Sobre a mostra Queermuseu do Santander

Se alguém aí está chocado, apoplético, absurdado com a “censura” da mostra cultural Queermuseu, é porque passou os últimos anos sem prestar atenção no estado da vida intelectual da nação.

Para quem não acompanhou a polêmica da semana: o Santander Cultural resolveu fazer uma mostra “artística” ao custo de R$800.000,00 de isenção fiscal via lei Rouanet (ou seja, deixaram de pagar 800 mil de impostos para bancar o troço, com aval do governo). A mostra Queermuseu incluía coisas como hóstias pichadas com palavrões e desenhos mal feitos com legendas como “criança viada travesti da lambada”, em meio a um monte de clichês pseudotransgressores.

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“Arte transgressora”, versão quarta série. Esta e outras fotos podem ser vistas neste link.

Uma bela porcaria, portanto – no conteúdo e na forma, mas muito especialmente nesta última. Claro que a mostra continha obras melhores, mas estava coalhada daquele tipo de produção que reivindica o nome de “arte” exclusivamente pelo choque que causa nas pessoas comuns; e que de resto, não exige técnica, não exige esforço, não exige inspiração, não exige busca pelo belo, não exige nada, e não exige sequer a boa vontade de se fazer entender pelo público. É a lacrada pela lacrada, simplesmente.

Bom: queriam chocar, e chocaram; e o resultado foi previsível para qualquer um que não esteja intoxicado pela romantização da “luta” e do povo. A mostra caiu no conhecimento do público (graças a visitas escolares e a páginas como a Socialista de IPhone) e gerou uma tempestade de indignação moral, com direito a acusações (no mínimo exageradas) de blasfêmia e pedofilia, que causou uma campanha de boicote ao Santander, que intimidou o banco, que cancelou a exposição. Restou o choro livre aos apoiadores.

Nossa intelectualidade está indignada com esse ato de censura e intolerância. O El País arranjou três artistas para reclamarem da censura conservadora, e a Mídia Ninja já saiu chamando o MBL (que teve muito pouco a ver com a história) de nazista (que visão! Prêmio Godwin para eles). Artistas assinaram um manifesto (aparentemente, é isso que os artistas mais fazem hoje em dia) e prometeram protestos.

Eu, porém, tenho um pouco de memória. O que aconteceu nos últimos dias pode ser resumido em um grupo fazendo pressão sobre uma instituição privada porque esta ofendeu a moralidade do grupo; e não faltam exemplos nos últimos anos de grupelhos que se arvoraram o direito de fazer A MESMA COISA, e com bem menos apoio popular, mas defendendo uma moralidade progressista. Por exemplo, para ficar só no mundo da arte:

– Começando em 2012, grupos de pressão acusaram a obra de Monteiro Lobato de ser racista, com diferentes subgrupos exigindo medidas como o banimento da obra ou a pelo menos a adição de notas explicativas. O caso chegou a ir ao STF; alguém aí veio dizer que “arte tem que chocar” em defesa dos livros?

– Em 2014, artistas protestaram contra o financiamento israelense à Bienal de Arte de São Paulo, já que, segundo eles “Ao aceitar esse financiamento, o nosso trabalho artístico exibido na exposição é prejudicado e, implicitamente, usado para legitimar agressões e violação do direito internacional e dos direitos humanos em curso em Israel”. Aliás, boicotes a artistas israelenses são bem comuns por aí, justificados em nome da rejeição à ocupação da Palestina. Alguém aí lembrou de dizer que “financiar não é apoiar”, como estão dizendo agora?

– Em 2015, o Itaú cultural cancelou a exibição da peça “A Mulher do Trem” por causa de acusações de racismo feitas pela militância. A peça tinha um ator fazendo blackface (em linguagem comum, um branco pintado de preto). A remoção da peça por conta deste pecado tão específico (quem além da militância americanizada conhecia isto?) gerou alguma reclamação por parte dos bem-pensantes?

– Em junho de 2016, Mc Biel viu sua carreira implodir após dizer safadezas para uma repórter que o entrevistou e se comprometer ainda mais nas explicações. Grupos online escavaram suas publicações, encontraram a tradicional combinação de machismo, racismo etc etc, e tanto barulho fizeram que intimidaram os produtores. Alguém achou isso imoral ou censório? (OK, neste caso nem eu)

– Em maio deste ano, cineastas nacionais e críticos de cinema organizaram um boicote (hilário, que eu comentei aqui) ao CinePE por conta da exibição do filme O Jardim das Aflições. A grandiloqüência do manifesto era ridícula e autoritária, mas vocês viram algum desses paladinos da tolerância criticar os cineastas?

– Há menos de um mês, uma dessas bandinhas alternativas (Apanhador Só) teve que cancelar shows após o furor gerado entre os fãs pela lavação de roupa suja de uma ex-namorada do guitarrista, que o acusou de ser desleal, abusador, e machista. O público ficou em chamas, e não quis mais saber da banda. Intolerantes, por acaso?

Minha visão é bem simples: primeiro, a vitória dos “conservadores” esta semana é só um sinal de que eles estão jogando o mesmo jogo que os “progressistas” e obtendo algum sucesso. Jogo, aliás, que nem foram os progressistas que inventaram: lobbying é mais antigo que andar pra frente, não é necessariamente ruim, e não é algo que se consiga banir da vida em sociedade. E uma vez existindo, existe para todos em algum grau: quem acha que o seu grupinho deve poder gritar e boicotar uma obra que lhe ofende precisa admitir esse mesmo direito para os demais grupos.

Segundo, cada um dos grupinho mencionados neste texto estava em seu pleno direito de manifestação (ao menos até começarem com práticas ilegais), mesmo aqueles cujas pautas me parecem erradas ou meio exageradas. Do mesmo modo, as empresas envolvidas tinham pleno direito de financiar as obras polêmicas e também pleno direito de retirá-las de cartaz quando acharam que seriam prejudicadas.

Terceiro, e mais importante: ter o direito de manifestar-se não torna a manifestação boa, justa e tolerante. É intolerância SIM querer barrar uma exposição ou um artista (mesmo que porcaria) só porque alguém discorda dela e ficou ofendido, como aconteceu nos casos mencionados acima. Mas acho importante lembrar que, no caso Santander pelo menos, havia mais fatores além da rejeição moral ao conteúdo e da rejeição estética da forma: o evento foi feito com dinheiro público (renúncia fiscal via lei Rouanet) e não tinha classificação etária, tendo sido inclusive recebido visitas de grupos de alunos de escolas de Porto Alegre. Ainda que se queira plena liberdade para exposição artística, não é razoável querer que o cidadão financie tudo isso calado e para todos os públicos.

E por fim quarto, só para não perder o costume: tem certeza que você quer um país em que tudo se dobra à vontade popular, amiguinho? Lembre-se que as idéias da massa não costumam coincidir com os ideais mais progressistas e tolerantes. A rejeição ao Queermuseu não foi ação de meia dúzia do MBL (ao contrário do que estão dizendo), foi um evento com adesão popular maior do que todos os outros protestos mencionados neste texto. Você quer mesmo que o país se torne um campo de batalha em que você tenha que medir forças com essa gente?

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Resumo: Against murderism

Scott Alexander é o melhor blogueiro da Anglosfera, e este é provavelmente o melhor texto sobre racismo/intolerância escrito em 2017. Recomendo lerem o texto inteiro; é difícil resumir em poucas linhas tantos argumentos importantes e com o quais eu concordo tão fortemente, mas vou tentar:

1. A definição mais consistente de racismo é aquela feita a partir dos (supostos) motivos das ações dos indivíduos: uma pessoa é racista quando odeia irracionalmente um determinado grupo étnico e tem intenção de lhes causar danos; um ato de racismo é um ato motivado por essa malevolência contra um determinado grupo. Mas essa não é a única definição de racismo em circulação.

2. Todo o discurso atual em torno da palavra racismo é uma mistura irresponsável de (pelo menos) três conceitos distintos; dois são meio inconsistentes, e geralmente são mencionados quando o conceito mais coerente não permite xingar os adversários de racistas.

3. Justamente por causa da confusão de conceitos, o termo “racismo” cresceu tanto em abrangência que passou a abrigar coisas muito díspares. Pessoas movidas por sentimentos os mais distintos e ações com as conseqüências mais diversas passaram a ser cobertas por uma definição de racismo amplíssima e cambiável.

4. Justamente por “racismo” ter-se tornado um conceito amplo e incoerente demais, as discussões atuais sobre racismo não são apenas pouco informativas, mas ativamente desinformativas e danosas ao debate de idéias (e mesmo ao combate ao racismo). O conceito amplo e incoerente de racismo estimulou seus ideólogos a explicarem qualquer coisa em termos de racismo, enquanto se recusavam a explorar explicações alternativas mais parcimoniosas.

5. A luta contra o racismo, em parte por se usar o termo tão mal, acabou se tornando parte de uma estrutura moralista para separar a tribo dos Bons da tribo dos Maus, sem qualquer espaço para nuance, gradação, ou generosidade de interpretação. Acusações de suposto racismo (que de tão mal definido, pode-se encontrar em qualquer coisa) tornaram-se uma desculpa para não ter que lidar com argumentos contrários em assuntos sensíveis e polêmicos – imigração, globalização, e welfare são alguns exemplos. Nos piores momentos, acusações de racismo se tornaram uma tentativa de desumanizar os adversários e incitar perseguição política.

Que esse texto seja polêmico já basta para indicar o triste estado em que se encontra o debate intelectual de hoje. Deveria ser simples compreender que, para se ter uma discussão frutífera, é preciso começar por definir bem os termos da discussão. Sem boas definições, não há como produzir nada que não seja confusão, moralismo irracional, e injustiça. Já faz mais de 2500 anos que se sabe disso…

Deveria também estar claro, para todos os que discutem essas coisas, que é preciso discuti-las de verdade: é preciso realmente ouvir o que os outros têm a dizer, mesmo que as opiniões deles pareçam desprezíveis dentro do seu sistema moral. Mesmo que os outros pareçam errados, mesmo que pareçam malignos, mesmo que pareçam ignorantes, não se discute nada quando sequer se considera a possibilidade de os adversários terem razão. E certamente, não se faz nenhuma discussão relevante com gritos de RACISTA! RACISTA!!1!! QUEIMEM A BRUXA!!

O texto usa “racismo” como modelo de discussão, mas naturalmente o argumento não se restringe a este assunto. Quase todos os Assuntos Importantes Sobre Os Quais Precisamos Falar sofrem do mesmíssimo mal: definições incoerentes e amplas, e moralismo rampante. Essa praga atingiu termos como fascismo, preconceito, feminismo, direitos, xenofobia, abuso, conservadorismo, meritocracia, ódio, – enfim, muitas das coisas que fazem parte da dimensão ideológica da política. Tal confusão não ocorre sem ter conseqüências práticas: à medida em que os conceitos se ampliam e se erodem, a comunicação entre os indivíduos vai se tornando mais difícil e frustrante; os adversários começam a parecer cada vez mais incompreensíveis, e eventualmente já nem parecem mais tão humanos quanto o ingroup. O resultado final disso – e Scott Alexander aponta muito bem – é a guerra civil. Sim, é esse o resultado.

Querem uma boa razão para se opor a esses delírios coletivos? Aí está.

Sobre os críticos que não distinguem as coisas

[Esse texto pode ser interpretado como uma versão TL;DR do post anterior]

A micropolêmica mais engraçada da última semana foi a que provocou o adiamento do Festival de Cinema de Pernambuco (CinePE).

Resumidamente, sete dos 28 diretores participantes resolveram retirar seus filmes da mostra em protesto ao que chamaram de “politização inédita” (HuEeE!) do festival – a exibição de dois filmes da “direita extremista”. Um deles era um documentário sobre Olavo de Carvalho, e o outro um documentário sobre o Plano Real. A confusão garantiu boa divulgação na imprensa a todos os envolvidos, mas os organizadores acharam melhor suspender a programação até a poeira baixar.

Vou ser direto: alguém que acha que um adversário político não é digno nem de subir no mesmo tablado é um intolerante. Ninguém precisa (nem deve) sair abraçando e elogiando os adversários que despreza e acha perigosos (né, Carina Vitral?), mas daí para achar imoral que o adversário se manifeste há uma longa distância. Toda a divergência ideológica que porventura haja entre os tais cineastas é só isso mesmo: divergência – uma discordância não violenta, não pessoal, e perfeitamente aceitável em uma sociedade minimamente livre. Alguém que se ofenda porque DOIS FILMES ENTRE VINTE E OITO são “de direita” e ache isso absurdo é um intolerante. Alguém que ache que um documentário sobre o Plano Real é “de direita”, ou que já tenha decidido que o documentário sobre o Olavo é necessariamente propaganda ideológica – SEM NEM TER VISTO O FILME! – é um intolerante. Alguém que só se incomoda com a politização da arte quando é o adversário que a politiza é um intolerante.

Que importância tem esse acontecimento? Por si só, nenhuma. Esse pessoal não tem um centésimo da importância que se arroga. Mas é interessante ler essas coisas para ver o grau de solipsismo e desconexão com a vida real que atingiu as nossas classes bem-pensantes. Lendo o manifesto, você fica com a impressão de que Heitor e Enéias estão enfrentando uma invasão nazista – quando só o que aconteceu foi sete birrentos fazerem birra.

Ainda mais ridículo do que ver esse pessoal tão desimportante reclamando e dando a si mesmos ares de grandeza e coragem foi o follow-up: um grupo de 34 “críticas e críticos de cinema” (só pela escolha das palavras já dá para saber em quem eles votaram nas últimas 5 eleições…), encabeçados aparentemente pelo Pablo Villaça, resolveu manifestar seu apoio aos bravos guerreiros cinematográficos. O manifesto dos 34 é tão cheio de autoilusão de grandeza e chavões mal explicados que é até difícil de criticar linha por linha – não sobraria uma sem contestação. Mas ali no meio, há uma frase muito interessante que resume muito bem a natureza da patologia de pensamento da turma:

“Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem”

Respire fundo, leia de novo:

“Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem”

Eis a raiz do mal. OS CARAS NÃO CONSEGUEM DIFERENCIAR AS COISAS. Vida e cinema, realidade e ficção, público e privado, evidência e opinião, pessoa e obra; é tudo a mesma coisa para os nossos amiguinhos. É por não saber dissociar coisas perfeitamente dissociáveis, é por não saber separar a realidade da interpretação torta da realidade, que essa gente é tão fanática, tão ridícula, e tão perigosa – se tiverem algum poder real, claro. Eles falando sobre cinema no máximo nos custam alguns milhões por ano…

Essa é a doença da mente dos nossos autointitulados intelectuais. O Plano Real foi feito por FHC, que hoje é considerado inimigo da esquerda. Como nada se distingue, logicamente um filme sobre o Plano Real tem que ser um louvor a FHC, tem que ser um ataque à esquerda, e por isso tem que ser considerado imoral e tem que ser boicotado. Porque sim. Nada se distingue, certo? Para quem, como Villaça & Cia., acha que a esquerda não se distingue do Bem, não há como a direita, e tudo que ela toca, se distinguir do Mal.

Não é por acaso que toda discussão decente depende das definições dos conceitos, da distinção entre as coisas. Não é por outra razão que Confúcio achava fundamental realizar a Retificação dos Nomes para que o país escapasse à convulsão (não foi feita, não escapou). Quando vida e cinema se distinguem nós temos chance de ter discussões produtivas sobre vida e cinema. Quando não, aí temos Pablo Villaça.

A coragem covarde no Cine PE

O Festival de Cinema de Pernambuco (Cine PE) é um evento… de cinema, que acontece em… Pernambuco (hehe) há 21 anos. A menos que você seja aficcionado por filmes nacionais ou trabalhe na indústria do entretenimento, você provavelmente nunca nem ouviu falar. O mercado cinematográfico brasileiro é dominado por títulos internacionais, segundo observações da própria Ancine, e os poucos filmes nacionais que se destacam no gosto do público tendem a não ser os filmes-arte que se exibe nesses festivais.

O festival se tornou um pouco mais conhecido esse ano devido a uma polêmica envolvendo alguns dos inscritos no evento. Sete dos 28 cineastas que participariam do festival decidiram retirar seus filmes da mostra em protesto contra a exibição dos documentários O Jardim das Aflições (direção de Josias Teófilo) – um filme sobre Olavo de Carvalho, ícone intelectual de uma parte da direita no Brasil – e Real: o Plano por trás da História (Rodrigo Bittencourt), sobre a criação do Plano Real. Eles alegaram não quererem suas obras associadas às da direita “extremista” e repudiarem a politização “inédita” da escolha dos filmes. Em vista das desistências de participação e da repercussão negativa, o Cine PE 2017 acabou sendo adiado.

Eu poderia criticar a intolerância evidente na medida; sim, os cineastas têm todo o direito de inscreverem e retirarem seus filmes do festival, mas isso não torna bons todos os seus motivos para fazê-lo. Recusar-se a meramente participar do mesmo evento que um adversário ideológico é quase um textbook case da dificuldade em lidar com a divergência.

O que mais me chama a atenção, porém, é que é tudo ridículo demais. São cineastas cujos filmes ninguém assiste, participando de um evento que 99,9% do povo desconhece, fazendo birra porque gente de fora do clubinho foi convidada para o mesmo evento que eles. Toda a atitude deles mostra um senso de autoimportância que só se encontra mesmo nos aspirantes a artistas. Tentem ler isso sem rir: o diretor do filme Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica (!) retirou sua gloriosa obra de um festival obscuro em protesto contra um filme de extrema direita.

Mas o que é ridículo pode sempre ficar mais ridículo. Um grupo de críticos de cinema, o mais famoso deles sendo Pablo Villaça (evidentemente…), resolveu lançar uma nota de apoio aos cineastas rebeldes. Já é meio estúpido um cineasta querer evitar que o público veja sua obra por causa de divergências políticas com os coleguinhas; que dizer então de um crítico de cinema, cujo ganha-pão é assistir filmes e criticá-los… mas a nota deste grupelho me chamou mais a atenção, porque é um ótimo exemplo de algumas patologias do pensamento que são muito comuns na nossa classe pensante – formada sempre por esquerdistas de classe média.

Eis o texto, retirado da página do Pablo Villaça no Facebook. Destaco alguns trechos em negrito, e comento tudo.

“MANIFESTO DE APOIO AOS CINEASTAS QUE RETIRARAM SEUS FILMES DO CINE PE

Nós, críticas e críticos de cinema, manifestamos nosso irrestrito apoio à decisão soberana dos cineastas que retiraram seus filmes da programação da 21ª edição do Cine PE – Festival de Cinema de Pernambuco. Da mesma forma, refutamos os argumentos de setores do cinema e da mídia hegemônica que classificam a atitude como censura, uma vez que não se reivindicou a proibição de nenhuma obra programada.”

Traduzo: nós, críticos subescreventes, apoiamos os cineastas que pularam fora do Cine Pe, e achamos que não foi censura.

Eles têm toda a razão em dizer que não é censura; é só intolerância mesmo. E eles podem apoiar quem quiserem, evidentemente. No entanto, algumas observações:

É engraçado como, às vezes, dá para prever todo o texto a partir de uma única frase. Os subescreventes poderiam ter dito simplesmente “nós, críticos de cinema”, uma vez que na língua portuguesa o gênero masculino é usado como gênero neutro. Mas não, pois como informam nossos luminares do pensamento nacional, a língua é sexista e é preciso nos esforçarmos para torná-la mais neutra. Eles poderiam ter escrito “nós, críticos e críticas de cinema”, pois é o usual na prosa da nossa língua listar o gênero neutro/masculino antes do gênero feminino. Mas não; pôr os homens antes das mulheres também é prova do sexismo na língua (link do governo do RS, p. 24), e nossos bravos cineastas são antes de tudo contra os preconceitos e discriminações. E contra a direita, claro. Só a partir desse começo já dá para saber que eles vão apoiar qualquer coisa contra a “direita”, e que esse povo votou no PT nas últimas cinco eleições…

À parte isso, notem o uso ruim e impreciso das palavras: a decisão dos cineastas é “soberana”. Quê? Decisão soberana é aquela tomada pelo Estado sem que haja qualquer direito de contestação (exceto a guerra). Os sujeitos usam o mesmo adjetivo para se referirem à prosaica e desimportante decisão de participar de um evento. Da mesma forma, eles dizem ter “refutado os argumentos”; é uma frase pronta emprestada das discussões de retórica/filosofia na internet. Refutar um argumento é demonstrar que ele está errado. Quais argumentos foram refutados nesse texto? A única coisa parecida com um argumento é a afirmação (que não é argumento…) de que haveria censura em retirar-se do festival. Cadê os outros? E onde estão as referências aos textos da “mídia hegemônica” (ai, ai..) que falaram em censura?

“Repudiamos o discurso que busca deslegitimar e diluir a potência de ação política de quem não transige com o desmantelamento do estado de direito que se seguiu ao golpe branco de 2016. O atual estado de exceção tem tido repercussões altamente negativas sobre o setor audiovisual, como os desmandos da administração no âmbito do Ministério da Cultura e a tentativa de boicote ao filme “Aquarius” após o protesto de sua equipe em Cannes.”

O palavrório ficou mais rebuscado, mas traduzo: discordamos de quem nos acha ridículos. Estamos combatendo o gólpi, que foi muito ruim para o setor audiovisual.

Notem, de novo, o uso impreciso dos termos. O que quer dizer “deslegitimar”? Essa palavra é uma buzzword que aparece vez por outra em textos de esquerda, e ninguém sabe dizer o que realmente é essa tal deslegitimação. Aparentemente, é o novo nome para as críticas de que o grupinho não gosta.

Ainda, “estado de exceção”. Um estado de exceção é uma situação em que as leis são suspensas por razão de extrema necessidade da parte do governo – legítimo ou não. É o que aconteceu na Turquia, por exemplo, após a tentativa de golpe militar do ano passado. Aparentemente, os nossos críticos acham que o Brasil passa por coisa similar. Que comentar? Quando alguém chega a esse nível de ilusão não há nada que se possa fazer.

Nós entendemos que vida e cinema não se distinguem. Qualquer prática, privada ou pública, feita por cidadãs e cidadãos é um ato político. E como tal deve ser considerado. Quem fala de democracia hoje neste país deve falar necessariamente de combate e resistência. Foi exatamente isso o que fizeram esses cineastas. Em nosso entendimento, sua iniciativa nada tem de censura ou intolerância. Eles exerceram o direito legítimo de não compactuar com a formação de uma tribuna para o pensamento ultraconservador que ora se vê encorajado pelo governo Temer.”

Traduzo: nós não sabemos separar ficção de realidade, e vida pessoal de vida pública. E nós achamos que estamos lutando uma nova Guerra de Tróia contra o governo de plantão ao espernearmos contra um filme sobre um filósofo que também detesta o governo atual.

A frase em negrito traz o ponto mais grave sobre este manifesto, e todo este meu textão serve só para chegar aqui. Para os nossos críticos, vida e cinema não se distinguem. Isso explica muito da loucura coletiva deles e de todo e qualquer correligionário de esquerda que os apóie: eles não conseguem distinguir as coisas. Eles não conseguem separar campos distintos da atividade humana. Vida real e ficção são a mesma coisa, trabalho e vida pessoal são a mesma coisa, obra pública e comportamento privado são a mesma coisa, pessoa e país não se distinguem, descrição e defesa não se distinguem.

Se essas pessoas realmente acreditam no que escreveram, toda a irrazoabilidade deles se torna inteligível. Se vida e cinema não se distinguem, e eles querem a “direita” longe da sua vida, faz todo o sentido reagirem anafilaticamente a um filme de direita. Se a mera tolerância já se confunde com apoio à causa, faz todo o sentido serem intolerantes.

Ainda, reparem que a escrita enganosa e imprecisa persiste: “combate e resistência”. Que combate? Algum desses aí está pegando em armas contra o Temer? Que resistência? Por acaso o governo os estava obrigando a participar do festival? Eles falam em pensamento ultraconservador encorajado pelo governo Temer – Olavo é contra Temer, pô. E o plano Real nada tem a ver com conservadorismo.

“Por fim, agradecemos aos realizadores que fizeram aquilo que Guimarães Rosa escreveu genialmente sobre a vida: o que ela quer da gente é coragem.”

Coragem. Mais uma palavra que perdeu o significado. Os valentes estão arriscando o que exatamente com esse manifesto? Todos eles já têm público cativo, majoritariamente de esquerda. Nenhum deles será processado e preso e torturado por ter se manifestado. Nenhum deles será excluído de festivais futuros ou dos novos editais do MinC por terem se manifestado – ao contrário, são os seus adversários “conservadores” que têm dificuldade em conseguir financiamento e contatos no mundo artístico. Nenhum deles sofrerá violência por ter dito o que pensava. Onde está a coragem nisso tudo?

Segue-se a lista dos valentes:

“Alysson Oliveira, André Dib, Beatriz Saldanha, Bianca de França Zasso, Bruno Ghetti, Carlos Alberto Mattos, Carlos Primati, Cecilia Barroso, Celso Sabadin, Cesar Zamberlan, Chico Fireman, Daniel Medeiros, Diego Benevides, Filippo Pitanga, Ivonete Pinto, Janaína Oliveira, Joao de Oliveira, Juliana Costa, Larissa Padron, Luiz Zanin, Maria Do Rosário Caetano, Marcus Mello, Neusa Barbosa, Pablo Villaça, Pedro Butcher, Raphaela Ximenes, Regina Behar, Renato Félix, Renato Silveira, Roberta Canuto, Rodrigo Fonseca, Roni Filgueiras, Samantha Brasil, Susy E.C. Freitas”

 

Em tempo: os termos do protesto parecem ter sido exagerados demais mesmo para a fanbase do Pablo Villaça. A postagem teve cerca de um décimo do engajamento usual que têm os posts políticos do autor. Ele respondeu aos críticos (imagino que após banir metade deles):

Desculpe, mas não é questão de intolerância, mas de não legitimar um evento que representa uma postura anti-democrática. Não se trata, aqui, de algo simplista como “patrulhamento ideológico” ou de uma tentativa de pré-condenar obras ligadas a um pensamento reacionário; a inclusão dos longas O Jardim das Aflições (sobre Olavo de Carvalho) e de O Plano Real não é simplesmente uma mera questão de curadoria diversificada, mas de um gesto claramente político por parte dos responsáveis pelo CinePE. Um de seus idealizadores não apenas apoiou a deposição ilegítima de uma presidenta eleita democraticamente como quase imediatamente assumiu um cargo importante no “governo” colocado em seu lugar. Pior: em sua passagem pela Secretaria do Audiovisual, basicamente permitiu (isto para não dizermos “iniciou”) uma perseguição – aí, sim – ideológica, política, contra o longa “Aquarius” e contra seu diretor, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, o que envolveu escalar para a comissão de seleção do Oscar um “crítico” que não apenas se alinhava desde o primeiro momento ao pensamento golpista como atacou publicamente o filme e seu diretor antes mesmo de assistir à obra. O resultado todos conhecem.

Ele não aceita que filmes conservadores estejam representados no festival, mas o festival é que é anti-democrático. Villaça TAMBÉM NÃO ASSISTIU as obras que está criticando, mas já está fazendo campanha contra – enquanto critica o adversário por supostamente ter feito o mesmo.

“Além disso, é público e notório que os realizadores de O Jardim das Aflições fizeram diversos ataques virulentos aos colegas cineastas que se posicionaram à esquerda, chegando a fazer ilações irresponsáveis e difamatórias até mesmo com relação ao financiamento de seus trabalhos.”

O homem que fez ataques virulentos no parágrafo anterior da resposta não se conforma que os adversários também o façam. O homem que acusa o adversário de perseguir o filme “Aquarius” (com que provas, amigo Villaça?) reclama das ilações irresponsáveis e difamatórias… dos outros.

“Portanto, a decisão corajosa dos sete cineastas de retirar seus filmes do CinePE não é, como se pode perceber, um esforço de censura, mas um posicionamento claro diante da constatação de que, ao incluir especificamente estes dois filmes, os responsáveis pelo festival não apenas dão continuidade à postura reacionária, anti-democrática, que assumiram no ano passado como a reforçam através do evento. Um evento cuja legitimidade está associada precisamente à presença de obras como aquelas criadas pelos sete diretores e diretoras.”

Que lindo. O simples fato de haver DOIS filmes “reacionários” em meio a VINTE E SEIS outros filmes é um sinal claro de reacionarismo. E o reacionarismo, na opinião do Villaça, é sempre anti-democrático. Quantos autores reacionários será que ele leu? Quantos amigos reacionários ele tem? Quão preocupado ele realmente está com as tais “ilações irresponsáveis”, já que faz questão de fazê-las em seus textos?

E vejam só! A legitimidade (o que quer que seja isso) do festival é dada justamente por obras como aquelas dos sete esquerdistas que se retiraram. Como Villaça acredita que vida e cinema não se distinguem, tenho que concluir que os cineastas esquerdistas produziram obras que não se distinguem das suas vidas, e são obras de esquerda. Agora entendi: para Villaça, o que confere “legitimidade” ao festival é ele expor obras de esquerda. Se não tem esquerda, não é legítimo; se tem direita reacionária, não é legítimo também.

Democracia, versão esquerda classe média: só é legítimo quem concorda comigo.

“E, portanto, permanecer no festival – por mais que isso trouxesse visibilidade aos seus trabalhos – seria contribuir para a legitimação desta postura lamentável, anti-progressista, dos diretores do CinePE. E que tenham tido a coragem de sacrificar esta exposição de seus trabalhos em prol de sua integridade ética e política é algo que deveria inspirar aplausos, não condenação.”

Finalizemos com uma observação prática e cínica: os trabalhos dos ditos cineastas tiveram muito mais cobertura midiática e atenção do público depois da polêmica. Podem apostar que esses sete filmes terão o dobro da minguada bilheteria usual, com os engajadinhos de esquerda fazendo questão de assistir as grandes obras desses guerreiros da lei Rouanet. Foi assim com a polêmica em torno de “Aquarius”. Ou seja, sequer o público os cineastas sacrificaram nesse ato abnegado de protesto político.

E não é sempre assim?