O nazismo era nazista

O incidente de Charlottesville trouxe-nos um dos espetáculos do infinito dia da marmota que é a internet: a discussão de se o nazismo seria de esquerda ou de direita. É sempre a mesma coisa, sempre prossegue da mesma maneira estúpida e desonesta, sempre termina sem terminar; desta vez não vai ser diferente. Mas cabe responder à pergunta mesmo assim: afinal, era de esquerda ou de direita?

Resposta curta e rápida: nazismo não era de direita nem de esquerda, e quem o classifica como extrema-direita ou extrema esquerda não sabe o que diz1. O nazismo era nazista, porque a parte mais relevante de sua ideologia – aquela que melhor explica suas as ações – era totalmente sui generis.

Classificar o nazismo no eixo direita-esquerda é mais complicado e mais propenso a distorções do que parece à primeira vista, uma vez que os termos “esquerda” e “direita” têm mais de uma definição honesta possível, além da miríade de definições desonestas que invariavelmente são usadas em todas as polêmicas.

A começar, a definição pode ser feita a partir de princípios (“é esquerda quem defende X”) ou a partir de afiliação (“é esquerda quem se diz de esquerda e como tal é reconhecido”). Ambas as definições têm argumentos que as recomendam, mas dão resultados diferentes na hora de classificar os movimentos políticos. Só isso já basta para gerar divergências2.

O problema continua quando se observa que as posições defendidas por direita e esquerda não se mantêm constantes ao longo do tempo3; que a maioria das posições políticas possíveis não é intrinsecamente de esquerda nem de direita4; e que pautas que nascem em um lado do espectro político podem vir a ser defendidas pelo outro conforme o tempo passa5. Isso ocorre porque a definição mais correta e coerente possível de esquerda e direita não nos diz nada sobre que bandeiras cada uma defende, mas sim sobre o método de escolher as bandeiras: direita é conservadorismo, esquerda é progressismo. Grosso modo, a direita quer preservar as instituições de 100 anos atrás e destruir as de 20 anos atrás; a esquerda quer o contrário. Ao procurar substitutos para o que cada uma quer destruir, a direita olha para o (suposto) passado, e a esquerda para o (imaginado) futuro. Notem que essa definição praticamente implica em as pautas mudarem de lado com o passar do tempo, como de fato vemos acontecer6.

Por conta disso, uma posição defendida pela esquerda de 1917 pode ser defendida pela direita de 2017; e como a discussão está acontecendo em 2017 mas se refere a fatos antigos, é possível justificar que se chame de “esquerda” tanto uma pauta que era esquerdosa antigamente e hoje não é mais, quanto uma pauta que hoje é de esquerda mas na época era conservadora. Muitos textos sobre o nazismo recorrem a essa ambiguidade para forçar o encaixe do partido na direita ou na esquerda.

(Há também o problema de decidir quais, dentre as muitas bandeiras que cada lado da guerra política levanta, são as bandeiras mais relevantes e definidoras de cada lado. Um critério muito amplo ou muito rígido, como freqüentemente se usa em debates sobre o nazismo, gera resultados estranhos se aplicado consistentemente. Se comunismo é a bandeira que definia a esquerda7, então toda a social democracia teria que ser chamada de direitista. Se nacionalismo define a direita, então Mao tem que ser chamado de direitista)

Some-se a isso o hábito dos fanáticos de cada um dos lados atribuírem todos os males do mundo ao outro lado, e tem-se a receita para um debate pseudointelectual 100% descompromissado com informar o público. Assim, somos informados de que o nazismo era de direita por ser autoritário (Stálin, alguém lembra?), por ser antissemita (Marx?), por ser nacionalista (Mao?), por se favorável à propriedade privada (Lula?), e por ser militarista (Maduro?); nenhuma dessas características é exclusiva da direita, porém. Outros nos dizem que o nazismo era de esquerda por querer um Estado inchado (Franco?), ser uma ditadura (Médici?), e controlar a imprensa (todas as anteriores). Nenhuma dessas características é exclusiva de direita ou esquerda, mas não faltam textos que tentem avançar essas teses.

No caso específico do nazismo, ainda há dois fatores complicadores8: o programa nazista mudava mais do que as fases da Lua, e os nazistas eram notórios manipuladores e mentirosos9. Uma posição defendida em 1925 podia ser revertida em 1930, voltar em 1933, ser publicamente condenada em 1938, e aparecer novamente em memorandos internos de 1944. Não é por acaso que os historiadores concordam bastante quantos aos fatos materiais sobre o nazismo, mas discordam muito quanto a motivos, idéias, e planos.

Como concluir qualquer coisa no meio desta confusão?

Vamos por partes: analisando o nazismo a partir de sua atuação política de fato, a situação é bem complicada. Os nazistas mantinham uma plataforma socialista e populista (ver abaixo), mas sempre fizeram questão de atacar os comunistas e fazer de tudo para retirá-los da política alemã (embora as relações exteriores com a Rússia tenham sido menos maniqueístas), o que lhes rendeu a simpatia e a aliança de muitos conservadores (exceto, notoriamente, os ligados a partidos religiosos); alguns consideram isso evidência de que, na prática pelo menos, o nazismo foi de direita – mas não faz sentido. Briga interna, perseguições entre facções de esquerda, e alianças estranhas não são nenhuma novidade, e não bastam para desqualificar a inclinação de esquerda do partido. Ao mesmo tempo em que atacava sem piedade o comunismo, o nazismo se apresentava como uma variante mais aceitável e correta do socialismo. E é importante lembrar que os ataques virulentos ao comunismo não impediam os nazistas de atacarem (com menos violência, claro) as demais correntes da política alemã. Capitalistas, tradicionalistas, religiosos, todos que não fossem nazistas estavam sujeitos aos seus ataques.

A relação do nazismo com a esquerda fica mais interessante se formos analisá-lo a partir de seus princípios; é difícil negar que, no espectro esquerda-direita, o nazismo começou pendendo para a esquerda, por mais que rejeitasse o marxismo. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães começou atacando a burguesia, o capitalismo, as grandes empresas, e o rentismo, e defendendo a socialização dos lucros das empresas com os empregados, o Estado de bem estar social, a nacionalização de indústrias estratégicas e a reforma agrária – pautas mantidas pela esquerda nos últimos 200 anos. Está tudo lá nos 25 pontos de 1920. O partido também foi contrário à restauração da monarquia alemã e à influência religiosa sobre o governo (notoriamente a da Igreja Católica, cujo partido centrista competia com os nazistas por votos na parte católica da Alemanha).

O programa nazista original era basicamente um programa de esquerda – exceto que nele também se encontra uma forte insistência no nacionalismo, que (na época, como hoje) era visto como no mínimo secundário pela esquerda (e ativamente desprezado pelos setores marxistas), e que desde o começo abunda a rejeição ao comunismo nos escritos dos membros do partido – numa época em que o comunismo era mais ou menos apoiado por toda a esquerda. Apesar disso, a passagem do tempo inegavelmente distanciou o partido das promessas mais esquerdosas e aumentou o foco nos elementos militaristas e peculiares do nazismo (especialmente depois da Röhm Putsch), de modo que o caráter esquerdista do programa acabou tendo pouca influência no regime de fato. O nazismo deslocou-se em direção ao centro conforme ganhou mais poder, e estacionou em algum lugar entre o centro e a centro-direita. Virou uma ditadura oligárquica comum, com os membros do partido formando a nova elite. Esta não é uma trajetória incomum; o Partido Comunista Chinês e o governo comunista da Coréia do Norte passaram pelo mesmo processo em tempos recentes – este último basicamente converteu-se em uma monarquia hereditária absoluta.

Ocorre que toda a discussão sobre o nazismo ser de esquerda e direita é de pouca importância para entender o nazismo, porque a parte mais relevante de sua ideologia era sui generis. Aliás, essa discussão é danosa ao debate, pois faz parecer que o grande problema do nazismo seriam seus elementos esquerdistas ou direitistas, quando não são: o elemento apomórfico é responsável por 90% da ruindade do regime. Não foi por ter sido autoritário ou anticomunista ou anticapitalista que o nazismo foi terrível – isso explica os horrores de Stalin ou de Leopoldo II, mas não os de Hitler: este foi o que foi por fazer da crença na pureza racial alemã e na necessidade de mantê-la a qualquer custo uma política de Estado. Foi daí que adveio a barbárie. Foi o antissemitismo nazista que matou milhões de judeus, não seu anticomunismo ou anticapitalismo. Foi a crença no Lebensraum que os levou a massacrar a Polônia. E esta parte da ideologia não é de esquerda nem de direita, mas sim uma síntese de elementos antigos e ciência de época feita unicamente pelos nazistas, e por mais ninguém.

Reparem: o nazismo não foi o único regime fascista que existiu, mas foi o mais assustador, o mais terrível, e o mais odioso. Mussolini, Franco, Salazar, e Getúlio eram fascistas, e não foram nem de longe tão ruins quanto Hitler. Por quê? Porque a parte nacionalista e militarista da ideologia deles não se baseava fortemente em idéias raciais, mas sim no conjunto mais regular de identidade nacional (língua, história, cultura, religião, etc.); e a parte coletivista da ideologia coletivista deles não incluía sacrificar o povo numa guerra racial total. Sem o ângulo racial, Hitler teria sido como eles: um desastre para a Alemanha, mas não uma tragédia para o mundo.

É por isso que eu digo que a discussão sobre esquerda e direita é irrelevante para entender o nazismo, que saber se o nazismo era um ou outro é irrelevante para entender esquerda e direita, e que o nazismo era, antes de tudo, nazista: as idéias que tornaram o nazismo tão letal e tão odioso não vieram de nenhum dos lados, não podem ser derivadas das crenças de nenhum dos lados, e foram gestadas politicamente somente dentro do partido nazista. Perguntar se eles seriam de esquerda ou de direita faz tanto sentido quanto perguntar se César era de esquerda quando derrotou os gauleses ou se Tamerlão era de direita quando conquistou a Ásia central.

Resumindo: o nazismo era de esquerda ou direita?

1. O nazismo começou com mais elementos de esquerda do que de direita, e gradualmente moveu-se em direção ao centro do espectro político conforme ganhava mais poder.

2. Os elementos de esquerda e de direita explicam muito pouco do fenômeno que foi o nazismo (uns 10%, estimo), e portanto discutir sobre esquerda e direita no nazismo é discutir sobre trivialidades enquanto se ignora um tema maior.

3. A maior parte das ações dos nazistas são explicadas pela parte mais peculiar e única de sua ideologia – a crença em pureza racial, em um Lebensraum, e o antissemitismo exacerbado – algo que transcende a divisão direita-esquerda, e é uma mistura de elementos antigos reinterpretados à luz de ciência duvidosa e filosofia moderna.

Termino aqui. Agora guardem este texto para quando, daqui a uma ano, voltarmos a ter essa discussão inútil quando um neonazista disser que apoia o Bolsonaro ou quando uma suástica convenientemente aparecer desenhada em algum banheiro de universidade federal.


Notas:

1 “extrema direita” ou “extrema esquerda” implica uma adesão total à ortodoxia de um dos dois lados – ou pelo menos que o partido proclame e acredite que está aderindo aos extremos “verdadeiros” da esquerda ou da direita. Partidos cuja ideologia não pode ser mapeada totalmente em um dos lados e/ou que não clamam representar a verdadeira forma de um dos lados da disputa não podem ser “extremos” do espectro político. O nazismo, como o resto deste texto argumenta, não possui idéias de somente um lado do espectro político e nunca, até onde sei, clamou ser 100% de esquerda ou de direita.

2 para um exemplo dos vários problemas que o uso de definições diferentes acarreta, vide a discussão entre pseudoerasmus e Jonah Goldberg. O problema de jogar o fascismo italiano e o nazismo no mesmo balaio também é bastante proeminente no debate. Reparem os textos são de 2015; o assunto vem e volta todo ano.

3 por exemplo, o mainstream da esquerda já aprovou a ditadura do proletariado, mas hoje o rejeita. O mainstream de direita já foi decididamente contra o liberalismo econômico, mas hoje o aceita sem muitas restrições.

4 por exemplo, a ética da não violência, a preferência pela democracia, a defesa da responsabilidade fiscal, a importância do comércio internacional – assuntos politicamente relevantes que não se encaixam na dicotomia esquerda-direita.

5 por exemplo, aposentadoria. Começou como parte do Estado de bem estar social defendido pela esquerda, mas hoje foi perfeitamente incorporado à direita mainstream.

6 um exemplo real (se bem que polêmico) disso é a defesa moderna da eugenia e da ciência da classificação racial, que começou entre os progressistas do início do século XX (acreditem se quiserem) e hoje só subsiste em uma parcela pequena dos reacionários.

7 como diz nas entrelinhas o péssimo texto do Michel Gherman no Estadão, que para a tristeza de quem tem cérebro está entre os mais lidos desta semana. Gherman escreve um texto sobre a ideologia nazista sem citar os pontos do programa nazista, muitos dos quais eram escandalosamente de esquerda, e tenta igualar “esquerda” com “marxismo ortodoxo”. Após “””provar””” que o nazismo não pode ser de esquerda porque odiava o marxismo e os judeus, Gherman salta sobre a lógica para concluir que o nazismo era de extrema-direita, sem nem tentar argumentar. Ler isso aí vindo do coordenador do Centro de Estudos Judaicos da UFRJ é desalentador. Flávio Morgenstern lhe  deu uma resposta apropriada.

8 na verdade, há um terceiro fator complicador, que é a atitude do pós-guerra. A derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial é praticamente o mito de criação da sociedade ocidental contemporânea, e Hitler é um daqueles poucos personagens que se convencionou ser dever cívico odiar – aliás, não só odiar, mas demonstrar o ódio sempre que possível, sob pena de alguns olhares esquisitos. Neste contexto, é previsível que quem queira provocar desprezo a um adversário acuse-o de compactuar, ou de ter qualquer coisa em comum, com os nazistas (ver reductio ad hitlerum e Lei de Godwin). E como o tema é quente e dominado pelo moralismo, encontra-se historiadores e pundits de todos os lados com os argumentos mais distorcidos possíveis para tentar “provar” que o nazismo era exatamente igual a [insira grupo de que você não gosta aqui] e quem discordar é Literalmente Hitley.

9 como exemplo do nível de quão longe a manipulação chegava no tempo dos nazistas, olhem esse trecho sobre o assassinato de Moritz Schlick por Johann Nelböck em 1936. Nelböck era mentalmente perturbado, e alegou ter cometido o crime porque a filosofia anti-metafísica de Schlick teria perturbado seu senso de autocontenção (ou talvez por questões de amor). O evento foi cooptado pelos nazistas para atacar os judeus, embora nenhum dos dois envolvidos fosse judeu e o crime não tivesse qualquer relação com política! A “pós-verdade” de hoje não é nada por comparação.

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