso é inevitável. Defender os Direitos Humanos é desconfortável. Aceitar a existência de um direito a vida implica em defender algumas criaturas abomináveis e imerecedoras de compaixão, como um assassino neonazista ou o Champinha, da compreensível fúria popular. É perfeitamente válido que alguém se revolte com essa perspectiva e queira negar que se conceda direitos incondicionais aos humanos, visto que entre nós caminham alguns monstros. Por isso eu não saio chamando os que são contra os Direitos Humanos de primitivos e impiedosos, e por isso eu não saio todo orgulhoso de defender esses direitos como se eles só trouxessem conseqüências inequivocamente boas.

Este texto não é só uma denúncia da hipocrisia de alguns militantes internéticos dos Direitos Humanos; na verdade, é mais um alerta para o quão mal pensadas são as posições ideológicas dessas pessoas. Nos comentários que tentaram elaborar uma justificativa para poder matar neonazistas e não bandidos, a confusão de conceitos, a prosa truncada e a incapacidade de responder a questionamentos diretos deixavam bem claro que a pessoa NUNCA havia parado para pensar no assunto antes. O pessoal defendia os DH sem ter se dado conta de que eles valem também para neonazistas é como se achassem que esses direitos só protegeriam os bandidos sanitizados que aparecem na cartilha ideológica.

Não é uma discussão por nada: palavras são importantes, conceitos claros são importantes, e denunciar o uso errado dos termos é necessário. Isto tem que ficar bem claro se quisermos tirar o país deste atoleiro intelectual.

Reforma trabalhista passa no Senado

Depois de muito tumulto, o Senado Federal aprovou o texto da reforma trabalhista – aquela que gerou tanta comoção e tanta desinformação dois meses atrás.

Fique registrado o ridículo de termos tido três senadoras ocupando a mesa diretora por mais de seis horas para tentar impedir a votação, entre ela Gleisi Hoffmann, atual presidente do PT. É o modo criança birrenta de fazer política: ou o Senado se curva à opinião minoritária delas, ou elas se arrogam o direito de paralisar a instituição – sabendo muito bem, como o sabem todas as crianças que fazem birra, que não serão punidas por isso.

Resumo: Against murderism

Scott Alexander é o melhor blogueiro da Anglosfera, e este é provavelmente o melhor texto sobre racismo/intolerância escrito em 2017. Recomendo lerem o texto inteiro; é difícil resumir em poucas linhas tantos argumentos importantes e com o quais eu concordo tão fortemente, mas vou tentar:

1. A definição mais consistente de racismo é aquela feita a partir dos (supostos) motivos das ações dos indivíduos: uma pessoa é racista quando odeia irracionalmente um determinado grupo étnico e tem intenção de lhes causar danos; um ato de racismo é um ato motivado por essa malevolência contra um determinado grupo. Mas essa não é a única definição de racismo em circulação.

2. Todo o discurso atual em torno da palavra racismo é uma mistura irresponsável de (pelo menos) três conceitos distintos; dois são meio inconsistentes, e geralmente são mencionados quando o conceito mais coerente não permite xingar os adversários de racistas.

3. Justamente por causa da confusão de conceitos, o termo “racismo” cresceu tanto em abrangência que passou a abrigar coisas muito díspares. Pessoas movidas por sentimentos os mais distintos e ações com as conseqüências mais diversas passaram a ser cobertas por uma definição de racismo amplíssima e cambiável.

4. Justamente por “racismo” ter-se tornado um conceito amplo e incoerente demais, as discussões atuais sobre racismo não são apenas pouco informativas, mas ativamente desinformativas e danosas ao debate de idéias (e mesmo ao combate ao racismo). O conceito amplo e incoerente de racismo estimulou seus ideólogos a explicarem qualquer coisa em termos de racismo, enquanto se recusavam a explorar explicações alternativas mais parcimoniosas.

5. A luta contra o racismo, em parte por se usar o termo tão mal, acabou se tornando parte de uma estrutura moralista para separar a tribo dos Bons da tribo dos Maus, sem qualquer espaço para nuance, gradação, ou generosidade de interpretação. Acusações de suposto racismo (que de tão mal definido, pode-se encontrar em qualquer coisa) tornaram-se uma desculpa para não ter que lidar com argumentos contrários em assuntos sensíveis e polêmicos – imigração, globalização, e welfare são alguns exemplos. Nos piores momentos, acusações de racismo se tornaram uma tentativa de desumanizar os adversários e incitar perseguição política.

Que esse texto seja polêmico já basta para indicar o triste estado em que se encontra o debate intelectual de hoje. Deveria ser simples compreender que, para se ter uma discussão frutífera, é preciso começar por definir bem os termos da discussão. Sem boas definições, não há como produzir nada que não seja confusão, moralismo irracional, e injustiça. Já faz mais de 2500 anos que se sabe disso…

Deveria também estar claro, para todos os que discutem essas coisas, que é preciso discuti-las de verdade: é preciso realmente ouvir o que os outros têm a dizer, mesmo que as opiniões deles pareçam desprezíveis dentro do seu sistema moral. Mesmo que os outros pareçam errados, mesmo que pareçam malignos, mesmo que pareçam ignorantes, não se discute nada quando sequer se considera a possibilidade de os adversários terem razão. E certamente, não se faz nenhuma discussão relevante com gritos de RACISTA! RACISTA!!1!! QUEIMEM A BRUXA!!

O texto usa “racismo” como modelo de discussão, mas naturalmente o argumento não se restringe a este assunto. Quase todos os Assuntos Importantes Sobre Os Quais Precisamos Falar sofrem do mesmíssimo mal: definições incoerentes e amplas, e moralismo rampante. Essa praga atingiu termos como fascismo, preconceito, feminismo, direitos, xenofobia, abuso, conservadorismo, meritocracia, ódio, – enfim, muitas das coisas que fazem parte da dimensão ideológica da política. Tal confusão não ocorre sem ter conseqüências práticas: à medida em que os conceitos se ampliam e se erodem, a comunicação entre os indivíduos vai se tornando mais difícil e frustrante; os adversários começam a parecer cada vez mais incompreensíveis, e eventualmente já nem parecem mais tão humanos quanto o ingroup. O resultado final disso – e Scott Alexander aponta muito bem – é a guerra civil. Sim, é esse o resultado.

Querem uma boa razão para se opor a esses delírios coletivos? Aí está.

Sobre a chapa Dilma-Temer no TSE e o Gólpi

Ontem o TSE retomou o julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, e eu estou curioso: segundo a galera que acredita n’O Golpe (TM) e que diz que estamos num Estado de Exceção, qual deverá ser o resultado? Um julgamento que pode tirar o mandato do presidente golpisto é certamente do interesse de uma facção golpista egoísta no poder; mas qual será o real interesse deles, qual será a ação destes entes das trevas?

Afinal, Os Golpistas do Grande acordo Nacional vão (tentar) manter a chapa? Vão tentar cassá-la? Vão deixar o julgamento correr solto porque o resultado lhes é indiferente, por alguma razão que eu não sei?

Posto de outra maneira, para aqueles que acreditam n’O Golpe mas são um pouco mais céticos: a eventual condenação ou absolvição da chapa será evidência do quê? Qual dos dois resultados fortalece a tese d’O Golpe, e qual lhe é contrária?

Se a chapa for mantida, devo ver nisso uma tentativa de manter o golpisto-mor lá em cima? Se a chapa for cassada, será uma tentativa de tirar legitimidade da eleição da Dilma? Ou não tem diferença, o golpe segue com ou sem a chapa Dilma-Temer, e o julgamento da chapa não faz diferença para a facção golpista?

Não sei, já que eles até agora pouco se manifestaram.

O julgamento da chapa Dilma-Temer é um dos acontecimentos mais críticos de 2017, um daqueles eventos que podem alterar totalmente o curso deste ano; mas os opiniudos estão quietos. Sakamoto? Nada até agora.  Pablo Villaça? O último post foi em 24 de maio. Gregório Duvivier, o socialista do Leblon? Está reclamando do João Doria, evidentemente. Eduardo Guimarães, aquele valente? Especulando sobre a eleição de Lula. Cynara Menezes? Considera que tudo isso é mera distração (na verdade, ponto para ela: pelo menos escreveu alguma coisa sobre o assunto). O pessoal do Cafezinho? Escreveu uma notinha para criticar o Temer, sem se posicionar sobre o julgamento em si.

Eu poderia ser mais generoso e assumir que eles estão evitando comentar por acharem o processo demasiado complexo e confiarem na Justiça; mas se fosse este o caso… por que não dizê-lo a seus leitores? Por que não comentar melhor um julgamento que pode derrubar o presidente, quando não se poupou esforços para comentar (muito mal, a propósito) o julgamento do impeachment?

Desconfio que parte da razão seja o fato de que Dilma e Temer estão juntíssimos na defesa da chapa conjunta, e a condenação destruirá os mandatos dos dois (salvo alguma interpretação heterodoxa nonsense). Isso gera um impasse para quem quer que Dilma seja 100% legítima e inocente e Temer 100% ilegítimo e culpado: defenda a chapa, e está defendendo o mandato de Temer; defenda a cassação, e está atacando Dilma. No mais, posso apostar que só o ter que admitir que a presidenta inocenta e o golpisto do mal estão juntos em alguma coisa (como estiveram por 5 anos, aliás…) gera muita tensão mental nesse pessoal que passou os últimos dois anos fingindo que Temer e Dilma nada tinham nenhum interesse comum.

Ninguém tem o dever de expor aqui sua opinião, evidentemente, mas seria bom pelo menos considerarem essas questões no fundo dos seus coraçõezinhos. Tentar prever um evento futuro usando a teoria é uma maneira de testar sua validade, e é uma ótima vacina contra racionalizações ad hoc – aquelas explicações post facto que sempre se encaixam na teoria (da conspiração) preferida de cada um, e que podem ser invocadas para dizer “eu avisei” quando na verdade o sujeito não disse nada.

De minha parte, minhas considerações:

1. Eu não tenho a menor idéia de se a chapa deve ser cassada ou não. Eu não li nem a lei, nem a acusação, nem a defesa, nem nada sobre esse caso. Não sei qual seria a decisão mais justa nos termos da lei.

2. Eu não sei se a chapa vai ser cassada ou não – acho mais provável que seja mantida, uma vez que já passaram quase dois anos e meio da eleição e seria inconveniente derrubar mais um presidente e ter que fazer eleições indiretas sob a gritaria do PT. Se eu não acho que a decisão deveria ser técnica, e não política? Acho, mas nada escapa de politização nos nossos tribunais superiores. Eles não respondem a ninguém, afinal…

2. Se a chapa for cassada, eu não vou gritar golpe – ao menos enquanto não ler motivos bons para isso.

3. Se a chapa for mantida, eu não vou gritar golpe – ao menos enquanto não ler motivos bons para isso.

4. Se Dilma e Temer forem julgados e punidos separadamente (como queria a defesa de Temer), eu vou achar injusto. A chapa é uma só, e é a chapa que está em julgamento! (sim, eu sei da argumentação de que as prestações de contas foram separadas entre PT e PMDB, mas acho-a fraca).

5. Se a chapa for cassada, eu não vou chorar por Temer, e vou querer a eleição INDIRETA para presidente feita pelo Congresso Nacional, porque é isso que determina a Constituição que temos.

6. Qualquer outra opinião que eu venha a formar sobre a justeza do julgamento será após os fatos, depois de ler o que quem entende dessas coisas escrever e comparar com o que eu sei de lógica e interpretação de texto.

Como fica claro, eu sei muito pouco do que está acontecendo e não vou empenhar muito esforço em entender essa bagunça. E exatamente por isso, não vou sair por aí gritando e acusando ninguém por causa de qualquer eventual resultado. E vocês?